Fiéis querem retomar ponto de oração na Vila Kennedy
Cruz que antes era ponto de oração de evangélicos se tornou ponto de desova de corpos e de tortura dentro da disputa entre traficantes rivais da região. Ocupação das forças de segurança traz esperança e receio
Uma vez um pastor veio da Vila Aliança para cá com uma cesta básica para me entregar. Os policiais confundiram com um traficante e abriram fogo", conta dona Edna Farias, que costumava pregar no local
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Bem antes de assistir apavorada aos diversos e cotidianos confrontos entre membros do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro, facções criminosas que disputam os pontos de venda de drogas na Vila Kennedy e Vila Aliança, respectivamente, comunidades da zona oeste do Rio de Janeiro, Maria Quirina, há 20 anos na VK, olha para o alto do morro que divide as duas favelas e lembra com carinho: “a gente subia até o alto do morro e orava”, diz, com uma túnica toda branca, citando palavras da bíblia. “Está vendo aquela cruz ali? A gente subia por um caminho ali no meio”.
Crente fervorosa, a dona de casa de 52 anos viu com o passar dos anos o seu ponto de peregrinação se tornar uma espécie de tribunal de contas do tráfico. “Começaram a amarrar gente ali. Virou local de desova de corpos. Uma vez, naquela torre de energia ao lado, amarraram um cara que ficou gritando por um bom tempo. Alguém desceu para buscar gasolina. Iam queimar ele. Sorte que a polícia chegou antes e salvou”, relembra, com ar de tristeza.
Foi justamente deste ponto que traficantes rivais do TCP, com vestimentas pretas e alguns com capuz, querendo se passar por policiais, desceram até a Vila Kennedy no mês passado e iniciaram intensa troca de tiros que durou horas, tirou milhares de alunos das salas de aula, e apavorou os cerca de 33 mil moradores da localidade – contando a favela do Metral.
“É como diz aquele rap, moço. Eu só quero é ser feliz”, diz, agora mais sorridente, sem temer dar o nome, ou parar para conversar com jornalistas, fato raro entre moradores de comunidades tomadas pelo tráfico – o medo de represálias sempre existe. Em meio as viaturas do Bope e Batalhão de Choque revistando tudo e a todos, ela sonha em voltar ao alto do morro com a ocupação da localidade por parte das forças de segurança do Estado, iniciada na manhã desta quinta-feira com um efetivo de 320 homens para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
Dona Maria Quirina aponta para o cruz no alto: "é aquilo, né. Vai que a gente sobe e lá do alto alguém pensa que a gente é vagabundo"
Foto: Mauro Pimentel / Terra
“É aquilo, né. Vai que a gente sobe e lá do alto alguém pensa que a gente é vagabundo”, diz, na gíria carioca que denomina os criminosos. “Eu por enquanto não vou me arriscar”. O mesmo pensamento tem a vizinha de Maria Quirina, a também dona de casa Edna Farias, 59, há 30 anos morando na VK.
“Uma vez um pastor veio da Vila Aliança para cá com uma cesta básica para me entregar”, conta Edna, outra evangélica atuante na comunidade. “Os policiais confundiram com um traficante e abriram fogo. Ele se jogou no mato, voou arroz para tudo quanto é lado. Foi horrível. Graças a Deus ele não se feriu. Entendeu porque ainda não dá para realizar esse sonho?”, explica, sem perder o direito de, um dia, voltar ao lado da amiga ao alto do morro para orar. “Seria uma benção”.
Comunidade com cerca de 33 mil moradores, a Vila Kennedy foi o local escolhido para a instalação da 38ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Rio de Janeiro. Junto do Bope, forças de segurança atuam no processo de varredura de toda a comunidade atrás de possíveis criminosos, armas e drogas
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Moradores da Vila Kennedy mantiveram seus hábitos durante a instalação de nova UPP: uma feira, inclusive, continuou funcionando
Foto: Mauro Pimentel / Terra
A Secretaria de Segurança Pública do Estado pediu para que os moradores colaborem com os policiais com informações que podem ser passadas via Disque Denúncia
Foto: Mauro Pimentel / Terra
As autoridades pediram que a população siga com sua rotina normalmente durante a operação
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Junto do Bope, as forças de segurança atuam no processo de varredura de toda a comunidade atrás de possíveis criminosos, armas e drogas
Foto: Mauro Pimentel / Terra
A Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil também atua na operação na tentativa de cumprir mandados de prisão, e busca e apreensão
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Como forma de segurança, 12 escolas, três creches e dois espaços de desenvolvimento amanheceram seu aulas para um estimado de 9 mil alunos da rede municipal e estadual de ensino
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Cãs farejadores atuam na mata em busca de armas e drogas
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Conforme a polícia, não houve resistência e nenhum tiro foi disparado. A Secretaria de Segurança diz que a comunidade foi ocupada em 20 minutos
Foto: Edson Taciano / Futura Press
Cerca de 33 mil moradores vivem na região que é tida como mais rural do Rio, entre Bangu e Campo Grande
Foto: Mauro Pimentel / Terra
A Vila Kennedy é um conjunto habitacional inaugurado há cerca de 50 anos, local para onde foram deslocados moradores de favelas em Botafogo, na zona sul, e Maracanã, na zona norte
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Toda a extensão do conjunto de favelas é cortada pela avenida Brasil numa área do Rio de Janeiro tida como rural
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Forças de segurança do Estado no Rio de Janeiro iniciaram na manhã desta quinta-feira a ocupação da Vila Kennedy, comunidade da zona oeste da capital fluminense, para a instalação da 38ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP)
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Policiais realizaram uma operação de ocupação da favela Vila Kennedy, na zona oeste do Rio de Janeiro, para a instalação da 38ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Estado
Foto: Paulo Campos / Futura Press
Participam do efetivo de ocupação homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Batalhão de Choque, Batalhão de Ação com Cães, além de apoio do Grupamento Aéreo Marítimo e Batalhão de Policiamento em Vias Especiais (BPVE)
Foto: Reynaldo Vasconcelos / Futura Press
A região é conhecida por ser polo de disputa entre quadrilhas de traficantes rivais que vem aterrorizando os moradores com frequentes tiroteios
Foto: Mauro Pimentel / Terra
A VK é fruto de uma investida do governo dos EUA, nos anos 1960, na tentativa de conter o avanço comunista na América do Sul
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Os policiais que atuam na região revistaram carros e motos. Durante a ocupação, o clima era tranquilidade na região
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro foram hasteadas durante ocupação da Vila Kennedy na manhã desta quinta-feira no Rio de Janeiro
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Hasteamento das bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro faz parte de uma cerimônia simbólica que sempre marca a ocupação das forças de segurança
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Gelson Machado chegou em 1965 à Vila Kennedy e foi o fundador da associação de moradores local
Foto: André Naddeo / Terra
Durante a ocupação, os agentes fizeram varredura e efetuaram uma série de prisões
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Algemados e presos em flagrante, criminosos foram levados para a delegacia
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Criança chora assustada com os rasantes dos helicópteros e tumulto nas ruelas da vila
Foto: Mauro Pimentel / Terra
Veículos também foram vistoriados, incluindo táxis