Aloe vera não cura câncer, ao contrário do que diz postagem
ATÉ O MOMENTO, NÃO HÁ EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DE QUE UMA PLANTA ISOLADA POSSA REVERTER CRESCIMENTO DE TUMORES
O que estão compartilhando: que receitas caseiras com aloe vera, planta também conhecida como babosa, são capazes de reverter quadros de câncer.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não existem evidências científicas de que receitas com aloe vera possam curar qualquer tipo de câncer, como confirmam sociedades médicas e especialistas ouvidos pelo Verifica. Na realidade, nenhuma planta é capaz, isoladamente, de curar tumores. A babosa tem propriedades conhecidas em outras áreas da medicina, como no cuidado com a pele ou como anti-inflamatório leve.
Postagem cita livro não reconhecido pela ciência
A postagem do Instagram analisada aqui afirma que uma mulher de 80 anos teria sido curada do câncer de ovário em 28 dias com o uso da babosa. O post não identifica a mulher. O Verifica não conseguiu confirmar a veracidade do relato em estudos científicos, nem em notícias da imprensa.
A postagem cita como referência o livro O Câncer Tem Cura, escrito pelo frei Romano Zago. A publicação afirma que Zago teria desenvolvido um protocolo caseiro com aloe vera, mel e aguardente, e registrado resultados contra o câncer.
A oncologista clínica Sabrina Chagas, integrante do Comitê de Cuidados aos Sobreviventes da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), explica que esse livro não é reconhecido como fonte confiável pela comunidade científica, nem pela SBOC.
"Trata-se de um material baseado em experiências pessoais, sem validação científica", disse.
De acordo com a oncologista, o protocolo caseiro proposto no livro não tem respaldo de estudos clínicos rigorosos ou aprovação de agências regulatórias ou das comunidades científicas na oncologia.
Não há evidências confiáveis suficientes para garantir a eficácia da aloe vera contra o câncer
Embora a aloe vera tenha sido testada em algumas pesquisas contra diferentes tipos de câncer, os pesquisadores não encontraram provas suficientes de que a planta é eficaz contra tumores. Ou seja, não há evidências de que ela funcione, como confirmam sociedades médicas e especialistas ouvidos pelo Verifica.
A organização britânica Cancer Research UK, dedicada a reunir informações sobre a doença, alerta que a babosa pode inclusive causar efeitos adversos. Segundo os pesquisadores, a forma líquida ou em cápsulas dessa planta pode causar diarreia, erupção cutânea ou dor de estômago em algumas pessoas.
A Fundação contra o Câncer da Bélgica afirma que alguns estudos limitados indicam que a babosa pode reduzir os efeitos colaterais dos tratamentos de radiação. O gel de aloe vera pode ser usado para tratar problemas de pele e inflamações da mucosa oral causados pela radiação.
Nenhuma planta ou alimento pode, isoladamente, prevenir ou curar o câncer
Nenhum alimento isoladamente tem o poder de prevenir qualquer tipo de câncer, segundo Luciana Grucci Maya Moreira, da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Instituto Nacional do Câncer (Conprev/Inca).
A especialista explica que, para a prevenção de câncer, mais do que alimentos específicos ou nutrientes isolados, a recomendação do Inca é ter uma alimentação saudável baseada em alimentos de origem vegetal, in natura e minimamente processados como frutas e hortaliças, feijões, cereais integrais, oleaginosas.
"Além disso, deve-se limitar o consumo de carnes vermelhas a 500 gramas por semana e evitar as carnes processadas, os alimentos e bebidas ultraprocessados e os alimentos do tipo fast food", completou.
De acordo com Moreira, a alimentação saudável contribui na prevenção e auxilia no tratamento do câncer, além de ser essencial para a manutenção do peso corporal dentro dos limites da normalidade.
A oncologista Sabrina Chagas destaca a importância de pacientes oncológicos sempre consultarem seus médicos e não abandonarem os tratamentos convencionais, que são baseados em evidências científicas, constantemente atualizados e aprovados por órgãos reguladores.
"Entendemos o desejo por soluções naturais ou alternativas, e sabemos que algumas práticas complementares - como acupuntura, suporte nutricional e meditação - podem sim contribuir para a melhora da qualidade de vida e para o manejo de sintomas", completou.
A oncologista reforça que o câncer não é uma doença única, mas um conjunto complexo de mais de 100 tipos diferentes de doenças, com comportamentos e tratamentos distintos.
"Por isso, não há, até o momento, nenhuma substância isolada, natural ou sintética, que seja capaz de curar todos os cânceres", afirmou.