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Beneficiários do Bolsa Família saem do emprego para receber auxílio? Veja o que dizem especialistas

PESQUISADORES ANALISAM QUE PROGRAMA PODE IMPACTAR TRABALHO FORMAL, MAS NÃO CAUSA ABANDONO DE EMPREGO

4 jul 2025 - 15h10
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Uma postagem viralizou no Instagram com a afirmação de que os beneficiários do Bolsa Família costumam deixar seus empregos para viver do auxílio. Mas essa alegação não encontra respaldo em dados reais. De acordo com pesquisadores consultados pelo Estadão Verifica, embora o programa de distribuição de renda possa diminuir em alguns casos a procura por colocação entre aqueles que já são atendidos, não há registro massivo de quem deixe o emprego para viver do benefício.

Estar empregado ou trabalhando não impede o recebimento do Bolsa Família. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que 75% (1,27 milhão) dos empregos criados no ano de 2024 foram ocupados por participantes do Bolsa Família.

Em relação aos postos de trabalho gerados até abril de 2025 (920,7 mil), 75% (689,3 mil) foram preenchidos por quem compõem o Cadastro Único, programa destinado para pessoas em situação de baixa renda. Desse montante, 54,2% (498,7 mil) de vagas formais foram ocupadas até o mês pelos beneficiários do Bolsa Família.

Segundo os especialistas entrevistados, os efeitos positivos e negativos do programa no mercado de trabalho ainda são alvo de estudos, principalmente porque o Bolsa Família passou por mudanças em sua configuração nos últimos anos. Até 2021, o valor médio do programa por família era de R$ 110, corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em agosto de 2022, o benefício subiu para R$ 600.

A economista Joana Naritomi, professora da Escola de Economia e Ciência Política de Londres (LSE), explicou que existem indícios de que a procura por trabalhos formais pode diminuir em famílias que estão próximas aos limites de renda do programa (R$ 218, por pessoa), a fim de não serem excluídas do benefício.

"Existe algum desincentivo que aparece nos dados. Porém, isso é uma coisa que precisa ser olhada com cuidado, porque é sempre possível que um programa que tenha um enquadramento com base em renda, gere algum tipo de distorção para famílias que estão se aproximando daquele limite", disse.

Joana explicou que não há indícios de que os beneficiários do programa saíam de seus empregos para passar a receber o valor. "Esse tipo de efeito, de uma pessoa deixar de trabalhar porque tem o benefício garantido, é muito baixo na literatura", afirmou.

O economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE-FGV), que estuda o impacto da expansão do Bolsa Família no mercado de trabalho, afirma que, antes de 2020, o programa não tinha nenhum efeito negativo nos empregos e, inclusive, ajudava o acesso ao trabalho para mulheres e mães. Porém, segundo ele, o cenário mudou nos últimos anos.

"Com a nova configuração do Bolsa Família, em que o benefício mais que dobrou, começamos a ver evidências de que o programa tem reduzido a participação no mercado de trabalho", pontuou.

"Em áreas com mais expansão de beneficiários, há uma redução, principalmente na população mais vulnerável, como mulheres e jovens, que podem ter salários mais baixos e menos inserção no mercado. Isso tende a afetar principalmente o trabalho formal", explicou.

De acordo com o pesquisador, famílias podem temer entrar em empregos com carteira assinada por medo de perder o benefício. Porém, ele afirma que não há evidências de que pessoas deixem os seus empregos apenas para receber o dinheiro do programa social.

"Vale notar que não existe um movimento de pessoas que saem de seus empregos porque preferem receber o Bolsa Família. O que acontece é que famílias que já são atendidas deixam de procurar ou procuram menos um emprego formal", disse.

"Elas têm mais medo de perder a renda do programa do que um suposto benefício futuro do emprego formal, especialmente num mercado de trabalho que é conhecido pela alta rotatividade", explicou.

Ao Verifica, o pesquisador Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão vinculado ao Ministério da Economia, explica que o Bolsa Família faz com que os beneficiários deixem de buscar por postos de trabalho com remuneração muito baixa e condições precárias, ajudando a elevar o preço mínimo do trabalho dos mais pobres.

"O efeito mais forte causado pela injeção de renda é aumentar a demanda por bens e serviços locais, o que resulta em mais contratações e no crescimento dos empregos com carteira", disse. "Isso é intenso nas localidades mais beneficiadas e nos grupos mais pobres da população".

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Beneficiário do Bolsa Família entra no índice de desemprego? Pedro Fernando Nery explica em vídeo

Beneficiários que encontram emprego podem entrar na regra de proteção

Neste ano, mais de 20 milhões de famílias participam do programa Bolsa Família. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Assistência Social e Combate à Fome (MDS), mostram que, até abril, cerca de 53 milhões de pessoas são contempladas, sendo que 44,3% (23,8 milhões) são crianças e adolescentes. No último mês de junho, o valor médio de repasse foi de R$ 666.

Para fazer parte do programa, a família - incluindo famílias unipessoais - precisa ser inscrita no CadÚnico, com renda de até R$ 218 por pessoa. Os contemplados podem incluir pessoas que trabalham com carteira assinada, Microempreendedor Individual (MEI) ou quem tiver outra renda, contanto que esteja dentro do limite.

No atual modelo, foi adicionada uma regra de proteção para que pessoas possam aumentar a sua renda e continuar recebendo parte do benefício. A partir de 2023, famílias que passassem o valor limite poderiam seguir por mais 24 meses recebendo 50% do valor. Se a renda voltar a cair, há o retorno do benefício integral.

Mais de 3 milhões de famílias contempladas pelo Bolsa Família estavam na regra de proteção em junho de 2025, segundo dados do MDS.

Segundo o pesquisador Marcos Hecksher, a regra de proteção do Bolsa Família vem para assegurar que um beneficiário possa entrar em um trabalho, sem perder o benefício imediatamente.

"É um incentivo que se soma às próprias condições do emprego formal, que já são muito melhores que as do programa", disse.

Estadão
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