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Fotógrafo relembra comício das Diretas que reuniu 300 mil em MG

O ato foi o primeiro grande comício em Minas Gerais que pedia eleições diretas para presidente da República e reuniu mais de 300 mil pessoas

24 fev 2014
15h44
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Profissional com mais de 40 anos de carreira, o fotógrafo Marcelo Prates acompanhou da marquise de um prédio na avenida Afonso Pena o comício que levou mais de 300 mil pessoas à Praça da Rodoviária no centro de Belo Horizonte em 24 de fevereiro de 1984. O ato foi o primeiro grande comício em Minas Gerais que pedia eleições diretas para presidente da República. Atualmente editor de fotografia do jornal Hoje em Dia, Prates relembrou como foi a jornada de trabalho naquele dia.

Do alto do prédio, Prates fotografou, no meio da multidão, os ônibus e as viaturas do batalhão de choque da Polícia Militar, que acompanharam o protesto com centenas de militares
Do alto do prédio, Prates fotografou, no meio da multidão, os ônibus e as viaturas do batalhão de choque da Polícia Militar, que acompanharam o protesto com centenas de militares
Foto: Marcelo Prates / Divulgação

"A sucursal do jornal (O Globo) em BH tinha dois fotógrafos. Eu e a Mana Coelho. Naquele dia, a pauta era o comício Diretas Já. No palanque montado na praça discursaram pessoas importantes que queriam a volta da democracia ao País, como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Franco Montoro, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Miguel Arraes, Eduardo Suplicy, Teotônio Vilela, José Serra e a (atriz) Bete Mendes, que era deputada na época", contou. "Era uma euforia, as pessoas cantavam, parecia um grande festival. No final cantaram Peixe Vivo, além do Hino Nacional, que foi cantado pela Fafá de Belém."

Ato levou mais de 300 mil pessoas à Praça da Rodoviária no centro de Belo Horizonte em 24 de fevereiro de 1984
Ato levou mais de 300 mil pessoas à Praça da Rodoviária no centro de Belo Horizonte em 24 de fevereiro de 1984
Foto: Marcelo Prates / Divulgação

Do alto do prédio, Prates fotografou, no meio da multidão, os ônibus e as viaturas do batalhão de choque da Polícia Militar, que acompanharam o protesto com centenas de militares. Uma das fotos foi estampada na capa do jornal O Globo no dia 25 de janeiro de 1984: "Havia o medo de que a coisa perdesse o controle. Num tipo de manifestação dessa, com 300 mil pessoas, era de se presumir que houvesse algum desentendimento entre manifestantes e a força repressiva, mas não aconteceu. O ato foi feito numa ordem e numa consciência tão grande que o objetivo único e exclusivo daquele evento era o povo clamando o direito do voto. E (o ato) estava respaldado não só pelas 300 mil pessoas representando Belo Horizonte, como pelos políticos de peso que faziam parte do palanque," disse. "A gente via a ascenção do Tancredo Neves, eu sentia que o Tancredo podia chegar lá. O Ulysses Guimarães e o Brizola também. O Brizola era uma figura carismática, sensacional. Já o Lula era visto com um representante dos sindicatos, não imaginava, assim como o Fernando Henrique, que ele chegaria (à presidência)" continuou.

Prates recordou que apesar do comício da Praça da Rodoviária há 30 anos ter acontecido sem incidentes ou confrontos, não foi assim nas manifestações anteriores: "Antes houve as vigílias pelas Diretas, uma delas também na Praça Rio Branco. A polícia nessas agia com mais rigor. Tanto que teve uma foto que o soldado colocou a mão na frente da minha câmera quando eles andaram prendendo algumas pessoas, principalmente estudantes", lembrou. Os jornalistas, segundo ele, eram sempre alertados dos riscos de acompanhar a ação da polícia. "A gente recebia recados, era alertado para tomar cuidado. Avisavam para não ficar na linha de fogo cruzado, porque naquela época era bem definida a separação. Tinha o pelotão da polícia e o pelotão do protesto. Tomei muita cassetada. Tomei numa greve dos professores que fecharam o quarteirão na Praça Sete, começou o empurra-empurra, e aí os militares desceram o cassetete."

<a data-cke-saved-href="http://noticias.terra.com.br/infograficos/diretas-ja/" href="http://noticias.terra.com.br/infograficos/diretas-ja/">Diretas Já, 30 anos </a>

Naquele 24 de fevereiro, a democracia venceu. "As pessoas carregavam faixas e (vestiam) camisas Diretas Já. (Sindicatos) fizeram um monte de peças para divulgar para o povo o movimento. Estava explícito que o povo queria mudanças", explicou, citando que também havia na multidão personagens que se destacavam pela irreverência. "Teve o bicho da seda, o Super Homem, eram personagens bacanas que queriam dizer algo. Primeiro porque não escondiam o rosto. Todos mostravam a cara porque queriam que a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada e tivesse eleições Diretas para presidente", afirmou. "Eu me senti numa felicidade tão grande porque vi que a gente estava rumo à liberdade, rumo à democracia. E você ver um mar de gente gritando e cantando, com felicidade, foi um festival de clamor pelo voto, pela democracia, pela liberdade do País da tortura."

