PMs do Rio ocupam morro do Andaraí para instalar UPP
Seis dias após a inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Complexo do Borel, Tijuca, 80 homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) ocuparam, na sexta-feira, o morro do Andaraí e seis favelas vizinhas. Não houve tiroteio. A novidade para os próximos 40 dias de ação na comunidade é um micro-ônibus de tecnologia israelense, com cinco câmeras capazes de flagrar com nitidez a movimentação a 2 km e aproximar a imagem 36 vezes.
Legado dos Jogos Pan-Americanos, o veículo foi usado pela primeira vez numa operação em favelas. A câmera principal, instalada numa torre ótica no alto do carro, gira 360º e grava as cenas definidas pelos policiais, que acompanham tudo por computadores. O ônibus ficará posicionado no alto do morro da Divinéia, no Grajaú, também ocupado, de onde é possível avistar o morro dos Macacos, em Vila Isabel.
"O micro-ônibus passava por adaptações, mas agora é possível usá-lo para potencializar a vigilância, já que o terreno é bastante entrecortado e há grande área de mata. Essa região era usada como um corredor para traficantes do morro São João, Complexo do Lins e Jacarezinho", afirmou o comandante do Bope, tenente-coronel Paulo Henrique de Moraes.
Cerca de 10 mil pessoas moram nas favelas do Andaraí, onde haverá 290 homens na futura UPP. O secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, anunciou que o morro da Formiga, onde já atuam policiais da pacificação do Borel, ganhará uma UPP no mês que vem.
Alívio para quem vivia sob o terror
Morador do morro da Divinéia, um autônomo que preferiu não se identificar chegou pequeno à comunidade. Cresceu sob o terror das armas e preferiu criar a filha dentro de casa. Ontem, ele passou satisfeito pelos PMs, que instalavam um centro de comando onde hoje vão hastear bandeiras do Brasil e do Bope. "Agora, minha filha vai poder brincar na rua, coisa que nunca fez".
Ainda na sexta, o PMs recuperaram um Ford Ka roubado há três semanas na rua Senador Nabuco, Vila Isabel. O carro estava abandonado na Divinéia, sem o rádio e o estepe. Avisado pela polícia, um médico de 54 anos, pai da proprietária do veículo, foi à favela buscar o automóvel.
"Minha filha ia estacionar em frente à casa da avó, quando um homem armado mandou ela sair e deixar o carro ligado. Ele só queria fugir dali e, graças a Deus, não fez nenhum mal maior. Espero que a UPP aqui em cima diminua os assaltos lá embaixo", afirmou o médico, que mora em Vila Isabel e acordou com o barulho de tiros entre policiais civis e traficantes do morro dos Macacos, que deverá ser uma das próximas favelas ocupadas.
Temor vira comemoração
A gerente de negócios Denise Cordeiro, 43 anos, acordou com a notícia da ocupação. Ainda de pijama, ela chegou à varanda de seu apartamento, na rua Caçapava, com receio de que pudesse ser outro dia de operação. Até descobrir que a UPP estava chegando. E comemorou.
"Rezei muito para que a pacificação chegasse aqui. Oito dias depois de comprar o apartamento, houve um tiroteio e cheguei a arrumar minhas coisas para ir embora. Só quem mora perto tem noção do que é uma noite de tiroteio", disse Denise.
Tempos depois, uma bala perfurou sua janela. Os estilhaços feriram o pé da filha mais velha, então com 7 anos. "A menina ficou traumatizada e, a cada tiroteio, todos passamos a nos esconder na cozinha¿, afirmou ela, que já viu dois PMs serem mortos na rua.