Revogação de visto de embaixadora do Brasil nos EUA é 'instrumento arbitrário para pressionar governo brasileiro', diz Casarões
Especialista em relações internacionais diz que episódio é sem precedentes e ocorre em meio a preocupações sobre possível interferência nas eleições brasileiras.
A decisão do governo de Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, é "mais uma camada de pressão para que o Brasil se dobre aos interesses do governo americano", avalia o especialista em relações internacionais e professor da Florida International University (EUA) Guilherme Casarões.
Em entrevista à BBC News Brasil, Casarões classificou como uma medida sem precedentes e que não se encaixa nos cenários tradicionais que poderiam justificar uma ação desse tipo, como um escândalo envolvendo o diplomata ou uma ruptura das relações entre os países.
"Quando isso acontece, geralmente acontece quando a pessoa cometeu algum tipo de infração muito grave e isso gera uma crise diplomática", afirmou.
"Isso que o governo americano apresentou não faz sentido do ponto de vista das relações diplomáticas. Me parece muito mais um instrumento arbitrário para dar um recado e colocar pressão sobre o governo brasileiro, dada uma suposta insatisfação do governo americano que se acumulou ao longo das últimas semanas", acrescentou.
Segundo apurou a BBC, a medida foi uma resposta à demora na concessão do agrément — a autorização formal para que um representante diplomático estrangeiro assuma o cargo — ao indicado pelos Estados Unidos para ocupar a embaixada em Brasília, Daniel Perez.
No mesmo período, o governo brasileiro negou vistos a Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado que pretendiam visitar o Brasil após o Washington Post noticiar que a viagem poderia ser usada para levantar dúvidas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
A BBC também apurou que o governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Daniel Perez e que não havia encontrado declarações ou fatos que desabonassem o nome indicado pelos Estados Unidos.
No entanto, houve uma quebra da praxe diplomática quando Washington anunciou o nome do futuro embaixador antes de solicitar formalmente a autorização ao governo brasileiro.
Para Casarões, esse rompimento do rito diplomático é justamente o principal ponto de incômodo para o Itamaraty.
O professor comparou o episódio a uma crise envolvendo Brasil e Israel em 2015, quando o então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou pelo Twitter (atualmente X) a indicação de Dani Dayan para a embaixada israelense em Brasília antes da consulta formal ao governo brasileiro.
Na ocasião, o governo brasileiro demorou meses para se manifestar sobre a indicação. Segundo Casarões, o problema para o Brasil não era o perfil do indicado, mas o fato de a nomeação ter sido anunciada antes da consulta diplomática.
"No caso do Daniel Perez, foi a mesma coisa: foi uma nomeação que poderia ter passado pelos protocolos diplomáticos normais. Ele foi anunciado de maneira unilateral pelo governo americano sem a consulta do governo brasileiro", explicou Casarões, lembrando que os EUA chegaram a ficar cerca de um ano sem embaixador no Brasil.
"A sensação que eu tenho é que o governo americano fica jogando cascas de banana esperando que o Brasil, em alguma delas, responda de uma determinada forma que justifique mais medidas restritivas por parte dos Estados Unidos", destacou.
Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão e afirmou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para revogar o visto da embaixadora eram falsas.
O Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o agrément e afirmou que não há prazo definido para a concessão da autorização.
O governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país.
"A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente", diz um trecho da nota.
A revogação do visto da embaixadora ocorre em meio a uma crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos que começou em 2025, teve um período de distensão e voltou a se intensificar no último mês.
No ano passado, o governo Trump anunciou um pacote de tarifas sobre produtos brasileiros e impôs sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, citando perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado em setembro por golpe de Estado e outros crimes.
Washington também revogou os vistos de autoridades brasileiras.
Em novembro, após uma conversa por telefone com Lula, Trump anunciou a retirada parcial das tarifas. No mês seguinte também suspendeu as sanções contra Moraes, reduzindo a tensão entre os dois países.
