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Política

Lula estimula petistas a polarizar disputa municipal e diz que 2024 vai ser ele contra Bolsonaro

O presidente diz que o partido precisa aprender a falar com evangélicos e buscar candidatos com chances de vencer entre os aliados se os petistas não tiverem um nome competitivo

8 dez 2023 - 22h07
(atualizado em 9/12/2023 às 10h26)
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BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estimulou a militância do PT a nacionalizar a disputa nas eleições municipais de 2024 e afirmou que a polarização entre ele e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve permanecer no embate do próximo ano. Na Conferência Eleitoral do PT, nesta sexta-feira, 8, Lula pediu para que os petistas encarem a oposição e fez críticas à capacidade política do próprio partido.

"Acho que nessa eleição vai acontecer um fenômeno. Vai ser outra vez Lula e Bolsonaro disputando as eleições nos municípios", disse o presidente. "Nós sabemos que (vocês) não podem aceitar provocações, não podem ficar com medo, não podem enfiar o rabo no meio das pernas. Quando um cachorro late para a gente, a gente late também".

Para Lula, é preciso que a base do PT encontre respostas para conversar com eleitores que cada vez menos aderem à esquerda. "Será que estamos falando aquilo que o povo quer ouvir de nós?", questionou ele, em uma autocrítica. Lula mencionou, especialmente, quatro grupos: evangélicos, pequeno e médio empresário, classe média e agronegócio.

"Temos que nos perguntar por que que um partido muitas vezes no discurso diz que tem toda a verdade e só conseguiu eleger 70 deputados. Por que tão pouco, se a gente é tão bom? Será que estamos tentando convencer o povo das nossas verdades ou temos que aprender com o povo para falar com eles?", perguntou o presidente à plateia formada por petistas, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. "Como a gente vai fazer para falar com os evangélicos? Não é individualmente o problema de uma pessoa. É uma narrativa que precisamos aprender para falar com essa gente trabalhadora, de bem, que agradece a igreja para tirar o marido da cachaça, para cuidar da família, da violência. Precisamos aprender a construir o discurso para falar com essa gente. Como a gente vai convencer o pequeno e o médio empresário a falar conosco?"

Lula prosseguiu, dizendo que o PT manteve o apoio do público que ganha menos de dois salários mínimos. "Quem ganha acima de cinco salários mínimos tem dificuldade de votar na gente. É porque, possivelmente, essa pessoa elevou o milímetro de aprendizado dela e nós não aprendemos a conversar com ela", afirmou.

Para incrementar o diálogo, sugeriu o presidente, é preciso retomar o trabalho de base. "O dinheiro ainda pesa. Mas o trabalho de base não tem dinheiro que compre. E precisamos voltar a fazer trabalho de base", afirmou. "Bota uma bota e vai visitar cada casa, conversar com as pessoas. Vá na igreja, converse com o pastor, com as mulheres e homens que estão lá. Vá na Igreja Católica. Nós poderemos ter uma extraordinária vitória, e depende da capacidade nossa de fazer campanha, fazer aliança e escolher os melhores para representar."

A Conferência Eleitoral do PT contou com a participação de ministros, parlamentares, governadores, prefeitos, dirigentes e candidatos do partido, além de nomes que não fazem parte da sigla, como o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e as ministras da Saúde, Nísia Trindade, sem filiação partidária, e da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos (PC do B).

Em um novo aceno ao agronegócio, Lula citou os ganhos que o setor teve neste ano. "O agronegócio que votou majoritariamente contra nós nunca recebeu a quantidade de dinheiro como nesse Plano Safra. E vamos fazer mais", disse. O setor acumula queixas com o presidente, especialmente no Congresso Nacional. A pressão do grupo levou a aprovação do projeto de lei do marco temporal e a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Como revelou o Estadão, deputados da base agrária do PT, porém, acumulam reclamações de ministros petistas da Esplanada, especialmente Alexandre Padilha (Relações Institucionais), Rui Costa (Casa Civil) e Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário). O grupo acredita que o governo não dá atenção às pautas do MST e da reforma agrária.

Em um discurso com cerca de uma hora de duração, Lula afirmou que será cabo eleitoral em algumas cidades durante a eleição de 2024. Disse, ainda, que o PT pode fazer alianças com outras siglas da esquerda. "Se o partido não tem um candidato (competitivo), a gente tem que apoiar um cara mais próximo de nós. A gente tem que fazer acordo com partidos de esquerda, pessoas democráticas, que vão cumprir o que a gente vai acordar", argumentou. Em São Paulo, por exemplo, o PT vai apoiar a candidatura do deputado Guilherme Boulos (PSOL) à Prefeitura.

Para conter a disputa interna pelo comando do PT, Lula fez elogios públicos a Gleisi Hoffmann, presidente do partido. "Tenho muito orgulho dessa moça aqui", afirmou. "Hoje, eu posso dizer nessa conferência do PT: 'Graças a Deus, você é a presidenta nacional do PT, que fez a gente enfrentar os anos difíceis de 2018."

Gleisi foi a outra pessoa a discursar no evento, que reuniu cerca de 5 mil petistas. Ela defendeu a prisão de Bolsonaro, fez críticas ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e ao mercado. Ainda houve espaço para um ataque indireto ao Centrão, repetindo um trecho da versão preliminar da resolução do partido, aprovado nesta sexta-feira,8.

O petista pediu mais participação feminina nas eleições, mas as culpou as próprias mulheres pela baixa adesão. "Vocês têm que entrar na política. Não basta reclamar que mulher não tem vez", disse. Mais de 2/3 da Esplanada dos Ministérios no governo Lula, atualmente, é ocupado por homens."

Estadão
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