PF diz que resultado de operação em SP 'não foi satisfatório'
O delegado responsável pela operação que desarticulou uma quadrilha de traficantes em Bocaina, no interior de São Paulo, Ênio Bianospino, admitiu nesta quinta-feira que a ação não alcançou o resultado esperado. Durante rápida entrevista coletiva à imprensa, na delegacia da Polícia Federal em Bauru, ele lamentou a morte do agente Fábio Ricardo Paiva Luciano, 38 anos.
“Lamentamos muito o resultado que, pra nós, não foi satisfatório. Foi uma ocorrência que nos entristeceu demais. Nossa profissão é de risco e infelizmente essas coisas eventualmente aconteceram, acontecem e vão voltar a acontecer. Mas é importante que saibam que a Policia Federal jamais vai deixar uma situação com essa sem respostas”, disse o delegado.
Cinco pessoas foram presas até o momento. Entre elas está o piloto da aeronave, dois homens que participaram diretamente do confronto com os agentes federais e dois que prestavam assistência aos criminosos. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados pela PF.
“A droga foi provavelmente queimada quando o avião se incendiou. O que nós conhecemos é da rotina do tráfico de drogas, e o que a aeronave do tipo Cessna, modelo 210, tem condições de transportar, estima-se que a média seja entre 400 e 500 quilogramas”, explica o delegado.
De acordo com ele, não há produção de cocaína no Brasil. A droga que chega ao País é trazida de países vizinhos. “O Brasil era antes apenas grande corredor para exportação de cocaína para a Europa e para os Estados Unidos, mas agora, infelizmente, tem se tornado um grande consumidor”, avalia.
Bianospino explica ainda que as quadrilhas costumam transportar diversas formas de cocaína e a mais frequente é a pasta-base, que pode receber aditivos químicos para haja um aumento da quantidade, dando maior lucratividade ao crime organizado.
Ele negou que a aeronave usada pelos traficantes tenha sido abatida pelos federais. Segundo o delegado, ainda não é possível saber se os disparos efetuados pelos policiais realmente atingiram o avião.
Bianospino explica que a aeronave chegou a pousar, mas quando os policiais que aguardavam a aterrissagem em meio ao canavial se aproximaram do avião, o piloto tentou fugir.
“Só que a pista que ele tinha pela frente era muito curta, então ele fez o levantamento de voo, atravessou a rodovia Comandante João Ribeiro de Barros e acabou caindo logo em seguida, cerca de 200 metros depois. O motivo da queda foi a falta de condições para uma boa decolagem”, explicou. Com a queda o avião pegou fogo, mas o piloto conseguiu escapar. Ainda não se sabe quantos traficantes estavam no local.
O Sindicato dos Servidores da Polícia Federal em São Paulo (Sindpolf-SP) afirmou, em nota, que a delegacia da PF em Bauru (SP) teria solicitado à superintendência da PF em Brasília equipamentos de visão noturna para serem usados durante a operação. Mas Ênio Bianospino negou que houvesse a necessidade e que tenha havido o pedido, já que a delegacia local também dispõe dos mesmos equipamentos.
De acordo com a PF, o crime organizado tem se aproveitado de pistas rurais como a de Bocaina, que são pouco utilizadas, para fazer pousos e entregar drogas. Os criminosos se prevaleceriam da aleatoriedade da utilização dessas pistas para tentar driblar a fiscalização.
O delegado chefe da Polícia Federal, Carlos Alberto Fazzio Costa, que também participou da coletiva, fez questão de ressaltar que o agente morto durante o embate com os criminosos era dedicado e apaixonado pela profissão.
Sepultamento
Inúmeras pessoas estiveram durante todo o dia no velório para prestar as últimas homenagens ao policial federal Fábio Ricardo Paiva Luciano. O sepultamento foi realizado na tarde desta quinta-feira, no Cemitério da Saudade, em Bauru (SP), sob intensa salva de palmas.
Colegas de trabalho, amigos, familiares, além de delegados da Polícia Civil e policiais militares acompanharam o sepultamento. O diretor geral da PF também esteve em Bauru. Na sede da PF, bandeiras a meio mastro indicavam o luto.
Natural de Bauru, Fábio era formado em Direto e trabalhava na Polícia Federal há seis anos. Ele havia trabalhado na capital paulista, mas havia conseguido transferir-se para a terra natal há cerca de um ano. O policial era casado e tinha um enteado de 18 anos.
Operação policial termina com policial morto e avião derrubado
Na noite de quarta-feira, policiais federais das delegacias de Bauru e Araraquara realizaram uma operação para montar um cerco a suspeitos de integrar uma quadrilha de tráfico de drogas em Bocaina. Os agentes aguardavam em campana pela aterrissagem de uma aeronave de pequeno porte em uma pista clandestina localizada em meio a um canavial às margens do km 136 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-255).
Com a aproximação do avião, integrantes da quadrilha que aguardavam a entrega de drogas e armamento em solo perceberam a presença dos policiais e começaram a atirar. Antes de tocar o solo, a aeronave foi alvejada por disparos feitos pelos federais. Em meio ao canavial, o avião pegou fogo, gerando um imenso clarão.
Durante a troca de tiros, o policial federal Fábio Ricardo Paiva Luciano foi baleado no peito e chegou a ser socorrido, mas morreu ao dar entrada na Santa Casa de Jaú, município vizinho a Bocaina. O policial morto durante a operação trabalhava em Bauru, distante 84 km de Bocaina, onde residia há apenas um ano vindo da capital paulista.
Há informações de que, entre as armas usadas pela quadrilha, haveria fuzis AR-15. A PF não confirmou, mas há informação de que um novo tiroteio entre policiais e traficantes ocorreu no início da manhã desta quinta-feira.
Pelo menos quatro suspeitos de participarem da quadrilha foram presos nesta quinta-feira. Durante a madrugada, o homem que seria o piloto da aeronave foi preso pela PF. Já na manhã desta quinta-feira, a Polícia Rodoviária de Jaú, município vizinho a Bocaina, prendeu outros três integrantes da quadrilha que estavam escondidos em um canavial próximo ao local onde a aeronave foi derrubada.