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Fiéis querem retomar ponto de oração na Vila Kennedy

Cruz que antes era ponto de oração de evangélicos se tornou ponto de desova de corpos e de tortura dentro da disputa entre traficantes rivais da região. Ocupação das forças de segurança traz esperança e receio

13 mar 2014 - 16h05
(atualizado às 17h41)
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<p>Uma vez um pastor veio da Vila Aliança para cá com uma cesta básica para me entregar. Os policiais confundiram com um traficante e abriram fogo", conta dona Edna Farias, que costumava pregar no local</p>
Uma vez um pastor veio da Vila Aliança para cá com uma cesta básica para me entregar. Os policiais confundiram com um traficante e abriram fogo", conta dona Edna Farias, que costumava pregar no local
Foto: Mauro Pimentel / Terra

Bem antes de assistir apavorada aos diversos e cotidianos confrontos entre membros do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro, facções criminosas que disputam os pontos de venda de drogas na Vila Kennedy e Vila Aliança, respectivamente, comunidades da zona oeste do Rio de Janeiro, Maria Quirina, há 20 anos na VK, olha para o alto do morro que divide as duas favelas e lembra com carinho: “a gente subia até o alto do morro e orava”, diz, com uma túnica toda branca, citando palavras da bíblia.  “Está vendo aquela cruz ali? A gente subia por um caminho ali no meio”.

Crente fervorosa, a dona de casa de 52 anos viu com o passar dos anos o seu ponto de peregrinação se tornar uma espécie de tribunal de contas do tráfico. “Começaram a amarrar gente ali. Virou local de desova de corpos. Uma vez, naquela torre de energia ao lado, amarraram um cara que ficou gritando por um bom tempo. Alguém desceu para buscar gasolina. Iam queimar ele. Sorte que a polícia chegou antes e salvou”, relembra, com ar de tristeza.

Foi justamente deste ponto que traficantes rivais do TCP, com vestimentas pretas e alguns com capuz, querendo se passar por policiais, desceram até a Vila Kennedy no mês passado e iniciaram intensa troca de tiros que durou horas, tirou milhares de alunos das salas de aula, e apavorou os cerca de 33 mil moradores da localidade – contando a favela do Metral.

“É como diz aquele rap, moço. Eu só quero é ser feliz”, diz, agora mais sorridente, sem temer dar o nome, ou parar para conversar com jornalistas, fato raro entre moradores de comunidades tomadas pelo tráfico – o medo de represálias sempre existe. Em meio as viaturas do Bope e Batalhão de Choque revistando tudo e a todos, ela sonha em voltar ao alto do morro com a ocupação da localidade por parte das forças de segurança do Estado, iniciada na manhã desta quinta-feira com um efetivo de 320 homens para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). 

<p>Dona Maria Quirina aponta para o cruz no alto: "é aquilo, né. Vai que a gente sobe e lá do alto alguém pensa que a gente é vagabundo"</p>
Dona Maria Quirina aponta para o cruz no alto: "é aquilo, né. Vai que a gente sobe e lá do alto alguém pensa que a gente é vagabundo"
Foto: Mauro Pimentel / Terra

“É aquilo, né. Vai que a gente sobe e lá do alto alguém pensa que a gente é vagabundo”, diz, na gíria carioca que denomina os criminosos. “Eu por enquanto não vou me arriscar”. O mesmo pensamento tem a vizinha de Maria Quirina, a também dona de casa Edna Farias, 59, há 30 anos morando na VK.

“Uma vez um pastor veio da Vila Aliança para cá com uma cesta básica para me entregar”, conta Edna, outra evangélica atuante na comunidade. “Os policiais confundiram com um traficante e abriram fogo. Ele se jogou no mato, voou arroz para tudo quanto é lado. Foi horrível. Graças a Deus ele não se feriu. Entendeu porque ainda não dá para realizar esse sonho?”, explica, sem perder o direito de, um dia, voltar ao lado da amiga ao alto do morro para orar. “Seria uma benção”. 

Fonte: Terra
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