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Depoimento: 'Minha mão está suja de giz, a deles, de sangue'

Professora que viu colegas serem agredidos por PMs dia 29 voltou ontem ao cenário da briga, em Curitiba, e lamentou por colegas idosos

3 mai 2015
08h48
atualizado às 17h45
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Se pudesse definir o dia 29 de abril de 2015 em Curitiba em uma palavra, qual seria? A professora de ensino fundamental Carla Stiegler, de 37 anos, pensa um pouco, como que escolhendo entre algumas várias delas, e diz, em um misto de segurança e revolta: “Humilhação. Para nós, servidores estaduais, aquilo foi uma humilhação”.

“Aquilo” foi a reação da Polícia Militar paranaense a um grupo de professores estaduais em greve que tentava acessar o prédio da Assembleia Legislativa. Eles tentavam acompanhar a votação de um projeto de lei encaminhado à Casa pelo governador Beto Richa (PSDB) e que mudaria substancialmente o regime de previdência não apenas da categoria, mas do funcionalismo público estadual. A PM reagiu, mais de 200 pessoas se feriram com balas de borracha e estilhaços de bombas, o projeto passou e já foi sancionado por Richa.

A professora Carla, de 37 anos, e o filho Lucas, de 10 anos
A professora Carla, de 37 anos, e o filho Lucas, de 10 anos
Foto: Janaina Garcia / Terra

Carla estava no ato dos professores, na quarta, mas conta que saiu fisicamente ilesa do episódio. No último sábado (2), 72 horas depois das cenas que correram o Brasil e o mundo, ela voltou à frente da Assembleia com o marido e os dois filhos para mostrar a eles, de perto, um mínimo do que de fato teria sido o 29 de abril. O filho mais velho, Lucas, de dez anos, já sabe que carreiras não pretende seguir, quando chegar a hora: “Não quero ser nem policial, nem professor. Fiquei com medo quando vi aquelas imagens na TV e não quero passar por isso também”, contou o garoto.

Leia, a seguir, o relato da professora ao Terra.

*
Sou de Prudentópolis, estava aqui na quarta-feira. Quis voltar e trazer meu marido, que acompanhou tudo de casa, pela TV, e meus filhos, principalmente eles. Meu filho mais velho é meu aluno na rede estadual; queria trazê-lo para ele sentir esse clima aqui. Esse campo de batalha que a gente enfrentou na quarta-feira.

Houve muito confronto, mas um confronto desonesto, porque as nossas mãos estavam limpas, e eles, os policiais, estavam extremamente armados, extremamente. O Brasil inteiro viu, o mundo viu. 

Quando olho para essas faixas, dói meu coração. Eu, graças a Deus, não saí com nenhum machucado externo. Meus amigos, sim, os que estavam na frente. Mas o meu sentimento é de uma dor interna, um pânico, e dá um desespero saber que uma hora eu vou ter que voltar para a sala de aula e encarar tudo e todos. Não é fácil.

O que nós vivemos aqui na quarta-feira não tem explicação. É dor, é revolta, é desesperador. Já se passaram 72 horas e, quando eu fecho os olhos, revivo aquilo: as bombas, o ar pesado, em que não se podia respirar, os cachorros latindo. 

Acho que a imagem mais forte que ficou desse dia foi a das pessoas mais idosas, os professores mais idosos que estavam junto com a gente. Daqueles que foram meus professores e que estavam aqui junto comigo. Essa é a imagem que mais me dói: a de ver as pessoas que estão 25, 30 anos no magistério tendo que passar por essa humilhação. Eu estou há 11 anos no magistério.


Isso a gente queria passar para a população: não estávamos ali pelo salário. Tudo o que aconteceu na quarta-feira foi pela nossa previdência; nós pagamos – eu, mesma, estou pagando há 11 anos – e agora ele [Richa] vai pegar esse fundo previdenciário e pagar suas contas? Vai transferir um monte de gente para o meu fundo e dar como garantia o próprio Estado? Esse Estado ele me dá como garantia de que eu vou me aposentar com um salário digno, depois de 25 anos de trabalho em sala de aula? Impossível acreditar.

Outra coisa que me revolta é o governador falar em black blocs. Podia ter algum infiltrado lá? E o helicóptero jogando bomba no povo? Eu vi isso. Se o black bloc estivesse estaria na linha de frente, mas não estava! Aí a polícia joga bomba no meio do povo? Nos educadores?

Vi que eles limparam o mar vermelho de tinta [feito na véspera por estudantes em um espelho d’água do Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense], mas tem outra imagem que eles nunca vão tirar, que é a daqui, da minha cabeça. Essa não sai, e essa que eu vou repassar na sala de aula.

Em uma palavra, para definir a quarta-feira? Humilhação, e para nós, servidores. Só que minha mão vai continuar suja de giz, e a deles vai passar daqui para a eternidade manchada de sangue.”

"Musa" da esquerda, Luciana Genro discursa contra Richa no PR

 

Fonte: Terra

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