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O que é o centro na política brasileira e quem quer ocupar esse espaço na eleição

Políticos com agenda econômica liberal, como Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e Geraldo Alckmin, tentam se posicionar como alternativa 'moderada' a Lula e Bolsonaro, os líderes das pesquisas.

12 jan 2018
07h12
atualizado às 08h06
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Busca-se um candidato de centro: a nove meses da eleição presidencial, a viabilização de uma candidatura que aglutine forças "moderadas" tem sido tópico frequente do debate político brasileiro.

Governador de São Paulo, presidente da Câmara dos Deputados e ministro da Fazenda são nomes cogitados para as próximas eleições | Fotos: Reuters/Câmara dos Deputados
Governador de São Paulo, presidente da Câmara dos Deputados e ministro da Fazenda são nomes cogitados para as próximas eleições | Fotos: Reuters/Câmara dos Deputados
Foto: BBC News Brasil

Os que defendem isso dizem ser necessária a união das "forças não extremadas" (termo usado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, em artigo recente) como alternativa aos dois líderes nas pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). Nomes identificados com o liberalismo econômico, uma bandeira tradicionalmente de direita, têm postulado essa posição.

É o caso do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), com longa carreira no mercado financeiro até se tornar presidente do Banco Central no governo Lula (2003-2010), do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

Já Marina Silva, que buscou se apresentar como "terceira via" entre PT e PSDB em 2014 e agora é pré-candidata da Rede, tem sido menos citada, mas foi lembrada no artigo de FHC como outro nome possível.

Tal discussão levanta questionamentos: o que, afinal, seria o centro na política brasileira? E Lula representaria um radical de esquerda, exato oposto do radical de direita Bolsonaro?

Centro, lugar indefinido

Petista e seu partido radicalizam discurso à esquerda, apontam analistas
Petista e seu partido radicalizam discurso à esquerda, apontam analistas
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Para analistas políticos ouvidos pela BBC Brasil, o "centro" é um lugar dinâmico que se define dentro da disputa eleitoral, a depender de quão à esquerda ou à direita estão os candidatos.

Nesse sentido, o fato de Lula e Bolsonaro no momento polarizarem as intenções de voto abre caminho para que outros concorrentes usem o espaço "entre" eles como estratégia eleitoral. Isso não significa, porém, que os dois ocupem os "exatos opostos" do espectro político, nem que nomes como Alckmin, Meirelles e Maia estejam no "centro exato" entre os dois.

"A estratégia desses nomes (que se colocam como centro) é radicalizar e reificar o que significa Lula e Bolsonaro. É muito mais uma resposta racional à estrutura da competição atual do que propriamente uma consistência ideológica", afirma o cientista político Rafael Cortez, da Consultoria Tendências.

Em recente entrevista ao jornal O Globo, Maia defendeu que "o centro não é um ponto entre direita e esquerda, ou seja, um meio do caminho entre o Bolsonaro e o Lula. (…) Centro é onde vai se dialogar com a sociedade".

O que é esquerda e direita?

Cortez considera que há dois eixos principais que servem de termômetro para o quão um candidato é de esquerda ou direita - os candidatos de centro são aqueles entre os que tendem mais claramente para um dos polos.

Um desses eixos identifica o posicionamento em relação à "questão redistributiva".

No extremo à esquerda, está a visão de que a melhor forma de gerar igualdade é por meio da atuação do Estado, que deveria corrigir as injustiças criadas pelo mercado. Já no outro extremo, da direita, ficam os que acreditam que o mercado é a melhor mecanismo de regular a distribuição de bem-estar, de acordo com as decisões e méritos individuais, evitando que grupos dentro do Estado capturem recursos para si.

Para Rafael Cortez, não está clara a posição de Bolsonaro sobre a 'questão redistributiva'
Para Rafael Cortez, não está clara a posição de Bolsonaro sobre a 'questão redistributiva'
Foto: Reuters / BBC News Brasil

"O grosso da discussão na política brasileira vinha se dando em torno do eixo redistributivo, com o PT assumindo a defesa de maior peso do Estado e o PSDB com discurso mais liberal. Na eleição de 2014, Marina aparecia como algo intermediário, combinando em seu discurso uma certa responsabilidade do ponto de vista econômico, mas ainda dando peso a valores igualitários", lembra Cortez.

"Agora, para 2018, outra dimensão vem ganhando relevância, o eixo dos valores, e é por isso que está mais difícil definir o centro", ressalta.

Nesse segundo eixo apontado por Cortez, em uma das pontas fica a visão mais progressista, que defende uma clara divisão entre Estado e questões morais e religiosas. Já na outra ponta estão os conservadores, que têm uma postura mais moralista quanto às liberdades individuais.

O primeiro grupo em geral defende, por exemplo, os direitos humanos e a legalização do aborto, das drogas e do casamento homossexual. Já o segundo costuma combater essas propostas e apoiar um Estado mais repressor.

