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Após 30 anos, artistas recordam maior comício das Diretas Já

No dia 10 de abril de 1984, o entorno da igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, recebeu um milhão de pessoas que reividicavam o voto direto para presidente da República

10 abr 2014
10h00
atualizado às 11h23
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O carioca da gema nascido e criado nos arredores do que é hoje a estação Botafogo do metrô do Rio de Janeiro saberá dizer com todas as letras. No início de tarde de 10 de junho de 1984, a unidade, inaugurada três anos antes, teve a sua grande prova de resistência. Um mar de brasileiros aspirantes pelo retorno das eleições diretas para a presidência da República formavam filas de 30 minutos para adquirir um bilhete rumo à igreja da Candelária e arredores, no centro. As composições partiam cheias para desespero dos passageiros das estações subsequentes e igualmente lotadas. 

Comício pelas eleições diretas realizado no Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1984
Comício pelas eleições diretas realizado no Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1984
Foto: CPDoc/Jornal do Brasil / Jornal do Brasil

O anseio pelo retorno da democracia moveu a maior massa já vista até então contra o regime militar em frente ao palanque montado no local já histórico de manifestações da capital fluminense. Um milhão de brasileiros, o maior público até então dos comícios da Diretas Já, superando o de São Paulo, simbolizava a pesquisa feita um tempo antes pelo Ibope que dava conta que 85% da população queria o voto direto para presidente. 

Em 15 dias, a proposta de emenda constitucional que recebeu o nome do deputado que a propôs, Dante de Oliveira (PMDB-MT), seria votada na Câmara dos Deputados para devolver ao povo o direito de escolher quem iria comandar o País. Barcas e ônibus liberaram as respectivas roletas e ninguém mais trabalhou naquele dia. A avenida Presidente Vargas foi tomada por uma multidão. Muitos fantasiados usando da criatividade em tom de ironia contra os militares que já governavam o Brasil desde 1964. 

No hotel Guanabara, em frente ao palco montado, a Polícia Federal montou linha direta com o Ministério da Justiça para o caso de alguma intervenção. Só que a figura sagaz de Leonel Brizola, ciente da confusão de 25 de janeiro em São Paulo, soube “apartidar” o comício muito mais do que liderar. Na lista de oradores, nenhum vinculado aos movimentos clandestinos. No palanque sólido do PDT, ele impediu que as bandeiras com foices do PC do B inquietassem ainda mais o general Heraldo Tavares Alves, comandante do 1o Exército. 

Nenhuma vidraça foi quebrada, nenhum ato de violência foi registrado. Brizola foi o grande líder daquele grito de liberdade. Tanto que encerrou a extensa lista de 52 oradores, desde Ulysses Guimarães a Jô Soares, dizendo que “hoje o mais orgulhoso desse milhão de pessoas é o cidadão chamado Leonel Brizola”. 

“Dá uma saudade do Brizola quando falo sobre isso”, confessa Martinho da Vila ao Terra, ele que foi um dos membros honorários da classe artística atuante nas Diretas Já, ao lado de cantores como Chico Buarque, Fafá de Belém, Milton Nascimento, dentre outros. “Foi um grande momento brasileiro de unidade”, recorda ainda. 

“Quando cheguei à Candelária, e era o meu trigésimo comício das Diretas, eu fiquei impressionada com o tamanho da estrutura montada. Fiquei encantada”, relembra Fafá de Belém, que proporcionou a imagem simbólica da pomba que voa pela paz na imagem de TV dos arquivos. “Cheguei ao Rio e consegui comprar uma pomba, eu já tinha levado a outros comícios. Peguei um táxi comum e o rapaz: ‘A senhora está atrasada, porque todos os ônibus levando os artistas já saíram’. E eu disse: ‘Já fui a comício à pé, de jegue, de bicicleta, de canoa. Nesse eu vou de táxi’. E fui”, conta. A classe artística foi bastante ativa na campanha pelas Diretas, mas não foi composta apenas de atores e músicos. Num apartamento de um prédio vizinho ao palco, de camarote, dois dos mais importantes documentaristas do Brasil assistiam ao maior movimento até então contra os militares: Silvio Tendler e Eduardo Coutinho. 

"As Diretas Já foram um momento orgástico", afirma Tendler. "A classe artística foi uma coisa fundamental para mobilizar o povo e dar mais força ao movimento. Era gente de todos os quadrantes, era uma grande unidade nacional em busca das Diretas Já. Eu vejo as fotos ainda com lágrimas", completa. "Mas naquele momento, eu registrei com minhas pupilas, sem câmera", faz questão de deixa claro. 

