Quem ganha em Minas ganha no Brasil? Por que eleição de 2026 pode mudar essa 'regra'
Virou tradição olhar para Minas Gerais como 'espelho' do voto no Brasil. Mas o Estado, que costumava dar grandes vantagens ao vencedor, está cada vez mais acirrado, com regiões tendendo a vota mais à direita. Veja os gráficos.
Considerada o espelho eleitoral do país por coincidir com o vencedor presidencial desde 1989, Minas Gerais pode quebrar essa tradição em 2026. Analistas apontam que o avanço da direita e a perda de fôlego do PT em regiões estratégicas tornaram as disputas mais apertadas, reduzindo a margem histórica da esquerda. Diante de um eleitorado dividido e influenciado por cidades-pêndulo, cresce a chance de o resultado mineiro divergir do cenário nacional na disputa entre Lula e a oposição.
"Lá se dão encontro, concordemente, as diferentes partes do Brasil", descreveu o mineiro Guimarães Rosa num artigo à revista O Cruzeiro, em 1957. E continuou: "Seu orbe é uma pequena síntese, uma encruzilhada, pois Minas Gerais é muitas".
A descrição do escritor traduz o que se pode ver ao olhar com atenção o mapa. Quarto maior Estado do Brasil (e o maior fora da Amazônia legal), o território de Minas encontra, ao norte, os sertões da Bahia; ao sul, as serras de São Paulo e Rio; a oeste, o campo goiano e o Distrito Federal; e, a leste, o caminho para o mar do Espírito Santo.
"A gente tem uma Minas paulista, uma Minas carioca, uma Minas baiana e uma Minas goiana... E, além delas, uma Minas central profunda, que é a do Guimarães Rosa", resume o cientista político Thiago Silame, professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal).
Se a geografia dá a Minas um pouco de vários Brasis, a política "carimbou" no Estado o título de "espelho" do país.
Isso porque, desde a primeira eleição pós-redemocratização, em 1989, o resultado da eleição presidencial em Minas reflete o do Brasil. Ou seja: quem ganha em Minas acaba vestindo a faixa presidencial.
Foi assim com Fernando Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro e Lula novamente.
"O político que conseguir entender Minas Gerais vai poder reivindicar que está compreendendo adequadamente o Brasil, com a sua diversidade", ressalta a jornalista e cientista política Bertha Maakaroun, analista de política no Estado.
Além de Minas, apenas o Amazonas também tem refletido o resultado nacional desde a redemocratização. Mas os olhos acabam se focando em Minas por ser o segundo maior colégio eleitoral do país, dando uma enxurrada de votos ao vencedor — e, claro, por ser essa encruzilhada entre regiões que Rosa já registrava.
Mas essa característica histórica irá perdurar em 2026 em uma disputa acirrada entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL)?
Este é justamente um ano em que esse papel de Minas pode ser revisto, segundo análise do jornalista de dados e cientista político Fábio Vasconcellos, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio).
Vasconcellos tem se debruçado sobre o histórico do voto mineiro e pesquisado o movimento de "cidades-pêndulo", aquelas que variam o vencedor presidencial de acordo com a eleição. E os números, avalia, mostram que Minas tem se tornado um Estado menos definidor para o vencedor — e talvez nem o "acerte" desta vez.
Em 2022, Lula venceu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em Minas com 50,2% dos votos válidos, uma margem ainda mais apertada do que a nacional, de 50,9%.
Foi a primeira vez que a diferença em Minas para o vencedor foi menor do que nacionalmente. E também foi o resultado mais apertado para o PT numa eleição em que o partido venceu no Estado.
É como se a "gordura" que o PT tinha para angariar votos ali estivesse sumindo, explica Vasconcellos, que é pós-doutorando no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem).
"Minas hoje aparece com uma inclinação pendular à direita e tem contribuído menos para as vitórias do PT. Isso levanta a hipótese de que pode ser que o Lula ganhe no Brasil, mas não ganhe em Minas", diz Vasconcellos.
