Alumínio e BHT em desodorantes e cosméticos não trazem riscos à saúde humana
VÍDEO QUE CIRCULA NAS REDES SOCIAIS ENGANA AO APONTAR DANOS COMO CÂNCER; PRODUTOS SEGUEM PADRÕES DE SEGURANÇA DEFINIDOS PELAS AGÊNCIAS REGULATÓRIAS
O que estão compartilhando: vídeo em que um homem afirma que a maioria dos desodorantes estão cheios de alumínio e um componente conhecido como BHT (butil-hidroxitolueno), que seria carcinogênico. Eles penetrariam a pele, caindo na corrente sanguínea e causando danos à saúde humana.
O Estadão Verifica apurou e concluiu que: é enganoso. Consultados pelo Verifica, um médico oncologista e especialista em Medicina Baseada em Evidências, uma dermatologista e uma consultora em Toxicologia Cosmética e Ambiental afirmaram não haver comprovação científica de que o alumínio e o BHT utilizados em desodorantes e antitranspirantes causem dano à saúde humana. A utilização das substâncias em cosméticos, como desodorantes e antitranspirantes, segue padrões de segurança estabelecidos pelas agências regulatórias, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.
Saiba mais: Ao Verifica, especialistas no tema afirmaram que o alumínio e o BHT vêm sendo usados há décadas na indústria de cosméticos. Segundo eles, a avaliação de agências regulatórias é a de que, nas concentrações determinadas para esse tipo de produto, não há riscos à saúde humana.
A médica dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) Rosana Lazzarini explica que as axilas têm pele com espessura mais fina e tendem a absorver os produtos aplicados sobre ela com maior intensidade, mas isso não significa que eles cheguem até a corrente sanguínea. "Isso não acontece. Eles chegam até camadas mais internas da pele, onde o sistema de defesa atua", explicou.
Essa maior absorção, explica Rosana, é levada em consideração por químicos e farmacêuticos ao criar produtos para esse região do corpo. "Eles têm que ser produzidos para não causar irritações ou reações alérgicas e, para tal, passam por testes laboratoriais que são apresentados às agências reguladoras", disse.
Procurada, a Anvisa respondeu que há uma concentração máxima de substâncias com alumínio considerada segura para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes. A agência afirma que, atualmente, não há restrição estabelecida em legislação para o uso do BHT.
A Anvisa destaca ainda que não há vedação para o uso combinado de BHT e compostos de alumínio em cosméticos, e que a empresa responsável pelo produto deve garantir a segurança de uso de sua formulação considerando todas as substâncias que o compõem.
Agências regulatórias consideram alumínio e BHT seguros para uso
Os sais de alumínio são utilizados nos antitranspirantes desde 1916. Eles desempenham a função de formar um gel temporário que obstrui as glândulas sudoríparas e impede que o suor chegue à superfície da pele.
Consultora em Toxicologia Cosmética e Ambiental e doutoranda em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Maringá, Veridiana de Almeida diz que os sais de alumínio estão os ingredientes mais avaliados em produtos cosméticos, especialmente em antitranspirantes.
Ela explica que a avaliação de segurança é feita por comitês científicos internacionais e, no Brasil, pela Anvisa. O órgão define na resolução RDC nº 530/2021 as concentrações permitidas e as ressalvas de aplicação para diferentes sais de alumínio utilizados em antitranspirantes.
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No âmbito internacional, uma das principais análises de referência é a do Comitê Científico de Segurança do Consumidor (SCCS, sigla em inglês), que orienta as decisões regulatórias na União Europeia. Na "opinião final" sobre a segurança do alumínio em produtos cosméticos, o órgão apontou que o composto apresenta margem de segurança adequada nas concentrações permitidas em produtos cosméticos.
"Quando utilizados dentro dos limites estabelecidos pelas avaliações regulatórias, os sais de alumínio em antitranspirantes são considerados seguros", explicou Veridiana.
O mesmo se dá em relação ao butil-hidroxitolueno (BHT). A SCCS definiu como adequada a margem de segurança das concentrações permitidas para cosméticos.
Veridiana explica que os pareceres da SCCS orientam o regulamento europeu de cosméticos (Regulation (EC) No 1223/2009). Segundo ela, a regulação na Europa é uma das mais rigorosas do mundo e é seguida pela Anvisa.
Ela acrescenta que tanto o alumínio quanto o BHT não constam como substâncias proibidas ou restritas para uso em cosméticos pela Anvisa (RDC 529/2021 e RDC 530/2021). "Ambos são autorizados com limites definidos para diferentes tipos de produtos", apontou.
Não há associação comprovada entre BHT e câncer
O BHT é utilizado amplamente em alimentos, cosméticos e produtos farmacêuticos para prevenir a oxidação de certos componentes e aumentar a estabilidade das formulações. De acordo com Rosana, Veridiana e o oncologista e especialista em Medicina Baseada em Evidências Otávio Clark, não há comprovação científica que relacione a substância ao desenvolvimento de câncer em humanos.
A controvérsia em relação ao BHT, explica Clark, tem relação com alguns estudos em animais, com administração de altas doses da substância em ratos, que apontaram associação entre a substância e o surgimento de tumores em determinados tecidos. No entanto, outros estudos mostraram o contrário: um efeito protetivo do BHT.
Em relação a humanos, Clark destaca que as evidências não demonstram associação consistente entre exposição ao BHT e risco aumentado de câncer. Como exemplo, ele cita o Netherlands Cohort Study, que envolveu aproximadamente 120 mil indivíduos. O resultado não observou associação significativa entre a ingestão via alimentos de antioxidantes sintéticos (incluindo BHT) e câncer gástrico.
No que se refere ao uso específico em cosméticos, o oncologista destaca a análise do grupo Cosmetic Ingredient Review (CIR), criado em 1976, nos EUA, com o apoio da agência regulatória americana (FDA). A conclusão foi que o BHT é seguro para uso em cosméticos nas concentrações utilizadas nos produtos.
Clark aponta ainda uma outra análise, da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, sigla em inglês). O órgão concluiu que não há evidência suficiente em humanos para classificar o BHT como substância relacionada ao surgimento de câncer.