Tendler era outra figura com voz ativa na época, mas não precisava de pulseira VIP no punho, e microfone em mãos. "Imagina, justo naquela época, o (Eduardo) Coutinho tinha lançado 'Cabra Para Morrer', e eu, 'Jango'. Era felicidade pura", celebra. Reportagens da época consultadas pelo Terra relatam que muita gente que jamais tinha ido às ruas manifestar-se sentiu motivação justamente pelo trabalho recém-lançado de Tendler sobre a vida do até então último presidente democrático do Brasil, deposto justamente pelo regime vigente: João Goulart. "Jango" foi visto por mais de um milhão de pessoas no País, número bastante expressivo para a época.

“Naquele dia eu recebi uma carta de uma menina de Brasília, dizendo que como não podemos ir às ruas, nosso desejo, estamos indo ao cinema indo ver seu filme, aplaudir e afrontar a ditadura”,recorda Tendler. Quem estava no Rio de Janeiro lembra-se também que "Coração de Estudante", canção trilha do documentário, foi entoada em uníssono por Milton Nascimento. Era a trilha das Diretas Já. 

"Tenho orgulho, claro", responde de forma direta Wagner Tiso, o responsável por compor o arranjo da canção de Milton Nascimento. "Já podaram seus momentos. / Desviaram seu destino. / Seu sorriso de menino. / Quantas vezes se escondeu", dizia um dos trechos da letra. 

Aquilo foi um espetáculo. Eu já estava programado de ir com o (cartunista e também combatente dos tempos de chumbo) Henfil, que foi quem idealizou o nome “Diretas Já”. Lula me ligou e combinamos de irmos juntos. Já tinha ido ao comício da Sé. Fiquei orgulhoso de estar ali, de estar todo mundo com o mesmo espírito", diz. Espírito esse que também foi marcado por "Menestrel das Alagoas", canção cujo arranjo foi novamente de sua autoria, cantado por Fafá de Belém. 

O locutor e a ducha de água fria
Dentre as dezenas de discursos, por mais que Brizola fosse o arquiteto daquele importante palanque, a voz do movimento ganhava os ouvidos direto das caixas de som, que por sua vez ampliavam a voz dele, Osmar Santos, o grande locutor do maior comício das Diretas Já. "Vocês querem indiretas", incitava o público contra os militares nos registros de época. 

"Ele guarda com carinho e emoção. Foram poucos que tiveram a chance de participar de forma tão direta", afirma o irmão de Osmar, o também locutor Oscar Ulisses. "Ele tinha um timbre de voz importante. Um sujeito que dominava o discurso como ele, conseguia acalmar a população. Ele evitou vaias para alguns políticos, principalmente em São Paulo, por causa de uma causa maior. Foi o papel de entregar o máximo dele para algo que era esperançoso para o País", reforça ainda. 

Foi Osmar Santos que, ao final da última oratória, depois dos também célebres discursos de Ulysses Guimarães e Sobral Pinto, promoveu o célebre momento do hino nacional cantado por um milhão de pessoas na Candelária. Por ironia do destino, uma forte chuva despencou sob a multidão. Seria o prenúncio da legítima ducha de água fria?

<p>Comício das Diretas reuniu lideranças como Leonel Brizola, Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardoso</p>
Comício das Diretas reuniu lideranças como Leonel Brizola, Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardoso
Foto: CPDoc/Jornal do Brasil / Jornal do Brasil

Por mais que Brizola e companhia tenham ido comemorar o sucesso do comício na badalada boate Scala, 15 dias depois, a Emenda Dante de Oliveira foi recusada por pouco. Faltaram 22 votos, sendo que 113 deputados se ausentaram da sessão. Não seria dessa vez. “Para mim foi de frustração total o sentimento. O Brasil inteiro, e não dá nada", lembra Martinho da Vila. "Foi a maior manifestação do Brasil, e a maior frustração que eu tive. Não surtiu nenhum efeito. Pensei que o Brasil fosse pegar fogo depois disso", frustra-se ainda. 

“Nós artistas não imaginávamos um plano B. Eu tinha 26 anos, e não imagina ser possível o Congresso virar as costas para aquilo tudo", reforça também Fafá de Belém. "Todos fomos para as ruas e ficamos nessa frustração coletiva, mas o processo era irreversível. No dia que a emenda foi derrotada, quem foi derrotado foi o Congresso."

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Dito e feito. No ano seguinte, o presidente João Baptista Figueiredo, em manobra no mesmo Congresso, não conseguiu recolocar um sucessor militar e quem assumiria a presidência seria Tancredo Neves. O resto da história o Brasil conhece: a morte de Tancredo fez José Sarney assumir a República, e criar mais um desalento, mesmo que passageiro, para a classe artística da época: Wagner Tiso.

"A música ficou marcada como o hino da nova República, mas com o Sarney na presidência (que apoiou os militares por 20 anos) isso me fez ficar de mal com a música por muito tempo. Mas já voltei a tocá-la em shows, fiz as pazes."

 

Fonte: Terra

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