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Tatiana Farah

Bolsonaro esperava multidão, mas o mito passou

Ex-presidente também reclamou que sentiu falta de carros blindados. Lula dizia que é difícil desencarnar do cargo

30 mar 2023 - 17h16
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Bolsonaro é recebido por cerca de 350 pessoas
Bolsonaro é recebido por cerca de 350 pessoas
Foto: Reprodução/Sergio Lima/Poder360 / Reprodução

Jair Bolsonaro queria até uma motociata, como aquelas regadas a lanches do cartão corporativo, para marcar seu retorno ao Brasil depois de 89 dias nos Estados Unidos. O PL previa uma multidão de 5 mil pessoas e sonhava com 10 mil. Mas, segundo o Poder Online, o comitê de boas-vindas não passou de 350 pessoas. Entre elas o filho Eduardo Bolsonaro, que levantou cedo para receber o pai. Em reunião com o PL, o ex-presidente teria se queixado da falta de carros de blindados, coisa que não faz parte das obrigações do Estado com seus ex-presidentes.

O ex-capitão escolheu a dedo a data do retorno. Para supresa de ninguém, vai aproveitar amanhã, aniversário do golpe militar, para se juntar aos que comemoram um dos piores períodos vividos pelo Brasil, os viúvos e viúvas da ditadura. Mas sua chegada é um choque de realidade para Bolsonaro, que não escondeu sua fragilidade e seu choro na derrota eleitoral e nesses meses que seguiu em autoexílio numa mansão da Flórida.

Jair Bolsonaro retorna ao Brasil após 3 meses nos EUA:

Quando deixou o governo, em 2011, Lula não se cansava de repetir sobre a dificuldade de passar a faixa para sua sucessora. Dizia que era difícil “desencarnar da Presidência”. Não chorava, ria. Mas dizia isso, sempre fazendo sombra a Dilma Rousseff.

Bolsonaro sente a mesma dificuldade de ter perdido o poder de sua caneta BIC ou de suas canetas presenteadas pelo governo da Arábia Saudita. Um dos presentes, aliás, um terceiro lote, ainda está em seu poder e carece de ser devolvido, informam os jornais nesta semana. Mais que esperar uma multidão, que não veio, o núcleo bolsonarista espera que também não venham, pelo menos rapidamente, as faturas judiciais de seu governo, como as investigações que podem levar à perda de seus direitos políticos, torná-lo inelegível, para dizer o mínimo. O capitão perdeu seu poder ao deixar o Palácio do Alvorada, de onde a ex-primeira-dama Michelle levou até as moedinhas da sorte do tanque de carpas, segundo ela para doar a uma igreja.

Depois de um hiato de três meses, em que apareceu nas redes sociais apenas de duas formas (emocionado por ter perdido ou soltando cards sobre seus supostos feitos), Bolsonaro não despertou em seus eleitores a vontade de madrugar na entrada do aeroporto. Nomeado presidente de honra do PL, vai ter de conviver, pela primeira vez, com sua mulher como figura política. Não deu muito certo com uma de suas ex nessa função, quando colocou o próprio filho para disputar com ela uma vaga na Câmara, em 2000. São arranjos que nunca saem como esperado. Por enquanto, Michelle figura como alternativa do PL caso seu marido seja considerado inelegível. Mas seu grande adversário como líder da direita será mesmo Tarcísio de Freitas, caso o governador de São Paulo tenha um bom desempenho. É muito cedo para apostas.

No entanto, é um erro pensar que este seja o começo do fim do ex-presidente. A história da política se faz de altos e baixos e as ideias que levaram Bolsonaro à Presidência seguem bem vivas em governo estaduais, prefeituras, casas legislativas e setores da sociedade. O fato é que o bolsonarismo prescinde de Bolsonaro. Ao deixar o país por três meses, em um momento crítico para seus eleitores, ele deixou esse vácuo de liderança e perdeu seu papel de mito. 

Por ora, é pegar a pipoca para assistir como Bolsonaro vai se virar para “desencarnar da Presidência” e, ao mesmo tempo, recuperar sua capa de super-herói da direita.

Fonte: Tatiana Farah Tatiana Farah é jornalista de política há mais de 20 anos. É repórter da Agência Brasília Alta Frequência. Foi gerente de comunicação da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Repórter do BuzzFeed News no Brasil de 2016 a 2020.  Responsável por levar os segredos do Wikileaks para O Globo, onde trabalhou por 11 anos. Passou pela Veja, Folha de S. Paulo e outras redações, além de assessorias de imprensa. As opiniões da colunista não representam a visão do Terra. 
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