Setor de saúde dos EUA gastou US$ 35 mi em anúncios em sites de desinformação, diz estudo
PESQUISADORES DE YALE REVELAM QUE ÓRGÃOS DO GOVERNO E FARMACÊUTICAS FINANCIARAM DE FORMA INDIRETA CANAIS QUE PUBLICAM CONTEÚDO FALSO OU ENGANOSO ENTRE 2021 E 2024; APOIO PROVAVELMENTE OCORREU SEM QUE AS INSTITUIÇÕES TIVESSEM CONHECIMENTO
Agências governamentais, empresas farmacêuticas, seguradoras e organizações sem fins lucrativos ligadas ao setor de saúde dos Estados Unidos gastaram, entre 2021 e 2024, US$ 35,7 milhões com publicidade em sites de notícias conhecidos por publicar desinformação sobre saúde. É o que mostra um estudo publicado na revista científica Jama Network Open, conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina de Yale.
O trabalho lista instituições como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a Food and Drug Administration (FDA), agência dos Estados Unidos similar à Anvisa, farmacêuticas como Pfizer, Eli Lilly e Sanofi, além de organizações sem fins lucrativos como a Associação Americana do Coração e a Associação de Alzheimer, entre as que financiaram, ainda que de forma indireta, sites de desinformação em saúde.
Esse apoio financeiro, segundo o estudo, provavelmente acontece de forma inadvertida, ou seja, sem que as organizações tenham conhecimento dos sites em que suas campanhas são exibidas.
A reportagem tentou contato com as instituições mencionadas, mas não teve resposta.
De acordo com a organização NewsGuard, uma das empresas que forneceu dados aos pesquisadores, os anúncios chegam a esses canais de desinformação por meio da publicidade programática, um sistema automatizado de compra e venda de anúncios digitais, baseado em algoritmos e dados em tempo real, como o comportamento dos usuários.
Veja como os pesquisadores descobriram que organizações governamentais e de saúde pagaram por publicidade em sites que publicam repetidamente conteúdo falso ou enganoso sobre saúde.
Estudo cruzou dados para estimar recursos direcionados a sites de desinformação
Para estimar o volume de recursos publicitários que organizações governamentais e de saúde direcionaram a esses sites, os pesquisadores usaram dados da NewsGuard, empresa que avalia a credibilidade e a transparência de sites de notícias com base em critérios jornalísticos. Eles cruzaram esses dados com informações da MediaRadar, que analisa gastos com publicidade para categorias específicas de mídia digital.
Entre os 1.229 sites sinalizados pela NewsGuard por disseminarem informações falsas sobre saúde, 11 apresentavam dados de gastos disponíveis na base da MediaRadar. Os assuntos abordados por esses canais incluíam notícias e comentários políticos, teorias da conspiração ou boatos, informações sobre saúde ou medicina e notícias gerais.
Ao total, os 11 sites avaliados concentraram US$ 336,4 milhões em receitas publicitárias, entre 2021 e 2024, sendo que órgãos governamentais e de saúde responderam por aproximadamente 10,6% desse valor.
Os US$ 35,7 milhões gastos por agências de saúde, farmacêuticas e seguradoras incluem pagamentos de empresas do setor de produtos de bem-estar, de equipamentos, aparelhos e dispositivos médicos, prestadores de serviços médicos e órgãos estaduais e locais dos EUA.
A pesquisa tem algumas limitações: o número de sites com dados disponíveis sobre publicidade é pequeno e a proporção de conteúdo falso e enganoso divulgado nesses canais é desconhecida.
Ainda assim, os pesquisadores alertam que os anúncios das organizações de saúde nesses canais podem "aumentar a confiança na desinformação ou diminuir a confiança no governo ou na organização de saúde".
Quanto cada setor de saúde e organizações governamentais destinaram a sites de desinformação?
Para detalhar a origem do financiamento, os pesquisadores de Yale dividiram as organizações governamentais e de saúde em oito categorias e calcularam os gastos com publicidade entre 2021 e 2024 nos 11 sites para cada uma delas. O estudo ranqueou os cinco maiores pagadores em cada segmento e revelou que a maior fatia dos recursos, US$ 19,2 milhões, foi paga por empresas do setor de "Remédios sem prescrição e produtos de bem-estar".
O ranking destaca a presença de autoridades em saúde entre os cinco principais anunciantes de suas respectivas categorias, como o Departamento de Saúde e o CDC, que gastaram, respectivamente, US$ 171,6 mil e US$ 114,4 mil com publicidade nos sites que disseminam informações falsas sobre saúde. As instituições fazem parte de uma categoria que inclui gastos de órgãos ligados ao departamento de saúde dos EUA.
Na categoria Organizações médicas e de saúde sem fins lucrativos, a Associação de Alzheimer aparece entre as que mais direcionaram recursos a esses sites, com gasto de US$ 89 mil. Na sequência, está a Associação Americana do Coração, que gastou US$ 66,8 mil, o Colégio Americano de Patologistas com US$ 30,5 mil, além de outras duas organizações.
No segmento de Farmacêuticas, a Pfizer figura em primeiro lugar com gasto de US$ 366 mil, seguida pela Eli Lilly US$ 257,7 mil, Sanofi US$ 235,9 mil, além de outras duas empresas.
Confira como foram distribuídos os US$ 35,7 milhões gastos pelas organizações governamentais e de saúde por categoria:
Remédios sem prescrição e produtos de bem-estar - US$ 19.242.621;Provedores de serviços médicos (clínicas e farmácias) - US$ 6.933.023;Aparelhos, equipamentos e dispositivos médicos - US$ 4.220.488;Organizações médicas e de saúde sem fins lucrativos - US$ 1.669.064;Farmacêuticas - US$ 1.352.710; Governo federal, estadual e local (exceto HHS) - US$ 1.137.201;Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) e suas subsidiárias (como o CDC e a FDA) - US$ 623.013;Seguros médicos e de saúde - US$ 571.843.
Os pesquisadores afirmam que restrições mais rigorosas podem ser necessárias para evitar que as organizações mencionadas veiculem anúncios em sites que disseminam informações falsas sobre saúde.
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