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O cálculo de Lula para não ir ao debate da Globo

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que Lula tem mais a perder do que a ganhar com a exposição e que, ao não participar do confronto, se poupa de ataques e de eventuais deslizes.

30 set 2026 - 16h07
(atualizado às 17h49)
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Resumo
Em disputa acirrada com Flávio Bolsonaro, Lula decidiu não ir ao debate da Globo para evitar ataques coordenados e cortes prejudiciais nas redes sociais. Especialistas avaliam a decisão como uma estratégia de contenção de danos que assume o desgaste da ausência democrática, apostando no voto já cristalizado do eleitor. Sem o petista, o confronto reunirá outros concorrentes e pode incluir Renan Santos, o que deve direcionar o foco das acusações e a pressão para Bolsonaro.
Campanha do presidente informou à Globo que ele não comparecerá ao debate
Campanha do presidente informou à Globo que ele não comparecerá ao debate
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não vai ao debate presidencial desta quinta-feira (1/10), organizado pela TV Globo.

A informação foi confirmada por fontes ouvidas pela BBC News Brasil e pela assessoria da emissora. A campanha do petista, contudo, ainda não se manifestou oficialmente.

A decisão repete uma estratégia adotada por Lula em 2006, quando ele também não participou de nenhum debate no primeiro turno.

O cenário, contudo, era outro. Naquele ano, Lula tinha ampla vantagem nas pesquisas em relação aos demais candidatos e acabou vencendo Geraldo Alckmin — hoje vice-presidente — no segundo turno.

Desta vez, Lula chega ao debate em uma disputa apertada com Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário. Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC, a distância entre os dois caiu no primeiro turno, enquanto eles aparecem empatados no segundo turno.

Mesmo assim, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a decisão pode fazer parte de uma estratégia para preservar Lula de uma exposição que oferece mais riscos do que benefícios.

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a principal razão seria evitar que Lula se torne alvo de ataques e poupá-lo para um eventual segundo turno.

"Ir ao debate seria se expor desnecessariamente ao ataque coordenado de vários políticos ao mesmo tempo, de formas diferentes, então Lula preserva, pelo menos no primeiro turno, a sua imagem", pondera.

"É uma eleição que está disputadíssima. Se por ventura tiram ele do sério, ele dá uma escorregada, ele pode perder voto. E, perdendo voto, ele pode perder a eleição", acrescenta.

A cientista política Graziella Testa, doutora em Ciência Política pela USP e professora da Universidade Federal do Paraná, também considera que a decisão pode ser compreendida do ponto de vista estratégico, embora ressalte que ela foge ao padrão mais comum das campanhas.

Segundo ela, historicamente, candidatos tendem a evitar debates por considerar que têm mais a perder do que a ganhar quando lideram as pesquisas com uma vantagem significativa— o que não é a situação de Lula atualmente.

Para Testa, parte desse cálculo da campanha do petista está relacionada não apenas ao que acontece durante o debate, mas ao que se fala sobre ele depois, especialmente nas redes sociais.

"De duas eleições para cá, importa mais os cortes, os pequenos enxertos do que foi dito, em vez do que foi debatido de forma mais profunda", diz.

Segundo ela, um trecho isolado de uma fala de Lula poderia ser usado para construir uma narrativa mais ampla, inclusive relacionada à idade do presidente, que poderia ser explorada pela campanha de Flávio Bolsonaro.

"Eu acho que tem uma avaliação de que uma coisa pequena pode virar decisiva nesse momento", afirma.

Flávio Bolsonaro afirmou que vai ao debate mesmo sem Lula, mas especialistas afirmam que decisão pode ser revista caso Renan Santos seja convidado
Flávio Bolsonaro afirmou que vai ao debate mesmo sem Lula, mas especialistas afirmam que decisão pode ser revista caso Renan Santos seja convidado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A estratégia, porém, tem um custo, afirma Marco Antonio Teixeira, professor de Ciência Política da FGV São Paulo.

Para ele, apesar de existir um cálculo de que Lula tenha mais a ganhar do que a perder não indo ao debate, "não pega bem para o candidato faltar ao escrutínio público".

"A impressão que tenho é que eles optaram em não ir para que Lula não fosse desgastado, mas eu acho arriscado diante do cenário atual. E, como cidadão, não acho democrático", afirma.