Com mais de 40 anos de carreira, fotógrafo Marcelo Prates acompanhou o ato
Com mais de 40 anos de carreira, fotógrafo Marcelo Prates acompanhou o ato
Foto: Ney Rubens / Especial para Terra

Além dos atos de perseguição e tortura, a ditadura militar se caracterizou também pela censura, e no jornalismo, recordou Prates, muitas vezes ela acontecia antes mesmo dos militares tomarem conhecimento do assunto, praticada pelos próprios editores, no caso de O Globo. "Eu tive várias fotos censuradas, que não foram publicadas no jornal, mas saíram em outros. Tanto durante o regime quanto depois. Por exemplo, houve uma foto de uma briga que teve em Cataguases com segurança do Fernando Collor de Mello, na campanha presidencial de 1989. O Collor estava fazendo um comício, o pessoal mais ao fundo começou a vaiar. Houve um tumulto entre os seguranças dele, que empurraram e agrediram o bolo de simpatizantes do PT. Só que no meio havia crianças e pessoas que não tinha nada a ver com a coisa. Fui fotografando tudo, e aí a foto que tinha um segurança protegendo outro segurança do Collor com a população com pedaços de pau em cima foi censurada pelo O Globo. Saiu em outros jornais, no O Globo não saiu. Isso aconteceu outras vezes", revelou Prates, dizendo que fica aliviado ao ver que a publicação admitiu, 30 anos após o fim do regime militar, ter errado ao omitir dos leitores fatos que aconteceram durante o período. "Antes tarde do que nunca. A coisa está mudando. É importante reconhecer o erro", considerou.

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Perigo
Marcelo Prates tem um filho que também trabalha como fotógrafo. Lucas Prates é colega do pai no jornal Hoje em Dia e, no ano passado, participou da cobertura das manifestações durante a Copa das Confederações. No protesto que levou 100 mil pessoas do centro de Belo Horizonte ao entorno do Mineirão, no dia da partida entre Brasil e Uruguai, fotografou os atos de vandalismo praticados por alguns manifestantes e o confronto com a Polícia Militar. Conhecedor dos perigos, Marcelo Prates vê um risco maior agora para os profissionais da imprensa do que há 30 anos.

"Por incrível que pareça, era mais tranquilo do que foi agora na Copa das Confederações, porque a imprensa naquela época era respeitada tanto pelos manifestantes quanto pela força de repressão. E como já estava quase no finalmente da ditadura, eu me lembro que neste dia o Tancredo Neves esteve no 12º Batalhão de Infantaria (do Exército) para falar para o comandante que o comício era uma manifestação pacífica, tanto que foi uma manifestação super pacífica. Não houve embate entre manifestantes e polícia," analisou.

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Prates disse ficar preocupado quando escala o filho para este tipo de cobertura. "Dá um aperto não somente pelo filho jornalista e fotógrafo, mas eu tenho outros seis filhos acima de 19 anos e fico muito apreensivo pelo momento que a gente está vivendo. Essas manifestações são pacíficas, o povo exigindo melhorias em vários setores da sociedade, infelizmente tem uma outra turma infiltrada que começa a fazer atos de vandalismo, coisas terríveis que culminaram com a morte do Santiago (Andrade, cinegrafista da Band morto no RJ). Aqui na Copa das Confederações nós vimos não somente manifestantes, mas vários profissionais de imprensa sendo atingidos de um lado e de outro. Hoje tenho mais medo de sair para cobrir um protesto do que naquela época, porque acho que as pessoas hoje não têm discernimento, e não estão nem aí para nada. Banalizaram a vida. Hoje muitos não têm objetivos, vão pelo bel prazer de praticar o vandalismo," reclamou.

Personagem
Na parte inferior da foto citada por Prates como a que estampou a capa do jornal O Globo no dia seguinte ao comício na avenida Afonso Pena há um homem de cabelos esvoaçados e bigode que vestia uma camiseta branca com a bandeira de Minas Gerais desenhada no peito. Era Aloísio Morais, editor-adjunto do jornal Hoje em Dia e diretor do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. Ele disse que provavelmente tem aquela camisa guardada até hoje: "Virou uma camisa histórica", afirmou.

Assim como o fotógrafo Marcelo Prates, Morais também trabalhava na época em O Globo, mas no dia, recordou, estava de folga. "Por coincidência participei de três grandes comícios das Diretas Já no início de 84. Em janeiro eu estava de férias com a minha mulher e estive no ato de Belém. Em fevereiro, houve o comício de Belo Horizonte e, em abril, o ato na Praça da Sé em São Paulo, que teve a presença de quase 1,5 milhão de pessoas. Na época eu cobria o Tancredo Neves e nesse fui a trabalho. O jornal me mandou para São Paulo e fiquei no palanque e acompanhei de perto, ao lado dele", recordou.

"Para participar as pessoas marcaram encontro em algum ponto e deste ponto de concentração partiram para a Praça Rui Branco (Praça da Rodoviária). Os jornalistas se concentraram no Sindicato dos Jornalistas, os médicos no sindicato deles e por aí vai. Foi um ato que mexeu com a população de Belo Horizonte porque havia o desejo de mudança. Era o momento em que a ditadura estava enfraquecendo, então o movimento pelas Diretas Já chegou em boa hora. Ele (o ato no centro de BH) veio e aglutinou as categorias de trabalhadores", avaliou.

Para Morais, o comício na Praça da Rodoviária serviu para confirmar a insatisfação da população com o regime militar. "As pessoas sentiam que o País passava por um bom momento e por isso aquele ato significava muita coisa. Que elas podiam desabafar, porque havia um luz no fim do túnel. A vontade de todos em participar daquela fase de mudança era muito grande. E aquele comício aconteceu num grande clima de alegria, não houve incidentes, quebra-quebra, foi super pacífico."

Fonte: Especial para Terra

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