A trégua, porém, durou pouco, e a crise voltou a se intensificar em 2026. No fim de maio, os Estados Unidos classificaram as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, decisão criticada pelo governo brasileiro.
Já no fim de julho, Washington anunciou duas novas tarifas sobre produtos brasileiros, resultado de investigações distintas: uma de 25%, relacionada a práticas comerciais consideradas injustas pelos Estados Unidos, e outra de 12,5%, sob a alegação de que o Brasil falhou em combater adequadamente o trabalho forçado.
Para Casarões, a revogação do visto da embaixadora representa mais um passo nessa escalada e evidencia que Washington já lançou mão de praticamente todos os instrumentos de pressão à sua disposição.
"À exceção da solução militar, não tem mais muito que os Estados Unidos possam fazer para pressionar o governo brasileiro. Todas as medidas já foram colocadas à mesa. De tarifas e investigações comerciais à Lei Magnitsky e à revogação de vistos de autoridades brasileiras. Só faltava realmente criar uma situação envolvendo um embaixador."
Segundo uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão Trump avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação do novo embaixador americano.
Por enquanto, ressalta a fonte, Viotti não foi declarada persona non grata e não foi expulsa do país. Com a medida atual, a embaixadora terá que solicitar um novo visto para entrar nos EUA, caso saia do país.
"O presidente Trump tem o direito de determinar quem representa o povo e os interesses dos Estados Unidos ao redor do mundo. O presidente Trump está formando, em toda a sua administração, uma equipe diplomática de primeira linha pautada pela política 'America First', sujeita ao aconselhamento e consentimento do Senado. Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos", disse ainda um porta voz do Departamento de Estado à reportagem.
'Tentativa de interferência nas eleições'
Na avaliação de Casarões, a demora na concessão do agrément para o embaixador americano também está relacionada ao temor do governo brasileiro de uma possível interferência no processo eleitoral.
"A posição do governo brasileiro era até meio estratégica: a gente não vai negar o cara, mas deixa ele vir depois das eleições. O medo é que ele, a partir do exercício do cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil, contribuísse para favorecer ou facilitar a candidatura do Flávio Bolsonaro, e uma eventual interferência mais direta nas eleições", afirmou.
Na nota em que repudiou a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, o governo brasileiro afirmou que a decisão americana "fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente".
Casarões afirma que episódios recentes corroboram para essa preocupação do governo brasileiro, citando a tentativa de envio de funcionários americanos ao Brasil para discutir a integridade do sistema eleitoral e a atuação de autoridades ligadas ao governo Trump em questões envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Você já tem tantos instrumentos políticos, econômicos e jurídicos que já foram desdobrados contra o Brasil que é difícil a gente dizer que os Estados Unidos não querem nada com essa eleição. Eu não consigo não chamar isso de uma tentativa de interferência."
Apesar da escalada das tensões, o professor avalia que o governo brasileiro vai tentar equilibrar uma resposta firme com a necessidade de evitar uma deterioração ainda maior da crise.
Segundo ele, o Palácio do Planalto deve buscar construir uma narrativa de defesa da soberania nacional, mas o Itamaraty tende a agir com cautela diante da imprevisibilidade do governo Trump.
Uma saída provável seria o Brasil autorizar a indicação de Daniel Perez, mas apenas após as eleições, para evitar uma possível interferência no processo eleitoral e que a decisão seja vista como uma concessão feita sob pressão.
"O problema não é aceitar o nome. O problema é aceitá-lo como parte de uma chantagem, como parte de uma negociação de refém. É essa estratégia que o governo americano vem fazendo sistematicamente, não só com o Brasil, com o mundo inteiro", afirma Casarões.
Leia na íntegra a nota do governo brasileiro:
O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. As duas justificativas apresentadas são falsas.
O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro.
O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.
Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.
Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.
O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.
A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.
Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.
Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.
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