Não há evidências científicas de que vacina contra gripe reduza expectativa de vida
ESPECIALISTAS E ÓRGÃOS DE SAÚDE APONTAM QUE IMUNIZANTE REDUZ HOSPITALIZAÇÃO E MORTALIDADE; VÍDEO FAZ LEITURAS DISTORCIDAS DE ESTUDOS PARA FAZER ACUSAÇÕES INFUNDADAS
O que estão compartilhando: que um estudo teria descoberto que a vacina da gripe está associada à redução da expectativa de vida. Outra pesquisa teria apontado que as vacinas contra a gripe aumentam o risco de contrair a doença.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Especialistas consultados pela reportagem, agências de saúde e estudos afirmam, na realidade, que as vacinas contra a gripe reduzem hospitalização e mortalidade. O vídeo verificado faz leituras distorcidas de pesquisas para fazer alegações enganosas contra o imunizante.
O médico responsável pela publicação do vídeo foi procurado, mas não respondeu.
Saiba mais: voltou a circular um vídeo de um médico, originalmente publicado em junho do ano passado, com alegações enganosas sobre a vacina contra a gripe. No conteúdo, ele diz que os imunizantes estão associados à redução da expectativa de vida e que um estudo teria demonstrado que o produto aumenta o risco de contrair a doença. Mas essas afirmações são infundadas e distorcidas, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
Além das alegações feitas no vídeo, o médico responsável pela autoria do conteúdo listou uma série de estudos na legenda da postagem feita em junho. O médico diz que a vacina contra a gripe aumentaria o risco de infecções em crianças e que aumentaria a mortalidade por covid-19. Veja abaixo a checagem das afirmações feitas.
Vacina contra a gripe está associada à redução da expectativa de vida?
No vídeo verificado, o médico responsável pela autoria do conteúdo afirma que a vacina da gripe está associada à redução da expectativa de vida. No entanto, evidências científicas apontam o contrário.
O médico Jorge Kalil, professor titular de imunologia clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), indica que as melhores pesquisas disponíveis mostram que os imunizantes trazem benefícios em desfechos graves. Ele afirma que as vacinas reduzem a hospitalização e, em várias análises, diminuem também a mortalidade.
Como mostrou o Estadão em março do ano passado, os benefícios da vacina contra a gripe podem ir além da proteção contra a doença. Um amplo conjunto de evidências científicas indica que o imunizante é capaz de reduzir o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e morte cardiovascular.
Vacina contra gripe aumenta chance de contrair a doença?
Outro argumento contrário aos imunizantes levantado pela postagem é o estudo Effectiveness of the Influenza Vaccine During the 2024-2025 Respiratory Viral Season (Eficácia da vacina contra a gripe durante a temporada viral respiratória de 2024-2025, em português).
Segundo a postagem, a pesquisa teria demonstrado que as vacinas contra a gripe aumentariam o risco de contrair a doença. Mas trata-se de uma leitura distorcida.
O mesmo estudo já foi usado para espalhar desinformação em outras ocasiões (leia aqui e aqui). Em abril de 2025, os autores do estudo disseram ao Projeto Comprova, coalizão de checagem da qual o Verifica faz parte, que "os resultados não sugerem que a vacinação aumenta o risco de gripe".
Segundo eles, o estudo indica apenas que a eficácia da vacina da temporada de 2024 e 2025 na prevenção da gripe pode ter sido limitada em profissionais de saúde relativamente saudáveis.
A bióloga Gabriela Cybis, professora do departamento de Estatística da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e apoiada pelo Instituto Serrapilheira, ressalta que o estudo mencionado é um preprint - o que significa que ele ainda não foi revisado por pares. Portanto, diz a especialista, é necessário ter cautela com as afirmações expostas.
Ela destaca, ainda, que a pesquisa em questão foi feita em uma amostra de profissionais da saúde em uma clínica específica, a Cleveland Clinic, nos Estados Unidos. "Embora o tamanho da amostra seja grande, não deveria ser generalizado para a população toda", explicou.
Outro ponto enfatizado por Cybis é que o estudo mencionado não avalia hospitalizações e mortes. Como mencionado anteriormente, os principais benefícios da vacina incluem redução das internações e da mortalidade.
Vacina contra gripe aumenta risco de infecções respiratórias em crianças?
Na legenda da postagem, o médico responsável pela criação do conteúdo indicou dois estudos que mostrariam os malefícios da vacinação contra a gripe no público infantil. Segundo ele, as pesquisas teriam demonstrado que os imunizantes aumentariam o risco de infecções respiratórias em crianças.
Os estudos são intitulados Assessment of temporally-related acute respiratory illness following influenza vaccination (Avaliação de doenças respiratórias agudas relacionadas temporalmente à vacinação contra a gripe) e Increased Risk of Noninfluenza Respiratory Virus Infections Associated With Receipt of Inactivated Influenza Vaccine (Aumento do risco de infecções por vírus respiratórios não gripais associado à vacinação contra a gripe com vacina inativada).
