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'Broderagem' no poder: a linguagem do afeto masculino nos vazamentos do escândalo do Banco Master

O patriarcado não organiza somente a dominação dos homens sobre as mulheres; ele se organiza também a partir de vínculos duradouros de solidariedade dos homens com outros homens

15 out 2026 - 06h50
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Resumo
Vazamentos da PF no caso Banco Master expõem uma linguagem de afeto e proximidade entre figuras poderosas da República. Sob a ótica semiótica, o artigo analisa como a "broderagem" e termos como "irmão" revelam alianças do patriarcado, no qual homens se escolhem, protegem e legitimam mutuamente. Mais do que dominar sobre mulheres ou sugerir relações sexuais, o poder constrói pactos de fidelidade e pertencimento por meio de vínculos passionais e da apropriação simbólica do parentesco.

Nas últimas semanas, as mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, têm revelado muito mais do que uma extensa rede de relações escandalosas com empresários, políticos, advogados e integrantes ou pessoas próximas às instituições da República. Elas revelam também uma linguagem. "Irmão", "irmãozão", "amigo", "meu amor", "carinho", "amizade fraterna", "pra vida toda" são algumas das expressões que aparecem nas conversas divulgadas pela imprensa.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o senador Flávio Bolsonaro, os deputados Nikolas Ferreira e Mario Frias e o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, surgem em mensagens nas quais "irmão" e suas variações participam dessa mesma linguagem de proximidade.

Nada disso demonstra, por si só, qualquer ilícito. Tampouco interessa aqui descobrir o que esses homens "realmente sentem" uns pelos outros. A questão é outra. Como semioticista, interessa-me observar o que essas relações entre homens, atravessadas por dinheiro, influência, reconhecimento e acesso, revelam sobre as formas do afeto, as relações de poder e suas alianças intersubjetivas e identitárias.

Moralidade, heteronormatividade e o poder do macho

Como propôs o psicólogo e psicanalista René Kaës, nas suas relações, o indivíduo é simultaneamente servidor, beneficiário e herdeiro de estruturas que o transcendem, como a família, os grupos e as instituições. Esses homens são também sujeitos constituídos e constituintes de vínculos sociais, atravessados por dimensões inconscientes e semióticas que moldam suas existências. Ao mesmo tempo singulares e plurais, eles estão imersos nas alianças que criam, e que influenciam seus comportamentos. Talvez devêssemos prestar mais atenção a isso.

A centralidade contemporânea da família no discurso político brasileiro não pode ser separada do processo de moralização da política que se intensificou ao longo da última década. A polarização da opinião pública nacional, cujas raízes podem ser procuradas nas manifestações de junho de 2013 e que se radicalizou nos anos seguintes, não produziu apenas dois campos político-partidários antagônicos. Produziu também formas distintas de identificação coletiva e de reconhecimento entre sujeitos.

A partir de 2015, com os desdobramentos da Lava Jato, a corrupção passou a ocupar posição central nessa reorganização moral da política: de um lado, aqueles que passaram a ser associados à corrupção e à degradação moral e, de outro, aqueles que reivindicavam para si a restauração da ordem, da honestidade, da família e dos valores tradicionais.

Essa moralização foi particularmente importante na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Entre as razões declaradas por seus eleitores, apareciam a valorização da família e atributos como honestidade, dignidade e sinceridade, além da percepção de que o candidato não estaria envolvido em corrupção. Sua trajetória política estava também associada à chamada Bancada Evangélica e a própria coligação eleitoral condensava essa articulação: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

É nesse quadro que permanece atual aquilo que a socióloga Heleieth Saffioti chamou de poder do macho: uma organização social que procura restringir a mulher aos afazeres domésticos e ao trabalho de reprodução e manutenção da vida, atividades historicamente desvalorizadas justamente porque sustentam as condições para a realização do trabalho reconhecido socialmente como legítimo, tradicionalmente atribuído ao homem.

