"Eu só ganhei um carro", diz Geisy um ano depois do caso Uniban
- Andressa Tufolo
- Daniel Favero
- Hermano Freitas
Há exatamente um ano, Geisy Arruda saía do anonimato de uma forma nada convencional. Virou celebridade depois de ser hostilizada por colegas da Uniban, em São Bernardo do Campo, na região do grande ABC Paulista, ao usar um vestido considerado curto. A estudante de 21 anos teve que sair escoltada da faculdade e, em novembro, foi expulsa da instituição. "Eu só ganhei um carro, gente! Eu ainda tenho muito o que ganhar, porque vou trabalhar muito, estudar bastante e todo dinheiro que entrar agora vai ser pelo meu trabalho", responde Geisy ao ser questionada se a humilhação valeu pelas oportunidades na TV e também pelo recente contrato para posar nua numa revista.
No início de outubro, a universidade foi condenada a indenizar Geisy em R$ 40 mil. Ela pede R$ 1 milhão e garante que vai recorrer da decisão. "Para um caso que tem repercussão mundial, R$ 40 mil é muito pouco para o que foi feito" disse. Na noite de ontem, Geisy lançou uma coleção de vestidos da sua grife em uma boate da região da Rua Augusta em São Paulo.
Através da assessoria de imprensa, a Uniban nega qualquer responsabilidade pelo ocorrido e já recorreu da decisão da Justiça que manda indenizar Geisy Arruda. "Desde que aconteceu o episódio a esmagadora maioria dos alunos, professores e funcionários sempre manifestou seu apoio à instituição porque não veem em Geisy Arruda um modelo de comportamento a ser seguido", diz a assessoria da universidade.
"Ela jogou o nome da faculdade no lixo"
Enquanto a ex-estudante de Turismo aproveita a fama, os alunos da Uniban acreditam que o episódio marcou a instituição de forma negativa. "Ela jogou o nome da faculdade no lixo", disse Adriana Beltrani estudante do primeiro ano de direito.
Um casal de alunos que preferiu não se identificar disse que oportunidades de emprego foram descartadas por causa da ligação do nome da instituição ao episódio de Geisy. "Logo depois do ocorrido, os chefes de uma amiga minha pediram para ela mudar de faculdade", disse um deles.
Uma aluna de Letras, que se identificou apenas como Mariete, conta que presenciou a confusão e diz que "as meninas estão cautelosas ao colocarem uma roupa, nós pensamos, nunca se sabe". Renata também estava no prédio quando houve o tumulto. "A Geisy sempre veio de vestido curto. (...) O problema foi que neste dia ela levantou o vestido para provocar as meninas que estavam com os namorados", disse.
Amiga diz que Geisy é alvo de preconceito
Para a maquiadora Juranda Xavier, a amiga Geisy Arruda ainda é alvo do mesmo tipo de preconceito que sofreu na Uniban. "Ela é uma menina que veio de origem humilde, que vive em uma periferia braba, que trabalhava como caixa de um mercado para pagar a faculdade. Deus deu essa oportunidade para ela e é uma hipocrisia as pessoas falarem que não se aproveitariam dessa mídia para melhorar de vida", disse.
Segundo a amiga, Geisy ainda mora no mesmo local onde cresceu. "Outro dia ela me falou que não conseguiu voltar para casa porque estava acontecendo um tiroteio onde ela mora, e que teve que dormir na casa de um amigo".
Fabricada pela Mídia
Segundo o sociólogo e professor da Universidade de São Paulo, Waldenyr Caldas, existem diversos tipos de celebridade, aquelas que se consolidam no decorrer de sua trajetória, como Chico Buarque e Bill Gates, e aquelas que são criadas pela mídia, como é o caso de Geisy Arruda.
"Geisy é um fenômeno criado pela mídia, é uma celebridade de momento, de oportunismo, mas quem construiu a imagem dela foram os veículos de comunicação de massa que deram espaço e que celebrizaram o que aconteceu", disse o professor.