SP: deputados 'são formigas devoradoras', diz camelô
- Simone Sartori
- Direto de São Paulo
As declarações do deputado Roque Barbiere (PTB), que comparou a Assembleia Legislativa de São Paulo a um "camelódromo" porque "cada um tem um preço", repercutiram entre vendedores ambulantes da zona sul da capital paulista. Eles se disseram ofendidos e devolveram a comparação com ironia: "são formigas devoradoras", "eles são cupins", foram algumas das opiniões ouvidas.
Barbiere afirmou que colegas negociam emendas ao Orçamento com prefeitos e empreiteiras e comparou a Casa a um camelódromo, dizendo que "cada um tem um preço". As primeiras denúncias de Roquinho, como é conhecido, foram feitas em agosto ao jornal Folha da Região, de Araçatuba. O governo paulista negou, em nota, ter recebido do petebista qualquer comunicação de irregularidade no uso das emendas. O deputado reafirmou que não dará nomes de colegas que praticam a ação "nem com revólver" na cabeça, pois seu objetivo não é dedurar ninguém, mas fazer com que situação acabe.
Na avenida Di Penedo, no Largo do Socorro, com pelo menos 15 barracas instaladas na calçada, o sorridente camelô Deraldo Gonçalves Santos, 53 anos, vendedor de doces e salgados, preferiu um tom bem humorado para comentar a declaração. "O inseto distraído passa no formigueiro e é o devorado. Lá (a Assembleia) é um formigueiro e eles (os deputados) são formigas devoradoras", disse. Santos, porém, fez questão de ressaltar que "camelódromo é lugar de trabalhador". O camelô disse não lembrar em quem votou para deputado nas últimas eleições e criticou a atuação parlamentar para justificar sua falta de memória. "Na época de eleição, eles vêm aqui e prometem tudo para a gente votar. Depois que eles entram lá, não fazem mais nada", afirmou.O vendedor de cocada José Rodrigues, 63 anos, há 29 anos como ambulante, disse estar triste com a comparação feita pelo parlamentar e também fez questão de ressaltar que os camelôs são trabalhadores, mesmo que a atividade não seja regularizada. "É ruim fazer esse tipo de comentário. Nós trabalhamos honestamente. Eles deveriam trabalhar com mais decência. Para mim, eles são cupins. Entram nos lugares e destroem tudo", afirmou.
Apesar do bom humor dos colegas, Salomão Gonçalves de Lima, 42 anos, há 18 anos como camelô, era o mais indignado. "Me sinto ofendido. A gente trabalha aqui todos os dias para sobreviver. Se ele (o deputado) acha isso, eu acho que lá mais parece um chiqueiro. Eles tinham que combater a corrupção e ajudar a gente a trabalhar", afirmou.
O desabafo de Salomão ganhou reforço com o discurso de Regina Silva, 49 anos e há 12 na região. "Não tem como não se sentir ofendida. Ele (Barbiere) não deveria fazer esse tipo de comparação, não tem nada a ver. Deputado é deputado, camelô é camelô", disse ela, que não votou para deputado nas últimas eleições. "Adianta? Eles não fazem nada pela gente."