Na visão de Teixeira, por mais que Lula esteja mantendo um padrão na campanha — não participou de nenhum debate até agora —, ele perde uma oportunidade de mostrar suas diferenças em relação aos outros candidatos, principalmente a Flávio Bolsonaro.

"E obviamente sua ausência vai ser explorada", destaca.

O debate pode influenciar na disputa?

Outro elemento considerado pelos especialistas no cálculo da campanha de Lula é o impacto que o debate pode ter sobre uma eleição em que parte significativa do eleitorado já parece ter definido sua escolha.

Prando, por exemplo, não espera que a ausência do petista produza mudanças no voto do eleitor, em razão do alto grau de cristalização apontado pelas pesquisas.

"Praticamente 87% dos eleitores já cristalizaram o seu voto e não devem mudar de jeito nenhum. Dos eleitores do Lula, 92% dizem que não vão mudar a sua escolha. E do Flávio Bolsonaro são 91%, segundo as pesquisas", pondera.

"Não acredito que haja impacto considerável à campanha do Lula por conta daquilo que pode ser dito ou falado sobre ele na ausência dele", acrescenta.

Cila Schulman, especialista em marketing político e CEO da Idea, também considera limitado o potencial de mudança do debate.

De acordo com ela, a não ser que aconteça alguma coisa "muito fora do script", o quadro permanecerá polarizado entre Lula e Flávio.

"Se houver segundo turno, aí sim acho que os debates vão ser mais mandatórios para ambos, e aí a gente vai ter essa demanda do eleitor", destaca.

O fator Renan Santos

Além de Lula e Flávio Bolsonaro, foram convidados para o debate Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). O critério adotado pela Globo considera a representação dos partidos no Congresso após as eleições de 2022, conforme as regras eleitorais para a participação em debates.

Flávio já havia afirmado que participaria mesmo sem Lula. Caiado e Cury também confirmaram presença.

Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, foi incluído posteriormente pela Globo após o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, determinar a participação dos candidatos majoritários do Novo no debate presidencial e nos confrontos entre candidatos a governador.

A decisão atendeu a um pedido do partido, que argumentou que deveriam ser considerados os cinco integrantes que atualmente compõem sua bancada na Câmara, e não apenas os três deputados eleitos em 2022.

A Globo informou às campanhas que poderia convidar outro candidato caso um dos nomes originalmente convocados não participasse. Isso, porém, não significa que a substituição seja automática, segundo a emissora.

Renan Santos (Missão) é um dos nomes que passaram a ser mencionados diante da ausência de Lula. Entre os candidatos que não foram convidados originalmente, ele aparece com a maior intenção de voto nas pesquisas divulgadas até o momento.

A Globo ainda não se manifestou sobre a possibilidade de convidá-lo.

Renan convocou sua militância para uma manifestação em frente à Globo na quinta-feira caso ele não seja convidado para o debate.

Nesta quarta-feira (30/9), o partido dele, Missão, também entrou com um pedido junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para poder participar do confronto.

O Missão argumenta que "a emissora criou legítima expectativa de participação ao convidar Renan Santos, desde março deste ano, para o conjunto de atividades ligadas à cobertura da eleição presidencial — debates, sabatinas e entrevistas."

Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, uma eventual participação de Renan Santos poderia mudar o tom do debate, especialmente por aumentar o número de candidatos dispostos a confrontar Flávio Bolsonaro.

"O Renan tem sido o crítico mais ácido do Flávio no chamado campo da direita. Inclusive com um nível de agressividade muito grande", pontua Marco Antônio Teixeira.

A presença do candidato do Missão também poderia afetar a decisão de Flávio de participar do confronto, na avaliação de Cila Schulman.

"O Flávio anunciou essa ida, pode ter sido uma forma de mudar a pauta no final de semana, que estava mais positiva para o presidente Lula do que para ele, por conta desse ruído todo em torno da religião, e também porque o presidente Lula tinha anunciado ali o fim das bets. Então eu não tenho certeza se ele [Flávio] irá... principalmente se o Renan for."

Para Teixeira, o debate provavelmente terá um tom acusatório. E embora espera-se que a ausência de Lula seja explorada pelos adversários, ele aposta que Flávio Bolsonaro se tornará a principal "vidraça" do debate.

"Não temos visto nessa campanha um debate de propostas, de projetos de país. O que está acontecendo é uma troca de acusações e não tenho dúvida de que vai ser esse o tom do debate, principalmente em relação ao Flávio Bolsonaro diante das últimas repercussões na mídia", afirma.

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