Bundesliga começa com desafio de recuperar apelo global
A 64ª temporada da Bundesliga inicia com o desafio de expandir seu apelo global diante da hegemonia do Bayern de Munique e da perda de estrelas para outras ligas. Questões sobre distribuição, como a nova transmissão nos EUA, e a forte concorrência da Premier League evidenciam essa dificuldade. Embora mantenha estádios cheios e cresça em mercados como o Brasil, o torneio precisa superar a falta de imprevisibilidade e converter sua tradição esportiva em audiência internacional contínua.
Campeonato alemão de futebol enfrenta dúvidas sobre seu alcance diante do domínio perene do Bayern, saída de craques e mudanças na transmissão nos Estados Unidos.Começou a 64ª temporada da Bundesliga, a primeira divisão do Campeonato Alemão de futebol masculino.
Há novidades em campo, como a nomeação de Kathleen Krüger como diretora de futebol do Hamburgo (Hamburger SV), primeira mulher a ocupar o cargo em um time da Bundesliga. Ou a participação do improvável Elversberg, pequeno time da cidadezinha no sudoeste alemão de mesmo nome, que quatro anos atrás saía de um rebaixamento para entrar para a terceira divisão.
Há escalações ilustres, como a de Ismael Saibari, estrela da seleção marroquina, como reserva de Harry Kane no Bayern de Munique. O retorno do tradicional Schalke, após três anos rebaixado, também tem animado o público.
Mas, para além da fidelidade dos torcedores, fica a pergunta: o campeonato mantém seu apelo internacional?
Nos Estados Unidos, um dos mercados mais estratégicos para a Bundesliga, um novo acordo de transmissão tem causado polêmica e colocado essa questão em evidência. Os jogos deixarão de ser transmitidos pela ESPN, um canal esportivo já consolidado. Em seu lugar assume a Fandango, uma empresa mais associada ao entretenimento e à venda de ingressos de cinema.
"Francamente, a Bundesliga provavelmente já atingiu seu pico de popularidade. Daqui para frente, a tendência é de queda", diz à DW Randall, torcedor do Colônia (FC Köln) nos Estados Unidos que acompanha a competição há 16 anos. Para ele, o auge do futebol alemão foi em 2013, quando Bayern e Borussia Dortmund se enfrentaram na final da Liga dos Campeões, principal torneio de clubes da Europa.
Dominik Schreyer, professor de economia do esporte da Escola de Administração Otto Beisheim, na Alemanha, discorda dessa avaliação.
"Eu teria cautela antes de declarar encerrada a era de ouro da Bundesliga", afirma à DW. "A liga continua com estádios lotados, clubes fortes, excelentes jogadores e treinadores, além de uma cultura futebolística distinta."
Apoio aos clubes é forte, mas liga perde brilho
Mas Schreyer admite que, apesar da reputação da Bundesliga na formação de jogadores e técnicos, a ampliação do alcance internacional da competição foi dificultada pela perda de atletas como Erling Haaland e Florian Wirtz.
Além disso, ele pontua que o "domínio prolongado do Bayern reduziu a imprevisibilidade na disputa pelo título, enquanto a Premier League [campeonato inglês] desenvolveu uma enorme vantagem financeira e de distribuição". O time bávaro acumula 35 taças, seguido de Borussia Dortmund e Borussia Mönchengladbach, com cinco campeonatos cada um.
"O problema, portanto, não é simplesmente a falta de talentos ou de histórias interessantes, mas a dificuldade da Bundesliga em transformar essas qualidades em hábitos regulares de audiência internacional", diz Schreyer.
Robin Austermann, vice-presidente executivo da Bundesliga Americas, afirmou, em comunicado sobre o novo acordo de transmissão nos Estados Unidos, que o número de torcedores da Bundesliga no país cresceu "43% nos últimos cinco anos".
Para alguns torcedores, porém, o problema vai além da paixão pelo próprio clube.
"Para ser honesto, prefiro assistir à Premier League porque lá pelo menos três ou quatro times podem conquistar o título", diz à DW Dave, torcedor do Schalke nos Estados Unidos desde 1974.
Como a Bundesliga pode mudar de rumo?
Grande parte do desejo por mudanças está ligada à falta de competição no topo da tabela. O Bayern conquistou 13 dos últimos 14 títulos nacionais. Alguns acreditam que uma distribuição mais equilibrada das receitas de televisão poderia ser um caminho.
"O mercado se tornou mais fragmentado, abundante e competitivo", explica Schreyer. "A disponibilidade já não garante atenção. Os espectadores cada vez mais entram em contato com o futebol por meio de jogadores específicos, criadores de conteúdo, melhores momentos, vídeos curtos e grandes torneios antes de decidir assistir a partidas completas. Por isso, a Bundesliga precisa de um caminho claro entre a descoberta inicial e o consumo recorrente que eventualmente gere identificação como torcedor."
Para o professor, os grandes clubes e as estrelas consagradas continuam sendo a melhor forma de atrair público. "Quando os espectadores se envolvem, os demais pontos fortes da liga, incluindo a cultura das torcidas, os clubes tradicionais, a formação de jogadores, o retorno do Schalke e a ascensão do Elversberg, podem aprofundar esse interesse", afirmou.
Temporada pode ser decisiva
Naturalmente, a visão dos Estados Unidos é apenas uma parte do mercado da Bundesliga. O número de torcedores no Brasil dobrou entre 2018 e 2024, alcançando 24 milhões, e iniciativas comunitárias por meio do programa Bundesliga Common Ground ajudaram a ampliar o interesse pela competição em países como Tailândia e Vietnã.
Ainda assim, o novo acordo de transmissão nos Estados Unidos talvez revele os desafios que a Bundesliga enfrenta atualmente para se posicionar globalmente.
"Muitos torcedores ficaram decepcionados com a decisão da liga de optar pela Fandango para a próxima temporada", opina Jody, que acompanha o futebol alemão desde 2006. "Se a Bundesliga quiser crescer nos Estados Unidos, precisa observar o que a NBC fez quando adquiriu os direitos de transmissão da Premier League. É necessário ter distribuição mais ampla e mais divulgação da competição para atrair novos espectadores."
Schreyer rebate o argumento do torcedor: "O novo acordo deve ser avaliado principalmente por sua capacidade de reconstruir a demanda, e não apenas pelo alcance potencial."
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