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Polícia

Morador: "vi a criança agonizando e a mãe correndo em chamas pela rua"

Morador de bairro onde ônibus foi atacado perto de São Luís (MA) conta que ajudou a socorrer vítimas de ataque a ônibus com lama da rua

15 jan 2014 - 09h00
(atualizado às 11h59)
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Em frente ao cruzamento onde um ônibus foi queimado há pouco menos de duas semanas, o rapaz olha para a poça de água – tão turva que mais se assemelha a lama – e crava: "foi dali que eu peguei líquido para apagar o fogo dos pneus do veículo."

O nome dele é José Carlos Cardoso da Silva, 38 anos. Trabalha como segurança em um bar de São Luís, mora na Vila Sarney Filho e foi um dos primeiros a ajudar mãe e filhas queimadas na ação de criminosos que atacaram o ônibus na noite do último dia 3. Juliane Juliane Carvalho Santos, 22, e a filha Lorrane, de um ano e sete meses, estão internadas. A filha Ana Clara, de seis anos, não resistiu.

“Saí de casa e vi a criança quase agonizando e a mãe dela, correndo pelas ruas, pedindo socorro, com o corpo em chamas”, relatou.

Leia, abaixo, o depoimento de Silva ao Terra:

“Eu estava em casa naquele dia – era uma sexta-feira, perto das sete e meia da noite. Ouvi um barulho de ônibus freando e de repente gritos de ´Fogo! Fogo!’. Corri para checar o que era e vi o veículo em chamas.

Cheguei mais perto e vi a criança quase agonizando e a mãe dela, correndo pelas ruas, pedindo socorro, com o corpo em chamas. A gente não esquece nunca mais uma visão dessas, moça.

Resolvi ajudar pegando água numa poça formada ali no asfalto (num buraco aberto na rua) e comecei a jogar no pneu, já tinha gente cuidando das crianças. É muita violência. Mas acho que, se tivesse sido comigo, eu matava um a um que fez isso.

Sei que posso fazer o que for, que aqueles gritos ainda vão ecoar na minha cabeça por um bom tempo. Mas não vou mudar minha rotina por isso. Só tomo mais cuidado porque, desde então, sinto a todo momento que é como se eu estivesse sendo vigiado.”

Violência no Maranhão

O Estado do Maranhão enfrenta uma crise dentro e fora do sistema carcerário que tem como principal foco o Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, 59 detentos foram mortos no presídio somente em 2013, o que revelou uma falta de controle no local.

No dia 3 de janeiro, uma onda de ataques a ônibus em São Luís mobilizou a Polícia Militar nas ruas da capital maranhense e dentro do presídio, já que as investigações apontam que as ordens dos atentados partiram de Pedrinhas.

Nos ataques do dia 3, quatro ônibus foram incendiados e cinco pessoas ficaram feridas, incluindo a menina Ana Clara Santos Sousa, 6 anos, que morreu no hospital alguns dias depois, com 95% do corpo queimado.

A questão dos problemas no sistema prisional maranhense ganhou mais destaque no dia 7 de janeiro, quando o jornal Folha de S. Paulo divulgou um vídeo gravado em dezembro, onde presos celebram as mortes de rivais dentro do complexos. Após essas imagem de presos decapitados serem divulgadas, o governo Roseana Sarney passou a ser pressionado pela Organização das Nações Unidas, pela Anistia Internacional, pelo CNJ e até pela Presidência da República.

No dia 10 de janeiro, a presidente Dilma Rousseff divulgou pelo Twitter que “acompanha com atenção” a questão de segurança no Maranhão. O Governo Federal passou a oferecer vagas em presídios federais, ao mesmo tempo em que a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) visitou o complexo de Pedrinhas.

No dia 14 de janeiro, um grupo de advogados militantes na defesa dos direitos humanos protocolou na Assembleia Legislativa do Maranhão um pedido de impeachment contra a governadora Roseana Sarney. Segundo o grupo, composto por nove advogados de São Paulo e três do Maranhão, a governadora incorreu em crime de responsabilidade porque não teria tomado providências capazes de impedir a onda de violência que deixou mortos e feridos dentro e fora do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, desde o início do ano.

Fonte: Terra
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