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Parentes de vítimas da ditadura discutem violência do regime

Em relatos emocionados, filhos e netos contam histórias sobre os ex-militantes e cobram elucidação de fatos ainda não investigados

6 dez 2014 - 20h47
(atualizado em 6/12/2014 às 11h06)
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<p>Márcia Curi Vaz Galvão, filha do ex-sargento do Exército Araken Vaz Galvão, que desertou para lutar contra o golpe de 1964</p><p> </p>
Márcia Curi Vaz Galvão, filha do ex-sargento do Exército Araken Vaz Galvão, que desertou para lutar contra o golpe de 1964
Foto: Juliana Prado / Especial para Terra

“Poder estar aqui hoje falando da nossa história, do buraco que ficou nesta história, é quase uma permissão para existir”. A declaração emocionada de Márcia Curi Vaz Galvão resume o clima que marcou a reunião do Grupo de Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça, formado por parentes dos presos pela ditadura, que aconteceu nesta sexta-feira, na UERJ, no bairro do Maracanã.

Filha do ex-sargento do Exército Araken Vaz Galvão, que desertou para lutar contra o golpe de 1964, Márcia e outras dezenas de parentes de ex-militantes de esquerda se reuniram para registrar histórias, dramas e as dores de um passado em grande parte ainda não “resolvido”. “Nós nos silenciamos ou fomos silenciados. Isso nos adoeceu por décadas. Falar ajuda, mas não cura. Falar e ser ouvido também ajuda. Mas ainda falta. O importante é deixar de ser um e sermos nós”, declarou.

<p>Lúcia Alves mostra a foto do pai, Mário Alves, ex-dirigente do PCBR, durante evento realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro</p>
Lúcia Alves mostra a foto do pai, Mário Alves, ex-dirigente do PCBR, durante evento realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Foto: Juliana Prado / Especial para Terra

O encontro, promovido pela UERJ, pelo grupo Clínicas de Tratamento e pela Comissão Estadual da Verdade, buscou dar voz aos parentes dos perseguidos pelo regime militar e elucidar vários pontos da história recente do Brasil ainda nebulosos.

O presidente da Comissão Estadual da Verdade, Wadih Damous, destacou que, mesmo não tendo sofrido diretamente nas mãos das forças de repressão, as gerações seguintes carregam as consequências e danos: “Eles guardam a herança, o sentimento, a dor que atingiu seus ascendentes. Estamos aqui hoje contando mais um aspecto da história da ditadura ainda não conhecido, como tantos outros”.

O grupo mostra um sentimento comum: a perplexidade, mesmo após décadas, pelas prisões violentas, pela tortura, pelas mortes não explicadas e, em muitos casos, pelo desaparecimento de corpos. Apesar disso, o sentimento é de um certo alívio.

<p>Leonardo Vieira Alves, neto do ex-dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, Mário Alves, que desapareceu depois de ser levado ao Doi Codi, no Rio</p>
Leonardo Vieira Alves, neto do ex-dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, Mário Alves, que desapareceu depois de ser levado ao Doi Codi, no Rio
Foto: Juliana Prado / Especial para Terra

“Criar o grupo de filhos e netos (dos presos políticos) é uma forma de reatar fios soltos. Isso nos liberta. Os testemunhos têm um valor imenso. Com eles, o Estado finalmente nos ouve”, declarou o músico Leonardo Vieira Alves, neto do ex-dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Mário Alves, que desapareceu depois de ser levado para as instalações do Doi Codi, no Rio, em 1970.

O boné cubano

Num dos relatos mais tocantes, o desenhista Alan Brigagão Santanna, neto do ex-deputado pelo PCB, Brigagão, lembrou a história do parente, que no dia 28 de maio de 1968, foi levado para o estádio Caio Martins, em Niterói, pelas forças de repressão. Ele havia sido delatado pelos vizinhos do mesmo prédio em que moravam no bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio. “Ele foi acusado de ser um espião cubano, em parte porque encontraram um boné de Cuba no apartamento”, contou, com ar irônico e melancólico. “Eu amava loucamente o meu avô”, declarou, arrancando aplausos longos da plateia.

O relato de Alan Brigagão escancarou os traumas a que os filhos, esposas, maridos e outros parentes próximos dos presos políticos foram submetidos durante décadas. Trata-se de “paranoias”, como ele mesmo define. Não por acaso, afirma, algumas expressões ficaram na sua lembrança desde menino de tanto ser ouvidas - e pouco compreendidas -, como “grampo de telefone”, “isso é mentira da Rede Globo”, “não fale sobre seu avô quando der entrevistas” e várias outras estranhas memórias.

Explicações para morte de Lenita

Mesmo atribuindo as incógnitas ao excesso de emoção que ronda a história dos seus pais Sérgio Campos e Lenita da Rocha, o músico e poeta Fábio Campos decidiu pedir à Comissão da Verdade que investigue a morte da mãe. Lenita (assim batizada em homenagem ao revolucionário russo Lênin) faleceu em 14 de maio de 1967, dois dias após dar à luz a filha, no Hospital da Aeronáutica, no Rio. Fábio protocolou pedido à comissão para que cobre da unidade de saúde o prontuário com a causa do óbito.

<p>Fábio Campos, que pediu à Comissão da Verdade a investigação da morte da mãe, participou do encontro junto da filha</p><p> </p>
Fábio Campos, que pediu à Comissão da Verdade a investigação da morte da mãe, participou do encontro junto da filha
Foto: Juliana Prado / Especial para Terra

O filho admite que existe uma suspeição sobre o fato, mas também reconhece que a família sabia que ela teve complicações antes do parto, o que acabou levando a um quadro de embolia pulmonar. “A gente acha que nada (obscuro) aconteceu, mas a dúvida sempre assombra”, declarou. Num relato emocionado, ele contou que era muito pequeno quando a mãe morreu e que ao saber do fato, a reação, como contam os parentes, foi de alívio por, ao menos, entender que a mãe não o tinha abandonado.

O músico ainda comentou sobre uma certa “Dilma”, da VAR Palmares, mesmo grupo de combate à ditadura a que pertenceram seus pais. “A Dilma entrou na minha vida muito antes que na vida de muitos brasileiros”, brincou. Segundo ele contou, Dilma Rousseff tentou ajudar a família de alguma forma e preservar as crianças – Fábio e a irmã. A saída que o pai Sérgio encontrou, antes de ser preso pelos militares, foi deixar os filhos com os avós para serem criados. O pai acompanhou todo o relato do filho da plateia e ouviu, inclusive, declarações públicas de amor e admiração incondicional.

Entre as demandas formalizadas pelo grupo de filhos e netos dos presos políticos à Comissão Estadual da Verdade, estão: criação de um centro de memória; continuação dos trabalhos do grupo de Reparação Terapêutica (que presta assistência psicológica aos parentes) e revisão da Lei da Anistia.

Representante do grupo Ocupa Dops – que luta para que o prédio do antigo centro de tortura, no Rio, seja transformado em espaço de memória da ditadura – a ativista Ana Miranda não escondeu a emoção. Ex-presa política, entre 1968 e 1974, ela destacou a importância da reunião do grupo em torno das histórias, muitas delas até então não contadas: “Os danos passam de geração em geração. Mas os ganhos também passam. Essa continuidade do tempo nos traz hoje um otimismo muito grande”. 

Fonte: Especial para Terra
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