O poder do macho se manifesta de várias formas

O patriarcado costuma ser descrito, corretamente, como uma estrutura de poder que privilegia homens e subordina mulheres e outras identidades. Há, porém, uma dimensão menos discutida desse sistema: para que os homens ocupem historicamente os espaços de poder, não basta excluir outras pessoas. É preciso também que homens reconheçam homens, escolham homens, confiem em homens, promovam homens, protejam homens e estabeleçam entre si vínculos duradouros de solidariedade.

Em outras palavras, o patriarcado não organiza somente a dominação dos homens sobre as mulheres. Organiza também a conjunção dos homens com outros homens. Seus afetos, seus desejos, suas alianças e pactos.

Ainda que a família seja um alicerce da moralização, tudo aquilo que acontece longe dela se torna "coisa de homem", sendo, assim, autorizada. Há um processo de essencialização do instinto do macho que justifica a violência e a sexualidade desmedidas.

Uma gramática do patriarcado

Isso não foi inventado agora. A história das sociedades ocidentais é atravessada por irmandades masculinas. Ordens religiosas, confrarias, corporações, sociedades iniciáticas, maçonarias, clubes, associações profissionais, grupos políticos e inúmeras outras instituições transformaram homens que não eram irmãos em "irmãos".

A própria língua guarda os vestígios dessa organização social. Há o irmão e o confrade, mas também o camarada, o companheiro e o parceiro. Mais recentemente, temos o mano, o brother e o parça. São palavras diferentes, pertencentes a histórias diferentes, mas capazes de nomear formas de proximidade, solidariedade e aliança entre homens.

O exemplo mais conhecido é o das máfias italianas. Parentesco, formas de clã, compadrio e relações de proteção desempenharam papéis importantes em diferentes organizações mafiosas. O aproveitamento desse repertório pelo imaginário mafioso torna o poder inteligível segundo uma gramática familiar: proteção, fidelidade, dívida, pertencimento e autoridade podem ser enunciados como relações entre parentes.

Isso não é casual numa sociedade em que a família permanece um dos pilares da própria organização social. O parentesco apresenta-se culturalmente como uma das formas mais "naturais" de vínculo, uma vez que ninguém decide em que família vai nascer. Mas os vínculos que sustentam os grupos não dependem exclusivamente do parentesco biológico. Uma vez que alianças, identificações e pactos organizam a vida compartilhada, a irmandade pode apropriar-se da força simbólica do parentesco para constituir uma forma particularmente resistente de aliança, na qual a fidelidade ao grupo se apresenta não apenas como escolha, mas como obrigação constitutiva do próprio pertencimento.

Paixões masculinas

Essa pequena gramática do patriarcado permite transformar associação em parentesco, proximidade em pertencimento, confiança em fidelidade, proteção em dívida e reciprocidade em obrigação. O outro homem deixa de ser simplesmente um Outro: torna-se "meu irmão", "meu parceiro", "meu camarada", "meu companheiro", "meu compadre", "meu parça". O outro é visto então como o si mesmo. O brother é assim um reflexo, um tanto narcísico, de si.

É aqui que a semiótica das paixões pode ajudar. Afetos não existem socialmente apenas como experiências íntimas. Eles recebem nomes, formas, intensidades e modos culturalmente reconhecíveis de expressão. Uma sociedade também nos ensina quem podemos admirar, a quem devemos fidelidade, de quem esperamos reconhecimento, por quem nos sentimos responsáveis e com quem devemos estabelecer relações de confiança.

As paixões organizam a vida subjetiva e cultural. Sua lexicalização pode revelar aquilo que, numa dada sociedade ou grupo social, é sentido e reconhecido como paixão individual ou coletiva, adquirindo espessura cultural e mesmo ideológica. É nesse domínio que podemos situar a "broderagem" e as diferentes formas de amor entre homens.

