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Mães de Maio: negro e pobre já vivem sob intervenção militar

Coordenadora de movimento que defende a desmilitarização da PM comenta pedidos de intervenção: "Esse pessoal precisa reconhecer que os pobres e os negros são vítimas da ditadura continuada"

5 nov 2014
20h17
atualizado às 21h40
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“Nós temos que mostrar que a ditadura não acabou. Ela só vai acabar quando a gente desmilitarizar a polícia. Esse nome ‘militar’ está presente 24 horas na nossa periferia”, disse Débora Maria da Silva, 54 anos, coordenadora do movimento Mães de Maio, durante debate sobre a ditadura militar (1964-1985) no Brasil, nesta quarta-feira, em São Paulo.

A ativista Débora Maria da Silva, coordenadora do movimento Mães de Maio, durante evento na PUC-SP
A ativista Débora Maria da Silva, coordenadora do movimento Mães de Maio, durante evento na PUC-SP
Foto: Débora Melo / Terra

Aos manifestantes que no último sábado pediram “intervenção militar” em um ato pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Débora dirigiu poucas palavras. “Esse pessoal precisa reconhecer que os pobres e os negros são vítimas da ditadura continuada. A ditadura não acabou. Esse passado está muito presente para nós”, afirmou à reportagem.

O Mães de Maio é um movimento formado por 17 mães de mortos e desaparecidos nos confrontos que ficaram conhecidos como "crimes de maio", ocorridos em 2006. De acordo com entidades de direitos humanos como o Tortura Nunca Mais, os crimes foram uma resposta de grupos de extermínio - com a participação de PMs - aos ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que resultaram na morte de 43 agentes públicos. Em represália, ao menos 493 pessoas foram assassinadas, sendo que a grande maioria das vítimas era de jovens negros, moradores das periferias.

“Nós não aceitamos que tenhamos um País dividido, onde os negros e os nordestinos têm de ser separados da elite, de uma minoria da classe racista que temos em nosso País. Nós não temos um País igualitário”, disse Débora. O depoimento da ativista foi dado em painel do Congresso Internacional Memória: Alicerce da Justiça de Transição e dos Direitos Humanos, realizado desde domingo no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca) para debater a importância da memória no processo de transição da ditadura para a democracia.

“Falsa democracia”
Para Débora, o que temos hoje no Brasil é uma “falsa democracia”. “Precisamos exigir de nossos políticos verdadeiras políticas sociais. Não à redução da maioridade penal, não ao encarceramento em massa, que são respostas quando não podem tratar do problema. Eles jogam o problema para nós, mas o problema não somos nós: o problema é o sistema corrupto que existe no nosso País. A corrupção é a mazela que mata e que encarcera. Nós temos que lutar”, afirmou a ativista.

Os “crimes de maio” foram arquivados sem que muitos casos fossem esclarecidos. Além disso, a primeira condenação de policial militar envolvido nos episódios ocorreu somente em julho de 2014: o PM Alexandre André Pereira Silva foi condenado a 36 anos de prisão em regime fechado pela morte de três homens em um lava-rápido na zona norte de São Paulo.

“Nós exigimos, e o País tem que dar uma resposta. Foi um massacre (...) Os crimes de maio foram arquivados. É falta de eficiência por parte da Segurança Pública, mas nós também temos a certeza de que é difícil polícia investigar polícia”, afirmou Débora. “É difícil. Eu posso sair e ser executada. Mas eu não tenho medo da bala. As Mães de Maio não têm medo, porque se tivessem não estariam na luta. Nosso medo era perder nossos filhos, e nós perdemos”, continuou a ativista.

Fonte: Terra

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