Com pouca expectativa de reunião com Trump no G7, Lula usará discursos para enviar recados
O Brasil participa como país convidado da cúpula do G7, que começou na noite desta segunda-feira (15) em Évian, na França. Por enquanto, não está prevista uma reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o norte-americano Donald Trump, uma das principais expectativas do governo brasileiro durante o evento.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Évian
Todos os líderes que participam da cúpula estão no luxuoso Hotel Royal de Evian, e a esperança é que os dois possam ter uma conversa informal nas próximas 24 horas, em meio aos compromissos oficiais. Se essa ocasião se confirmar, o presidente brasileiro deverá salientar a disposição do Brasil em cooperar com as negociações a respeito da nova rodada de tarifas de 25% que os Estados Unidos podem adotar contra uma série de produtos brasileiros.
No entendimento de fontes do governo, uma conversa entre os dois, ainda que informal, pode ajudar a reduzir o impacto do novo tarifaço proposto pelo Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), alegando que o Brasil adota práticas desleais de comércio. O prazo para um entendimento, dado por Trump durante a última reunião oficial com Lula na Casa Branca, se encerra em 15 de julho.
O processo está sendo comandado pelos chefes das pastas de Comércio dos dois países, o ministro Márcio Elias Rosa e o secretário Jamieson Greer, que voltaram a ter uma reunião virtual no último domingo (14).
Clima delicado
No âmbito da cúpula, a primeira participação oficial do Brasil será nesta tarde, em um painel sobre o reforço do multilateralismo e da solidariedade internacional. A sessão contará com os líderes dos cinco países que não fazem parte do G7 e foram convidados a participar, além de bancos multilaterais. Lula deve discursar e poderá aproveitar a ocasião para condenar as medidas unilaterais, como aplicação de tarifas comerciais, que prejudicam o livre comércio internacional.
O tema também deve ser reforçado por outros participantes da cúpula, a começar pela anfitriã, França, alvo de novas ameaças de impostos de importação de 100% sobre os vinhos franceses, feitas por Trump horas antes de desembarcar em Evian. Macron disse que pretendia ter "uma discussão respeitosa, mas firme" com o líder norte-americano sobre este assunto. Ao mesmo tempo, o presidente francês se esforça para garantir que Trump permanecerá na cúpula até o seu encerramento, na tarde desta quarta-feira (17).
É neste clima delicado que os países do G7 e convidados tentarão convencer o presidente dos EUA a ser um parceiro em pautas de interesse comuns, como o combate aos desequilíbrios econômicos globais. No total, oito declarações conjuntas estão sendo preparadas, mas segundo o governo brasileiro, os textos estão sob medida para agradar Trump, e não necessariamente aos demais países.
Brasil não endossa documento sobre minerais críticos
O documento sobre minerais críticos, por exemplo, adota um tom crítico ao papel da China, com o qual a diplomacia brasileira não concorda. Brasília quer a garantia de poder comercializar livremente com seus parceiros comerciais nesta matéria, dando prioridade aos que tiverem projetos de beneficiar os minerais em solo brasileiro.
Como país convidado, o Brasil não tem poder de influenciar nas decisões da cúpula e pode decidir a acatar, ou não, os comunicados finais do G7.
Durante estes dois dias, Lula também aproveita para fazer reuniões bilaterais. Ele encontrou-se com Emmanuel Macron nesta segunda-feira, com quem abordou a cooperação na área de defesa, em especial o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), e a segurança transfronteiriça entre a Guiana Francesa e o Amapá. Macron reiterou o interesse francês em participar da compra de supercomputadores pelo Brasil.
Nesta terça (16), o presidente brasileiro tem um encontro com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, com a negociação de um acordo comercial entre Tóquio e o Mercosul na pauta. À tarde, a conversa será com a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e o do Conselho Europeu, António Costa.
Entre outros assuntos, eles devem falar sobre as restrições que os europeus pretendem adotar contra a importação de carne brasileira a partir de setembro. O bloco decidiu excluir os exportadores que não cumprem as normas europeias sobre o uso de antibióticos na pecuária. O Brasil é autorizado a vender carne à UE, porém atrasou a entrega da documentação exigida pelo bloco para realizar a compra.
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