No Brasil, as visões progressistas costumam estar mais associadas à esquerda e as conservadoras, à direita.

"O Bolsonaro não emerge a partir da discussão redistributiva, mas recuperando supostos valores que teriam sido perdidos em função de práticas de corrupção. Ele chama atenção para uma suposta desconexão entre reais valores da sociedade e o comportamento da classe política", nota Cortez.

"É aí que vemos também discussões sobre ideologia de gênero, escola sem partido, o papel das forças armadas", exemplifica.

Já no "eixo redistributivo", não está clara qual é a posição de Bolsonaro. Embora ele venha tentando se associar ao liberalismo econômico, os analistas ouvidos pela BBC Brasil o consideram uma incógnita nesse campo.

"Na sua carreira como deputado, os projetos que apresentou eram muito corporativistas, atendendo interesses dos militares, e isso vai contra os princípios do liberalismo", afirma Cortez.

Ex-senadora é pré-candidata pela Rede para sua terceira eleição presidencial seguida
Ex-senadora é pré-candidata pela Rede para sua terceira eleição presidencial seguida
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Alckmin, Meirelles e Maia são centro?

Os atores políticos tendem a transitar por esses "eixos" ao longo do tempo, mudando sua postura de acordo com a própria dinâmica da disputa político-eleitoral.

Vejamos o caso do PSDB, por exemplo, do pré-candidato Alckmin. Segundo a pesquisadora da FGV Lara Mesquita, o partido nasce como uma legenda de centro-esquerda - e isso fica claro nas posturas adotadas na Assembleia Constituinte (1987-1988).

Durante os governos Itamar Franco (1992-1994) e FHC (1995-2002), porém, com a implementação do Plano Real para debelar a hiperinflação, o PSDB vai se deslocando para a direita, ao adotar políticas econômicas neoliberais.

E mais recentemente, nota Cortez, o partido também passou a flertar com um maior conservadorismo no campo dos valores, por exemplo com a filiação de parlamentares como o deputado estadual Coronel Telhada (SP), que já deu declarações como "direitos humanos é para defender a pessoa, não para defender bandido".

E, assim como o PSDB se deslocou para o liberalismo e o conservadorismo, o PT também se movimentou para a direita, observa o analista da Tendências: o partido, inicialmente associado ao "socialismo", passou a ocupar o espaço de legenda "social-democrata" que era dos tucanos.

"Os governos Lula nunca foram de esquerda. Eram governos que faziam parte de uma aliança muita ampla que iam da centro-direita até a esquerda. E do ponto de vista redistributivo, foi um governo que subsidiou o capital muito mais do que fez política social", avalia o sociólogo Sérgio Abranches, conhecido por ter cunhado o termo "presidencialismo de coalizão" para classificar o sistema político brasileiro.

Na visão de Mesquita, Lula e o PT voltaram a radicalizar o discurso à esquerda - por exemplo com forte oposição à Reforma da Previdência, medida que o próprio governo Dilma Rousseff chegou a defender - como uma estratégia de recuperar suas bases (movimentos sociais e sindicais, por exemplo) após o desgaste sofrido com a operação Lava Jato e o impeachment.

Nesse novo contexto, a pesquisadora da FGV considera correto classificar Alckmin, Meirelles e Maia como possíveis candidatos de centro. "São nomes que estão à esquerda de Bolsonaro e à direita de Lula", afirma.

Situação jurídica de Lula gera incertezas sobre o cenário eleitoral para 2018 | Foto: Elza Fiúza/ABr
Situação jurídica de Lula gera incertezas sobre o cenário eleitoral para 2018 | Foto: Elza Fiúza/ABr
Foto: BBC News Brasil

Já para Abranches, os três representam a continuidade do governo Temer, uma administração conservadora "de homens brancos" cuja única agenda é a econômica. O sociólogo classifica todos como centro-direita.

Na sua avaliação, o debate atual está confundindo a posição de "centro" com o governo Temer.

"Digo centro-direita porque tem o Bolsonaro. Se ele estiver na disputa, ele define a extrema-direita, por seu viés autoritário. Com isso, o Temer se desloca para a centro-direita. O Bolsonaro ajuda o Temer, nesse ponto de vista", ressalta.

Para Abranches, o deputado é uma figura menor da política brasileira. "Eu diria que todo mundo polariza com o Bolsonaro, pois ele representa uma volta ao passado autoritário", completa.

O sociólogo acredita que a candidatura do deputado tende a perder fôlego. Se isso acontecer, afirma, a eleição deve se polarizar entre um candidato de centro-direita que represente o governo Temer e outro de centro-esquerda, que pode vir a ser Lula, caso consiga evitar ser barrado pela Lei da Ficha.

Se for condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá no julgamento previsto para ser realizado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) a partir do próximo dia 24, o petista dependerá de recursos para poder concorrer.

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