Delator: contratos de autarquia em Campinas eram todos fraudados
- Rose Mary de Souza
- Direto de Campinas
Em mais de duas horas de depoimento nesta terça-feira, o ex-presidente da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A. de Campinas (Sanasa) Luiz Augusto Castrillon de Aquino afirmou que todos os contratos de serviços firmados entre a autarquia e empresas terceirizadas durante a sua gestão (2005 a 2008) tiveram os editais direcionados para um vencedor previamente acertado. "As reunião aconteciam em hotéis, cafés, restaurantes e no escritório de um publicitário", disse.
"Na primeira vez, foi negociado a execução de obras antes de um edital. Já estava tudo acertado. Saí com uma pasta preta com R$ 140 mil em dinheiro vivo para viabilizar o negócio com a Hydrax (empresa investigada pelo Ministério Público). Foi em meados de 2005", disse Aquino. "Depois, me deram dois carros: uma Cheroqui e um Golf. Com o passar do tempo, foram ficando gananciosos e queriam cada vez mais e mais contratos", afirmou.
De acordo com ele, houve divergências entre os membros do grupo em três ocasiões. "Da primeira vez eu queria romper e não tive coragem. Depois, após uma reunião no escritório de Dudu Godoi (publicitário, também arrolado no processo do MP), eu cedi de novo e, no final, a situação já estava desgastada". Segundo o ex-presidente, a gota d'água foi em 11 de junho de 2008, quando pessoas vestidas com roupas da Polícia Federal entraram em sua residência. "Eles sabiam que eu tinha dinheiro das fraudes em casa. Ameaçaram minha família e levaram uma quantia em dinheiro, joias, e objetos de valor. Dei queixa na polícia e decidi me afastar da empresa".
Encontros gravados
Segundo Aquino, as conversas durante os encontros com os lobistas eram gravadas sem que ele soubesse. "Fiquei sabendo um pouco antes de deixar a Sanasa, as cópias das conversas eram levadas para a doutora Rosely (primeira-dama e ex-chefe de gabinete Rosely Nassin Jorge Santos, acusada pelo MP como responsável pelo esquema de recebimento do dinheiro). Outra cópia era levada para o escritório do PT. O (vice-prefeito campinense Demétrio) Vilagra teve acesso e sabia do que acontecia".
"Depois que fiquei sabendo que as conversas eram gravadas por eles imaginei que fosse receber ameaças, ser extorquido. Um dia, depositaram R$ 100 mil na minha conta. Eu resolvi devolver o valor para o banco", disse Aquino. "Chegou um momento em que eu me sentia constrangido quando deveria fazer mais contratos. Eles queriam mais. Era um tormento".
"As porcentagem dos contratos eram de cerca de 10%. Os valores dos contratos de obras eram levados para a doutora Rosely. Os contratos de serviços eram divididos entre eu, o Cance (Aurelio Cance Júnior, ex-diretor da Sanasa, também investigado pelo MP) e Figueiredo (Marcelo Figueiredo, ex-diretor da Sanasa, investigado pelo MP)".
O dinheiro destinado a doutora Rosely era entregue em três endereços, segundo Aquino. "No quarto andar da prefeitura, na residência dela no condomínio perto do shopping, ou na Ferreira Leitão, sede da transportadora dela. Ela gostava de receber tudo de uma vez", disse. Pouco antes de deixar a pasta, Aquino começou a andar com seguranças.
O caso
Em setembro de 2010, o Gaeco anunciava que estava investigando, além da autarquia em Campinas, empresas ligadas a outras dez prefeituras do Estado de São Paulo, Minas Gerais e Tocatins-MT que apresentavam indicios de fraudes em contratos publicos. Segundo o Gaeco o prejuízo era de R$ 615 milhões.
Em 20 de maio deste ano, a Justiça expediu 20 mandados de prisão temporária para os envolvidos no esquema. Os pedidos eram resultado da delação premiada de Aquino, que apontou quais seriam os contratos irregulares e listou sete empresas integrantes de corrupção e lavagem de dinheiro na administração do prefeito de Campinas, Hélio de Oliveira Santos (PDT). Segundo o MP, eram desviados de 5% a 7% do valor total das licitações.
Entre os acusados investigados pelo MP estão a primeira-dama e ex-secretária chefe de Gabinete, Rosely Nassim Jorge Santos e o vice-prefeito, Demétrio Vilagra (PT), além de ex-secretarios e donos de empresas prestadoras de serviços de limpeza e vigilância.
As prisões e acusações culminaram em uma forte crise na administração municipal. No início de junho, a primeira-dama pediu exoneração do cargo. No dia 15 de junho, a Câmara de Vereadores chegou a votar o afastamento do prefeito Hélio de Oliveira, mas os 16 votos a favor não alcançaram os dois terços necessários.
Todos os mencionados por Aquino foram presos preventivamente e depois soltos por habeas-corpus ou revogação de prisão. A primeira-dama Rosely teve a prisão decretada, mas não chegou a ser presa por estar em local ignorado e se beneficiou por um habeas-corpus.
Os suspeitos negam as acusações de fraude. Em maio, o prefeito Helio de Oliveira Santos (PDT) negou que soubesse de irregularidades em seu governo. "Não tinha conhecimento da denúncia. Se tivesse, teria mandado fazer auditoria e sindicância", disse. Para ele, há uso político das denúncias. O Terra tentou entrar em contato com o PT de Campinas para comentar o depoimento de Aquino, mas não obteve retorno.