Santa na campanha: como a padroeira do Brasil mobilizou as redes na reta final do primeiro turno
COMENTÁRIO SOBRE MOBILIZAÇÃO DE EVANGÉLICOS PARA 'DESTITUIR' NOSSA SENHORA APARECIDA DE POSTO GEROU POLÊMICA; FLÁVIO BOLSONARO NEGOU INTENÇÃO
Na reta final do primeiro turno, o termo "padroeira" teve pico de buscas após boatos nas redes associarem falsamente Flávio Bolsonaro a um suposto projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. A polêmica nasceu da distorção de um comentário televisivo sobre uma proposta real arquivada em 2008. Flávio negou a autoria. A tensão religiosa na eleição também se intensificou com um vídeo de bispos da Amazônia alertando fiéis contra a manipulação do voto pela fé.
O termo "padroeira" atingiu um pico de buscas no Google nesta sexta-feira, 25 de setembro. Outras pesquisas associadas tiveram um aumento repentino de interesse pelos internautas. Nas redes sociais, enquanto isso, circulavam alegações de que o candidato Flávio Bolsonaro (PL) estaria articulando um projeto de lei para tirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil.
A pouco mais de uma semana do primeiro turno das eleições, a polêmica se formou após a jornalista Maria Cristina Fernandes fazer um comentário no programa Em Pauta, da GloboNews, na noite de quinta-feira, 24 de setembro, ao analisar o cenário eleitoral: "Tem um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora de Aparecida da condição de padroeira, que pode sim surtir efeito entre os católicos a favor de Lula", disse.
Nas redes, o comentário foi distorcido e a suposta iniciativa passou a ser associada a Flávio Bolsonaro, embora a jornalista não tenha atribuído o projeto ao candidato. Na madrugada, a GloboNews pediu desculpas e disse que já houve um projeto de lei com esse intuito, em 2007, mas que ele foi arquivado em 2008. Nesta sexta, Flávio correu às redes sociais para desmentir a rumores: "É uma mentira que eu teria apoiado algum projeto que fosse retirar a Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil", disse. "Eu jamais faria isso.
Também voltou a circular nas redes o trecho de um vídeo postado por Flávio Bolsonaro em 23 de agosto deste ano, respondendo a críticas por não ter participado do debate eleitoral entre candidatos à Presidência promovido pela Band.Na ocasião, ele disse: "Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo".
A declaração de Flávio está disponível no vídeo que foi publicado pelo candidato em suas redes sociais.
Projeto arquivado
Em 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli (MDB) propôs que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser considerada padroeira do Brasil, e fosse reconhecida apenas como padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos. O argumento era de que o Brasil é um país laico. Mas o projeto foi arquivado em 2008 depois de ser rejeitado na única comissão que analisou seu mérito.Dez anos depois, segundo a Câmara dos Deputados, circularam informações na internet de que o projeto tinha voltado a ser analisado pelos deputados, mas isso era falso.
Recados de bispos
Outro elemento que alimentou a polêmica religiosa dos últimos dias foi um vídeo divulgado por bispos da Amazônia na última segunda-feira, 21 de setembro, no qual os prelados incentivam os fiéis a escolherem bem seus candidatos ao Executivo e ao Legislativo, mencionando a defesa da democracia, da soberania e proteção da Amazônia e dos povos indígenas.
Esses temas costumam aparecer na campanha do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas o vídeo não cita o nome dele. O material foi disponibilizado pela regional Norte 1 da CNBB, que incluiu as dioceses do Amazonas e de Roraima, presidida pelo arcebispo de Manaus, cardeal Dom Leonardo Steiner. É ele quem abre o vídeo, dizendo: "Não deixe de votar. É um dever que garante o direito de todos. É a nossa participação, é a garantia da nossa democracia. Votar é exercício de cidadania, é exercício de democracia".
Diversos outros bispos falam na sequência. Dom Guilherme Werlang, bispo emérito da Diocese de Lages e atual vigário paroquial no Amazonas, afirma: "Atenção à manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus. As igrejas não são currais eleitorais".
Dom José Altevir da Silva, bispo da Prelazia de Tefé (AM), diz: "É importante votar em quem defende os territórios dos povos indígenas, ribeirinhos e povos tradicionais". Um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de Manaus, Dom Frei Samuel Ferreira, completa: "É importante a soberania do Brasil, a soberania da nossa Amazônia, a soberania de nossas riquezas e bens. A democracia, portanto, é um bem precioso a ser cuidado e garantido".
O Verifica entrou em contato com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que perdeu acesso a sua conta no X em meio à polêmica, mas não recebeu retorno até a publicação deste texto. Em julho, a entidade divulgou uma carta aos brasileiros dizendo que não indica candidatos, nem partidos.
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