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Brilho azul da morte: Odesson Alves Ferreira denuncia lacunas e distorções sobre o Césio-137

Entre o luto por Leide das Neves e as sequelas na própria pele, o motorista e líder social revela, em entrevista ao Grupo Perfil, detalhes omitidos por séries sobre a maior tragédia radioativa do Brasil

17 abr 2026 - 16h23
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Aos 71 anos, Odesson Alves Ferreira carrega na memória e no corpo as marcas de um evento que o Brasil ainda tenta compreender. Falar da contaminação do Césio-137 em Goiânia que aconteceu em setembro de 1987 ainda dói. Motorista de profissão e liderança histórica na defesa dos radioacidentados, ele observa com indignação as recentes tentativas de retratar o acidente.

Césio
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Foto: 137: Odesson Alves Ferreira carrega na memória e no corpo as marcas de um evento que o Brasil ainda tenta compreender - Perfil Brasil / Perfil Brasil

O pesadelo começou com o desmonte acidental de uma bomba de césio abandonada em um prédio em ruínas. Dois homens romperam a proteção da cápsula radioativa, expondo um pó brilhante que gerou fascínio imediato. A falta de informação transformou o veneno em espetáculo: o material circulou como um presente entre famílias, contaminando espaços de convivência e objetos pessoais. O que começou como uma busca por sucata terminou com a cidade de Goiânia sob alerta máximo de emergência nuclear, revelando a perigosa combinação entre abandono institucional e desconhecimento dos riscos.

Para o ex-presidente da Associação das Vítimas do Césio 137, as produções audiovisuais falham ao focar em um núcleo reduzido, ignorando a vastidão da tragédia que atingiu centenas de pessoas. "Essa é a nossa maior decepção", afirma Odesson. Além disso, ele afirma que o foco excessivo em apenas uma família distorce a realidade de um desastre que envolveu quatro depósitos e um rastro de contaminação muito mais profundo.

A verdade sobre o Césio-137

O relato de Odesson humaniza os protagonistas que a ficção, por vezes, transforma em vilões ou figuras violentas. Ele recorda que o irmão, Devair, era um "doce de menino", incapaz da agressividade sugerida em telas. Odesson faz questão de esclarecer que o local onde o aparelho foi encontrado não era uma clínica protegida, mas um prédio em ruínas, usado como banheiro público e sem qualquer sinalização de perigo. "Não tem como falar que aquilo foi roubado", reforça ele, lembrando que os rapazes que retiraram o material eram trabalhadores, como o motorista Wagner Mota e o reciclador Roberto Santos. Ele explica que os dois buscavam apenas o sustento na sucata de chumbo.

A entrevista

Nosso papo foi possível graças à intermediação feita pela professora de Yoga Ana Paula Mendes. Quando ela sugeriu a entrevista com alguém que viveu aquilo tão de perto, entendemos que, ali, tinha uma história que merecia ser contada em primeira pessoa. Assim, a gravidade da tragédia ganha contornos dramáticos quando Odesson descreve sua própria rotina à época.  Ele relembra com riqueza de detalhes o que aconteceu na época. Como motorista de ônibus, transportava até mil passageiros por dia. Tocou  no material no dia 22 de setembro de 1987. No entanto, sem saber do que se tratava, seguiu trabalhando por uma semana. Assim, ele havia se tornado uma fonte radioativa, irradiando sua própria esposa e filhos.

Ele recorda com amargura os erros técnicos das autoridades, como o banho de mangueira e vassoura recebido no Estádio Olímpico, cuja água contaminada seguiu diretamente para o lençol freático da cidade. "Aquela água foi toda para a rede de esgoto. Ninguém fala nisso", denuncia, lembrando que o isolamento das vítimas só ocorreu após o solo e o esgoto já estarem comprometidos.

A figura de Leide das Neves, sobrinha de Odesson e símbolo da tragédia, é resgatada por ele com imenso carinho. Longe de ser apenas uma estatística, Leide era uma criança ativa e inteligente que sonhava em ser modelo. Sua morte, aos seis anos, devastou a família. Odesson conta que seu irmão Ivo, pai da menina, viveu o resto de seus dias sob o peso do remorso. "Ele se sentia culpado por ter acabado com a vida da filha", revela, explicando que a ignorância sobre o perigo do "pó que brilha" foi o verdadeiro carrasco daquelas famílias.

Realidade da emergência radioativa

Hoje, a luta de Odesson é para que o descaso do governo e as indenizações insuficientes não sejam as únicas lembranças que restarão. Ele critica a extinção da Fundação Leide das Neves e a precarização da assistência médica em Goiás. Para o sobrevivente, que viu seus animais serem sacrificados e seus bens destruídos, o dever agora é registrar os fatos com precisão para as futuras gerações. Enquanto o mundo se deslumbra com o "brilho da morte" em séries de ficção, Odesson segue firme em seu propósito de escrever um livro. O objetivo é contar ao mundo a verdade e garantir que o sofrimento de Goiânia  seja respeitado como uma lição histórica de dignidade humana.

Perfil Brasil
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