Segundo Kalil, as pesquisas não sustentam a afirmação ampla de que a vacina da gripe "aumenta infecções respiratórias em crianças".
O primeiro estudo, de acordo com Kalil, avaliou doença respiratória aguda, confirmada em laboratório, após vacinação contra influenza em crianças e adultos. No período de 14 dias após a vacinação, a pesquisa indicou que houve um maior risco de patógenos (organismos, como vírus e bactérias, capazes de causar doenças) não ligados à influenza em crianças, mas não em adultos.
"Trata-se de um achado temporal, específico, de curto prazo, e não de demonstração de aumento geral e duradouro de infecções respiratórias em crianças", explicou.
Já o segundo estudo, segundo o especialista, encontrou um aumento de infecções respiratórias não relacionadas à influenza em crianças que receberam vacina inativada, aquelas que utilizam vírus que foram "mortos" por agentes químicos ou físicos.
Ele ressalta, porém, que a pesquisa era de pequeno porte, feita com apenas 115 crianças, e os resultados não foram confirmados de forma consistente por estudos posteriores maiores.
"Estudos posteriores e revisões mostram resultados mistos ou ausência de associação, e não há contraindicação geral da vacina em crianças", disse.
Vale destacar que a própria pesquisa mencionada indica, no resumo, que "a vacinação contra a gripe é eficaz na prevenção da infecção pelo vírus influenza e da morbidade associada em crianças em idade escolar".
Vacinas contra gripe aumentam a infecção ou mortalidade pelo coronavírus?
Também na legenda da postagem, o médica autor da publicação associa as vacinas contra a gripe com a covid-19. São dois estudos citados para fazer essa relação. O primeiro deles, segundo o autor, indicaria que a mortalidade por coronavírus é maior em idosos que tomaram a vacina de gripe comum. O segundo mostraria que o imunizante contra a doença pode aumentar em 36% o ambiente para infecção por covid-19.
Segundo Kalil, entretanto, não há relação comprovada entre a vacinação e a covid-19 e os estudos citados não demonstram isso. Ele explica que a primeira pesquisa é um estudo ecológico, o que significa que compara países e populações, não indivíduos. Dessa forma, diz o especialista, esse tipo de estudo não pode demonstrar causalidade - ou seja, que há uma relação entre "causa" e "efeito".
Já a segunda referência, segundo o próprio autor do estudo, teve como objetivo "investigar a interferência viral, comparando o status de vírus respiratórios entre militares do Departamento de Defesa [dos Estados Unidos] com base em seu status de vacinação contra a gripe".
De acordo com o Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), ligado à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a interferência viral é um "fenômeno em que a infecção por um primeiro vírus resulta na resistência de células ou tecidos à infecção por um segundo vírus não aparentado [com o primeiro]". Dessa forma, a pesquisa mencionada propôs analisar o fenômeno entre militares de acordo com a vacinação contra a gripe.
A conclusão do estudo apontou que a interferência viral decorrente da vacina estave associada ao coronavírus sazonal (não o SARS-CoV-2, responsável pela covid-19) e ao metapneumovírus humano. A pesquisa destaca, porém, que a vacinação protegia não apenas contra a maioria dos vírus da gripe, mas também contra a parainfluenza, o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e coinfecções por outros vírus não influenza.
"O próprio estudo traz resultados mistos e não sustenta a narrativa de que a vacina 'abre ambiente' para coronavírus de forma geral", explicou Kalil.
Médico compartilha site antivacina como 'fonte'
Ao final da legenda, o médico compartilha o site Learn The Risk como uma "fonte" para demonstrar que "diversos estudos mostram os riscos associados às vacinas de gripe". Ele omite, entretanto, que trata-se de uma organização antivacina.
A entidade negacionista alega divulgar os "perigos dos produtos farmacêuticos", o que incluiria imunizantes e o que chamam de "tratamentos médicos desnecessários". Mas isso é contrariado por órgãos nacionais e internacionais de saúde, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), principal agência de saúde pública dos Estados Unidos.
O órgão reconhece, com base em evidências científicas, diversos benefícios da vacina contra a gripe. Dentre eles, o CDC cita:
Redução na incidência da gripe;Redução na gravidade da doença; Redução no risco de hospitalização associada à gripe;Ferramenta preventiva para pessoas com determinadas doenças crônicas;Protege gestantes contra a gripe durante e após a gravidez, além de proteger os bebês nos primeiros meses de vida;Reduz o risco de crianças desenvolverem casos graves de gripe;Protege as pessoas ao redor, incluindo aquelas que são mais vulneráveis ??a complicações graves da doença
O vídeo analisado aqui também foi checado pela Agência Lupa.
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