"E pode até ser o contrário, que Flávio ganhe no Brasil e não ganhe em Minas por questões milimétricas, porque é um Estado que está muito disputado e está representando, inclusive, essa competição apertada no Brasil."
A analista Bertha Maakaroun avalia que ainda é cedo para chegar a conclusões, mas que as "pesquisas até aqui estão indicando que Minas continua a refletir dados nacionais".
Os números da pesquisa feita pelo instituto Datafolha divulgados em 24 e 25 de setembro indicam cenários parecidos. No primeiro turno em Minas, Lula aparecia com 39% da intenção de voto, contra 37% de Flávio Bolsonaro. Nacionalmente, Lula tem 40%, contra 36% de Flavio.
Maakaroun ressalta que essa proximidade ocorre mesmo com a presença de um ex-governador mineiro, no caso Romeu Zema (Novo), como candidato a presidente.
"Mesmo com a presença de um candidato à Presidência da República daqui de Minas Gerais, as pesquisas feitas aqui no Estado continuam refletindo muito a dinâmica nacional", diz a analista.
"É diferente do caso de Goiás, por exemplo. O desempenho do ex-governador Ronaldo Caiado [PSD] tem lá uma diferença consistente em relação ao resto do Brasil."
A pesquisa presidencial da RealTime/BigData de 22 de setembro em Goiás indica Caiado na frente de Lula e Flávio entre os goianos, com 31% das intenções de voto.
A diferença regional em Minas
Minas apresenta uma grande diversidade social, econômica e regional. O sul do Estado é muito diferente do norte em vários aspectos, e isso se reflete no voto.
"Nós temos dentro de Minas Gerais uma representação proporcionalmente equivalente às populações em termos de níveis socioeconômicos de todo o país", explica Maakaroun.
O norte, por exemplo, próximo ao interior do Nordeste em geografia e características sociais, tem historicamente dado mais votos ao PT.
"São locais onde a política pública tem um impacto mais pungente e mais visível sobre as vidas, não somente do ponto de vista da percepção de quem é o beneficiário, mas também da própria sociedade atingida como um todo", avalia o professor Thiago Silame, da Unifal.
Na pesquisa de Vasconcellos, ele agrupa o norte junto às regiões do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri para formar o que chama de "bastião sólido" da esquerda, com vitórias acima de 60% para o PT desde 2002.
Outra parte que vota mais à esquerda é a Zona da Mata mineira, ao sul. É uma região com tradição no sindicalismo e forte presença de instituições de ensino superior. Mas ali já é possível ver a perda de força do PT.
Em 2022, Lula venceu com 57,8%, mais de 5 pontos percentuais a menos que sua média histórica nessa região.
Mas nenhuma região mostra melhor a perda de espaço petista como o Triângulo Mineiro, junto às regiões noroeste e central do Estado, segundo Vasconcellos. Bolsonaro venceu a última eleição ali (53,5%), mesmo historicamente com cenário favorável à esquerda, com média de 53,1% pró-PT.
"Ali, você está tendo uma reviravolta, são áreas em que o PT está perdendo a massa de votos", diz Vasconcellos.
"É uma região muito colada ao agro, então temos ali algo provavelmente relativo a isso."
O lado mais consolidado à direita em Minas é o que fica mais perto de São Paulo. É onde a direita tem ampliado ainda mais sua vantagem histórica.
Diante dos dados, Vasconcellos conclui que a região que será mais decisiva será a que engloba a Grande Belo Horizonte, Vale do Rio Doce e Campo das Vertentes, reunindo 43% do eleitorado mineiro.
Ali, a média histórica desde 2002 favorece o PT, com 55,8% dos votos. Mas, na última eleição, Bolsonaro teve uma vitória apertada.
"Para onde esse pessoal balança pode definir para onde Minas vai", conclui o pesquisador.
Maakaroun avalia que, nessa região, estão áreas populosas de Minas, como a Grande BH, onde "houve a insurgência de lideranças mais à direita e bolsonaristas, com um discurso mais antissistêmico e uma grande penetração na internet".
"É uma expressão de um movimento nacional, com uma mudança na direção do voto", diz.
