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Com jogral, colegas homenageiam cinegrafista morto em protesto no Rio

"O mundo se tornou um lugar muito pior sem Santiago Ilídio Andrade", escreveram funcionários da Rede Bandeirantes na despedida ao cinegrafista

13 fev 2014
11h55
atualizado às 12h05
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Funcionários da Rede Bandeirantes que trabalharam com o cinegrafista Santiago Andrade, morto depois de ser atingido por um rojão na cobertura de um protesto no Rio de Janeiro, se despediram dele no velório realizado na manhã desta quinta-feira. Emocionados, colegas de Santi, como ele era chamado, leram uma carta em formato de jogral. Intercalando partes individuais e coletivas, eles recitaram palavras sobre a rotina do cinegrafista, sua personalidade e como estão lidando com a perda.

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Em carta lida no velório, colegas de Santiago homenagearam o cinegrafista morto no Rio
Foto: Andre Naddeo / Terra

"Agradecemos à família Andrade por ter aceitado dividir conosco esse cara maravilhoso", disseram os colegas durante o velório. "Todo dia a mesma rotina. Chegava... se benzia antes de entrar na redação e cumprimentava um a um", descreveram eles, lamentando a morte. Na carta, os funcionários contaram como Santiago tinha amor à profissão e tratava com carinho os colegas de trabalho.

"Tem uma legião de jovens, e não tão jovens jornalistas, sem chão. Era padrinho desta galera, para alguns um paizão. E fazia questão de ser. Sem nenhuma vaidade, com uma humildade desconcertante."

O corpo de Santiago Andrade será cremado no Memorial do Carmo, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro. Os órgãos do cinegrafista foram doados. A família informou que esse era o desejo dele. Antes da cerimônia, a mulher de Santiago disse que "sente pena" dos suspeitos pela morte do marido, enquanto a filha afirmou que não vai deixar a história dele morrer. Na despedida, os colegas mostraram tristeza por não terem ouvido dele um último "adeus".

"Amor mesmo... amor que estava presente no dia a dia da redação, na rua... ou na cervejinha do fim do dia. No beijo carinhoso que dava na gente no início ou no fim da jornada. Porque não ia embora sem se despedir... agora foi. E a gente não conseguiu entender o porquê. Não se despediu. Foi tão rápido. Tão injusto. Não deu tempo."

Atingido em protesto, cinegrafista tem morte cerebral
Santiago foi atingido na cabeça por um rojão durante a cobertura de um protesto contra o aumento das passagens de ônibus no Centro do Rio de Janeiro, no dia 6 de fevereiro. Além dele, outras seis pessoas ficaram feridas na mesma manifestação.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, o cinegrafista chegou em coma ao hospital municipal Souza Aguiar. Ele sofreu afundamento do crânio, perdeu parte da orelha esquerda e passou por cirurgia no setor de neurologia. A morte encefálica foi informada pela secretaria no início da tarde de 10 de fevereiro, após ser diagnosticada pela equipe de neurocirurgia do hospital onde ele estava internado no Centro de Terapia Intensiva.

Ele pediu pra não ir, diz colega do cinegrafista Santiago sobre dia do protesto

O tatuador Fábio Raposo confessou à polícia ter participado da explosão do rojão que atingiu Santiago. Ele foi preso na manhã de domingo em cumprimento a um mandado de prisão temporária expedido pela Justiça. O delegado Maurício Luciano, titular da 17ª Delegacia de Polícia (São Cristóvão) e responsável pelas investigações, disse que Fábio já foi indiciado por tentativa de homicídio qualificado e crime de explosão e que a pena pode chegar a 35 anos de reclusão.

Raposo ajudou a polícia a reconhecer um segundo responsável pelo disparo do artefato que causou a morte do cinegrafista. O tatuador, preso no Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio de Janeiro, afirmou, de acordo com o relato do delegado, que “eles se encontravam em manifestações" e que "esse rapaz tem perfil violento”.

“Momento mais difícil que tive na carreira foi anunciar morte de Santiago”

A Polícia Civil do Rio de Janeiro divulgou, na manhã do dia 11, uma foto do suspeito de ter acendido o rojão que atingiu Santiago Andrade. Caio Silva de Souza, 23 anos, tem duas passagens pela polícia e era considerado foragido desde que foi expedido um mandado de prisão temporária em seu nome. Fábio Raposo, que passou o rojão, reconheceu o autor do disparo a partir da imagem levada pelo delegado.

Procurado por homicídio doloso qualificado – quando há intenção de matar – por uso de artefato explosivo e pelo crime de explosão, o suspeito foi preso na madrugada de 12 de fevereiro em uma pousada na cidade de Feira de Santana, na Bahia. De acordo com o advogado Jonas Tadeu Nunes, que também defende Fábio Raposo, Caio Silva de Souza seguia em direção ao Ceará, para a casa de um avô, mas foi convencido a se entregar. Ele não reagiu ao ser preso.

Fonte: Terra
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