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Aliado de Lira perdeu eleição municipal e devolveu trator

Máquina havia sido entregue pela Codevasf em Junqueiro, cidade do pai do presidente da Câmara

18 mai 2021 05h04
| atualizado às 07h22
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A três semanas da eleição de 2020, o então prefeito de Junqueiro, Carlos Augusto (MDB), anunciou a chegada de um trator agrícola e de uma retroescavadeira na cidade. Carlinhos, como é conhecido, concorria a novo mandato, apoiado pelo deputado Arthur Lira (Progressistas-AL). As máquinas foram entregues pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) à prefeitura do município, no agreste alagoano, onde nasceu Benedito de Lira, pai do deputado, hoje à frente da administração de Barra de São Miguel. A oposição, porém, venceu a disputa após 28 anos de domínio do grupo de Lira. Quando o novo prefeito Leandro Silva (PTB) assumiu, os bens doados já haviam sido devolvidos à Codevasf.

O imbróglio político em Junqueiro mostra como a politização da estatal já estava em curso, com recursos sendo dirigidos para a compra de tratores, moeda em alta no mercado de votos. Os equipamentos chegaram à cidade em outubro e são de verbas anteriores ao lote do orçamento secreto, revelado pelo Estadão. O artifício foi criado no fim do ano passado pelo presidente Jair Bolsonaro para conseguir apoio do Congresso.

Bolsonaro foi o presidente que mais expandiu a Codevasf, a chamada estatal do Centrão. Lira usou parte da sua "cota" para a aquisição de trator. O atual presidente da Câmara foi um dos parlamentares que mais puderam impor o destino do dinheiro do Ministério do Desenvolvimento Regional. Ao todo, ele direcionou R$ 114,6 milhões para obras, compras de tratores e máquinas pesadas, segundo a planilha secreta do governo.

Maquinário adquirido com recursos atribuídos ao presidente da Câmara, Arthur Lira, foi anunciado em Junqueiro pelo prefeito, mas depois devolvido
Maquinário adquirido com recursos atribuídos ao presidente da Câmara, Arthur Lira, foi anunciado em Junqueiro pelo prefeito, mas depois devolvido
Foto: Carlos Augusto / Twitter / Estadão

Lira precisaria de quase quatro mandatos de deputado para obter esse volume de recursos apenas com suas emendas parlamentares. O deputado controla a Codevasf ao lado de outros políticos do Centrão e do ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Da cota de Lira no orçamento secreto foram repassados recursos para órgãos vinculados ao Ministério do Desenvolvimento Regional, como a Codevasf (R$ 70 milhões) e o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (R$ 30 milhões). A previsão da verba enviada pelo presidente da Câmara indica que o Dnocs comprará 44 tratores agrícolas a preços superiores a R$ 100 mil, valor definido na tabela de referência do governo.

A história de Junqueiro envolve a Codevasf. Ao assumir o mandato de prefeito, Leandro Silva (PTB) quis as máquinas de volta. Em 8 de janeiro, a Secretaria de Administração e Recursos Humanos enviou ofício à Codevasf para afirmar que seu antecessor havia despachado os "itens" de volta, mesmo sabendo da necessidade do município. A empresa ainda não deu uma resposta, mas alega que o maquinário foi devolvido dias antes da disputa eleitoral.

Primo

A 5ª Superintendência Regional da Codevasf, baseada em Penedo, é comandada por um primo de Arthur Lira. Trata-se de Joãozinho Pereira, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Teotônio Vilela. Na campanha, o então prefeito Carlos Augusto usou frases de apoio de Joãozinho Pereira, apadrinhado por Lira na Codevasf. "Você pode até não gostar dele, mas não tem o que falar dele, não. Carlinhos chora, tem sentimento. Isso é diferente", afirmou Pereira no pedido de votos.

A poucos dias da eleição, Lira esteve em Junqueiro e pediu votos para o aliado. Na ocasião, ele mencionou a chegada de tratores para o município. "É para cuidar de botar trator para gradear a terra do pequeno produtor, é para cuidar da agricultura familiar. A prefeitura tem que cuidar de quem precisa. Quem não precisa sai da frente. Fica de lado um pouquinho, e vota no Carlinhos", disse o deputado, muito aplaudido. "A gente sente no povo de Junqueiro a animação, a vontade, a garra, a necessidade de dizer: eu vou continuar no caminho certo, eu estou no caminho correto, eu estou no caminho do bem".

Mas nem o apoio de Lira, do superintendente da estatal, do senador Fernando Collor (PROS), do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), e a publicidade das máquinas garantiram a reeleição de Carlinhos.

Diante do impasse, o novo prefeito acionou o Ministério Público em Alagoas. No início de abril, um promotor de Justiça abriu inquérito civil para investigar o caso. As suspeitas são de desvio de finalidade na devolução das máquinas à Codevasf e prejuízo aos cofres públicos. Se elas forem confirmadas, o MP pode apresentar ação civil de improbidade administrativa.

O secretário municipal de Administração e Recursos Humanos de Junqueiro, Max Alan de Barros Marques, disse que não havia qualquer justificativa para as máquinas deixarem a prefeitura. "Foi uma doação de última hora para a captação de votos. Eles gravaram um vídeo quando receberam e de repente, quando o outro prefeito ganhou a eleição, devolveram as máquinas", disse Marques. "Foi pura e simplesmente raiva do povo, porque perderam a eleição."

Questionada desde abril pela reportagem, a Codevasf ainda não informou se devolverá as máquinas à prefeitura. "A Companhia está em processo de análise do pleito e de verificação de aptidão da prefeitura, para deliberação em aproximadamente 15 dias", disse a assessoria de imprensa da estatal, nesta segunda-feira, 10.

A reportagem procurou a assessoria de Arthur Lira para comentar o caso. Perguntou especialmente sobre a devolução das máquinas pelo ex-prefeito de Junqueiro à Codevasf e se o parlamentar concorda com a volta dessas máquinas para o município. A assessoria disse que ele não iria comentar.

Estadão
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