Um levantamento da BBC News Brasil sobre as "cidades-pêndulo" em Minas nas últimas três eleições também mostra que a decisão pode estar nessa região.
São 110 as cidades mineiras que deram vitória a Dilma em 2014, viraram à direita com Bolsonaro em 2018 e voltaram à esquerda e ao PT com Lula em 2022.
Dessas, 44 estão entre Grande Belo Horizonte, Vertentes e Vale do Rio Doce. Outras 23 estão na Zona da Mata.
Na avaliação de Silame, esse comportamento de "cidades-pêndulo" nas últimas três eleições, dando vitória ao bolsonarismo e voltando ao PT, pode ser explicado pela pandemia.
"É um corte importante na eleição. Muitas dessas cidades estão em regiões dinâmicas que precisam ter atividades econômicas aquecidas", avalia o professor.
"E a forma como o governo Bolsonaro combateu a pandemia foi algo muito negativo na avaliação desse eleitor que não está fidelizado a nenhum lado, que é passível de ser convencido de que uma proposta política pode ser melhor do que a outra."
Para o professor, porém, os fenômenos sociais não podem ser explicados por um único fator.
"Outros elementos entram na conta. A depender, por exemplo, se a gente tiver um aumento de pessoas que não vão votar ou que vão votar nulo. Isso pode interferir no resultado desta eleição."
O voto para governador
Na avaliação de Maakaroun, as últimas eleições ao governo em Minas também podem ser explicadas pelo fato de que o Estado reverberou de forma intensa "o discurso antissistema" após a Operação Lava Jato.
Ela explica que Minas era um campo de batalha tradicional do PT contra o PSDB, dois partidos bastante atingidos pelas investigações.
Como exemplo, está a surpreendente eleição de um outsider para governador, Romeu Zema, em 2018 (e reeleito em 2022). O sentimento também teria contribuído com a vitória de Bolsonaro ali no mesmo ano.
Agora, em 2026, a figura que aparece com mais força é o senador Cleitinho (Republicanos), que se vende novamente como outsider apesar de estar há alguns anos na política.
Cleitinho decidiu ser candidato depois de muito vai e volta e discordâncias com seu próprio partido.
Para Silame, o político ainda é expressão desse discurso antissistema no Estado.
"Há um elemento do político outsider, como ele demonstra com seu certo grau de independência dos partidos políticos", avalia.
Para Maakaroun, apesar disso, Cleitinho aparece com um perfil "completamente diferente de Romeu Zema".
"É uma liderança que une, por um lado, pautas populares que respaldam pautas do governo Lula e, por outro, converge valores mais próximos de uma pauta conservadora e religiosa", diz a analista.
Franco favorito nas pesquisas, Cleitinho já disse apoiar Flávio Bolsonaro nacionalmente, mas o palanque oficial do bolsonarismo no Estado é de Flávio Roscoe (PL), que não decolou nas sondagens de voto.
Ao mesmo tempo, ele tem dito em vídeos ser de "direita, mas meu coração é para todos", num aceno a eleitores do PT, que têm como candidato ao governo o ex-prefeito de BH Patrus Ananias.
Esse é um exemplo, como diz o pesquisador Silame, de que Cleitinho se "alinha a pautas do bolsonarismo, sem se dizer bolsonarista".
Mas os analistas concordam que o jogo político do favorito ao Palácio Tiradentes não deve ter muita influência no voto mineiro à Presidência.
"O voto do governo de Minas é desgarrado", analisa Maakaroun.
O Estado, por exemplo, deu sucessivas vitórias a Lula e Dilma enquanto elegia Aécio Neves (PSDB) e Antônio Anastasia (PSDB) ao governo estadual. Mas também já houve consonância, com a vitória de Fernando Pimentel (PT) junto à reeleição de Dilma ou a de Zema junto a Bolsonaro.
O histórico mostra, portanto, que o eleitor mineiro não segue uma fórmula — e que o próximo capítulo ainda está em aberto.
*Gráficos por Caroline Souza e Laís Alegretti, da Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil
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