Crise no STF: entenda cronologia do conflito institucional e embate entre Moraes e Mendonça
Disputa interna envolve relatórios da Polícia Federal, o caso Banco Master e decisões da presidência do tribunal
Conflito no STF entre Alexandre de Moraes e André Mendonça envolve troca de acusações sobre condutas nos casos Banco Master e Operação Compliance Zero, com desdobramentos políticos e investigações em curso sob gestão de Edson Fachin.
O Supremo Tribunal Federal (STF) registra um conflito institucional, intensificado sobretudo por um embate entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. O impasse teve início após a retirada do sigilo de mensagens entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, seguida de um pedido de investigação apresentado contra o relator do caso Banco Master.
O episódio expôs divisões internas na Corte e motivou despachos do presidente do tribunal, Edson Fachin, que fixou prazos para manifestações formais dos magistrados, da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal.
E nesta terça-feira, 8, o Ministro André Mendonça pediu o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e de Leandro Almada da Costa, Diretor de Inteligência Policial da instituição.
Como começou a apuração sobre o Banco Master no Tribunal?
A condução dos processos ligados ao Banco Master estava sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, que deixou o caso em fevereiro. A redistribuição do caso ocorreu após a Polícia Federal entregar ao presidente do Tribunal, Edson Fachin, um relatório com registros de ao menos dez encontros presenciais entre Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro entre 2023 e 2024.
A apuração apontou ainda vínculos de familiares de Dias Toffoli com pessoas ligadas à instituição financeira por meio da venda de participação societária no resort Tayaya ao fundo Arleen, ligado ao empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Com a saída de Toffoli, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria das investigações no STF.
Quais mensagens motivaram o conflito entre os ministros?
No dia 1º de setembro, o ministro André Mendonça levantou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reuniu 51 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes. As mensagens foram extraídas do celular do banqueiro, apreendido na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025.
Os registros indicam que o banqueiro pediu a intermediação de Moraes junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, antes de sua prisão em novembro de 2025. O material reúne apenas as mensagens enviadas por Vorcaro em formato de captura de tela de visualização única, sem o registro das respostas do magistrado.
O contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, segundo a Polícia Federal.
Qual foi a reação de Alexandre de Moraes contra André Mendonça?
No dia 3 de setembro, Alexandre de Moraes enviou uma petição de 20 páginas ao presidente Edson Fachin pedindo a abertura de investigação contra André Mendonça. Moraes utilizou o Inquérito das Fake News (Inquérito 4.781), aberto em março de 2019, para apontar suposta quebra de imparcialidade, usurpação de funções policiais e direcionamento de investigações por motivações pessoais.
O documento apresentado por Moraes sustenta que Mendonça comprometeu a cadeia de custódia das provas nas operações Sem Desconto e Compliance Zero e direcionou apurações contra o próprio ministro e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Como o presidente Edson Fachin conduziu os pedidos?
O presidente do STF, Edson Fachin, determinou prazo de cinco dias úteis para que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o então diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues — que depois seria afastado —, prestem esclarecimentos formais sobre os fatos relatados.
No dia 4 de setembro, Edson Fachin determinou a retirada da representação apresentada por Moraes do âmbito do Inquérito das Fake News, transferindo a análise para uma petição autônoma instaurada na presidência da Corte.
Por que Andrei Rodrigues foi afastado da Polícia Federal?
Nesta terça-feira, 8, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e de Leandro Almada da Costa, Diretor de Inteligência Policial da instituição. Eles são suspeitos de produzirem relatórios de inteligência que monitoravam autoridades sem que elas soubessem.
De acordo com o ministro, ele próprio era monitorado. "Trata-se de monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do País, o que por si só revela a gravidade da situação", escreveu.
Ele também afirmou que o ministro Alexandre de Moraes teria tido "notícias da existência" de tais relatórios de monitoramento.
"Isso significa que, ademais da produção ilícita dos 'documentos', foi dada ciência das suas existências a outro Ministro para que este subscritor fosse incluído no Inquérito das Fake News. Registro que o encaminhamento do material correspondente foi feito pelo senhor Andrei Rodrigues, conforme ofício subscrito às 18h45 do dia 01/09/2026", escreveu Mendonça.
Quais foram os desdobramentos políticos do caso?
O caso tem gerado manifestações no Congresso Nacional e no Poder Executivo. Integrantes da oposição, como os senadores Rogério Marinho e Carlos Viana, criticaram a atuação de Moraes e defenderam a condução de Mendonça, enquanto parlamentares governistas concentraram manifestações na origem das operações financeiras do Banco Master.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que as apurações devem ocorrer sem blindagens institucionais e defendeu debates sobre alterações estruturais no Poder Judiciário.
Por que a relação entre Vorcaro e Bolsonaro voltou a ser falada?
Também em setembro, deputados de PT, PCdoB, PSOL e Rede pediram ao presidente do STF, Edson Fachin, que retire o sigilo das investigações sobre o filme "Dark Horse". A cinebiografia sobre Jair Bolsonaro recebeu recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teria combinado R$ 134 milhões para a produção, com ao menos R$ 61 milhões pagos.
Os parlamentares questionam o tratamento dado pelo relator André Mendonça ao caso e apontam diferenças em relação a investigações envolvendo Alexandre de Moraes e Jaques Wagner. O pedido também cobra explicações sobre um encontro reservado entre Mendonça e Vorcaro, ocorrido em março de 2025, em São Paulo.
A iniciativa foi protocolada um dia após Mendonça retirar o sigilo de uma investigação da PF sobre contratos entre Vorcaro, Moraes e a advogada Viviane Barci de Moraes.
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