Isso porque, no patriarcado, uma parte considerável do investimento afetivo masculino dirige-se ao próprio masculino. Esse amor pelo masculino é antigo: não se trata de modo algum de uma orientação sexual, mas uma orientação axiológica e passional pela qual o masculino se constitui como objeto privilegiado de valor para o próprio masculino.

Homens admiram homens, buscam o reconhecimento de homens, confiam em homens, desejam pertencer aos grupos dos homens que admiram e constroem com outros homens relações de fidelidade, proteção e intimidade.

Isso permite também olhar de outra maneira para a sexualidade. A saúde pública brasileira consagrou, por exemplo, a categoria "homens que fazem sexo com homens" (HSH), justamente porque prática sexual e identidade não são necessariamente coincidentes. O deslocamento é interessante: obriga a abandonar a expectativa de que todas as práticas e todos os afetos devam caber perfeitamente dentro das identidades que usamos para organizar socialmente a sexualidade.

A cultura patriarcal estabelece normas bastante rígidas para o amor entre homens quando ele assume determinadas formas corporais, sexuais, conjugais ou identitárias. Ao mesmo tempo, essa mesma cultura admite — e frequentemente estimula — manifestações absolutamente intensas de amor entre homens quando elas se apresentam como amizade, irmandade, camaradagem, companheirismo ou parceria.

A brotheragem é, assim, uma paixão, uma forma de amor. Ela não precisa, portanto, ser tomada apenas em seu sentido sexual ou nas apropriações específicas que recebeu em diferentes grupos. Ela pode nos servir para enxergar, com o humor do senso comum, uma estrutura muito mais ampla.

Brotheragem em Mônaco

Há muita broderagem sustentando o poder.

Quando um homem poderoso trata outro de "irmão", preenche a palavra de sentidos. "Irmão" inscreve o outro num espaço de pertencimento, podendo pressupor confiança, reciprocidade e duração — às vezes, como dizem as próprias mensagens, "pra vida toda". As mensagens do caso Master oferecem, assim, uma pequena amostra involuntária da linguagem afetiva por meio da qual relações masculinas de poder também se constroem.

As mensagens encontradas no celular de Vorcaro não são prova de que estejamos diante de um "discurso amoroso" no sentido estrito, muito menos que seja necessário procurar por trás dele uma sexualidade que o explicaria. Embora orgias, prostitutas e festas secretas façam parte de todo o cenário clichê que se construiu em torno do escândalo Master.

O interessante é justamente o contrário: a linguagem da irmandade masculina é capaz de incorporar formas lexicais e intensidades passionais que reconhecemos como próprias do campo amoroso e sexual sem deixar de funcionar socialmente como linguagem de aliança entre homens.

"Mas queria estar mesmo era em Mônaco com você". A conversa entre Vorcaro e o presidente da Câmara, Hugo Motta, é um belo exemplo. O enunciado mobiliza um léxico amoroso e, independentemente de haver ou não um fato consumado, reflete a possibilidade de manifestação do afeto na ambiência do poder.

Isso não o transforma, de maneira nenhuma, em prova de uma relação amorosa ou sexual, mas mostra como certas formas de intimidade podem aparecer na linguagem que acompanha essas alianças. A grande mídia, as redes sociais, percebem esse sistema amoroso e atualizam inúmeras imagens de Vorcaro como espécie de galã, sedutor irresistível.

Acostumamo-nos a ver homens ocupando juntos os espaços de decisão, e aprendemos a enxergar o poder apenas naquilo que ele tem de mais visível: cargos, dinheiro, influência, autoridade, força, violência e instituições. Mas o poder não se sustenta apenas por aquilo que separa quem manda de quem obedece. Sustenta-se também pela natureza dos vínculos entre aqueles que se reconhecem, se escolhem, se protegem e se autorizam mutuamente.

O poder também tem uma vida passional. E uma parte importante da história do patriarcado deve ser contada justamente assim: não apenas como uma história de violência, mas como uma história de amor.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Matheux Schwartzmann não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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