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Vídeo: o que mudou na Avenida Paulista aos domingos após nova regra sobre caixas de som? Fomos ver

Vizinhos dizem que mudança não resolve problema de som; artistas driblam a fiscalização tocando à capela ou em shows silenciosos com fone de ouvido

6 set 2026 - 05h42
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Resumo
Uma nova norma da Prefeitura de São Paulo proibiu o uso de fontes externas de energia por artistas na Avenida Paulista aos domingos para conter a poluição sonora. Embora a maioria dos músicos tenha se adaptado — gerando até inovações como shows silenciosos ouvidos via fones de ouvido —, moradores afirmam que o ruído persiste devido à alta potência das caixas portáteis com baterias internas. Enquanto artistas pedem melhor organização do espaço, vizinhos cobram limites focados em decibéis.

Quem passa pela Avenida Paulista aos domingos sente uma mudança. Para os distraídos, pode passar despercebido, mas o espaço antes dividido por uma variedade de músicos e caixas de som já não é mais o mesmo - já tem banda que faz até show sem emitir nenhum som.

Uma nova norma da Prefeitura, de 4 de agosto, proíbe fontes de energia externas para alimentar caixas de som e instrumentos: nada de geradores, baterias externas e ligações elétricas puxadas do comércio ou residências.

Segundo a Secretaria das Subprefeituras, o objetivo é "conciliar o direito de livre manifestação artística" aos parâmetros de ruídos do programa Ruas Abertas, que fecha a avenida mais famosa de São Paulo para veículos aos domingos e feriados. A regra foi criada após o Ministério Público Estadual abrir, em junho, investigação sobre a poluição sonora na região.

O veto não inclui amplificação do som em si, mas a fonte de energia. Segundo moradores, isso não resolve o problema do barulho, pois caixas modernas, com baterias internas, são tão potentes quanto outras com geradores.

Já os artistas de rua veem pouca mudança prática e cobram mais atuação da Prefeitura para organizar apresentações musicais na via. E o que mudou de fato? No dia 23, da manhã ao início da tarde, o Estadão percorreu os 2,8 km da Paulista para conferir.

Little Beast cria alternativa criativa diante da nova portaria da Avenida Paulista
Little Beast cria alternativa criativa diante da nova portaria da Avenida Paulista
Foto: Ana Lourenço/Estadão / Estadão

Onze artistas foram encontrados ao longo do trajeto. De longe, não era possível identificar se a fonte de energia é externa ou não, mas bastou chegar mais perto para entender que oito deles estavam com caixas de som que cumpriam a nova regra. Um não estava.

Os outros dois eram um artista com saxofone, sem eletrônicos, e um grupo com uma proposta criativa: fones de ouvido para escutar o show. Bateria, guitarra, gaita, baixo e vocal estavam em ação e a plateia escutava atenta, mas não saía som de caixa alguma.

A reportagem também observou o que os moradores relatam: com o avanço da tecnologia, pequenas caixas portáteis entregam potência sonora que antes só um gerador conseguia.

'Cânion urbano' onde o barulho reverbera

Para Raphaela Galletti, presidente da MOV Paulista, associação que reúne moradores, comerciantes e prestadores de serviço da região, o veto deveria ter alcance maior. "É preciso trabalhar a emissão sonora, o nível de decibéis de cada emissão, de cada fonte, a distância entre eles", diz. A nova regra tem origem na pressão da entidade, que acionou o Ministério Público.

"Temos laudos e mapas acústicos de simulação que mostram que a Paulista funciona como 'cânion urbano'. Um corredor com prédios espelhados dos dois lados, onde o som reverbera e se amplifica, chegando até a fachadas dos apartamentos com intensidade", diz Marcelo Sando, idealizador do movimento Paulista Boa para Todos e representante dos moradores na comissão de conciliação da Paulista.

São 18 condomínios residenciais na avenida, com cerca de 7 mil moradores. A maior concentração de ruído está perto da Estação Trianon Masp. Os entornos das estações de metrô Consolação e Brigadeiro, conforme viu a reportagem, eram mais vazias.

Para Sando, a situação tem piorado. "Houve aumento das baterias universitárias, talvez pelo início de semestre, e campanhas eleitorais. Saíram as bandas com geradores, mas teve proliferação de caixas portáteis", conta.

Segundo ele, o barulho é maior à tarde. "A fiscalização tem passado pela manhã. Então, todo mundo chega por volta das 14 horas para fazer apresentações", afirma.

Para os visitantes, a diversidade musical da Paulista é um dos pontos fortes da via
Para os visitantes, a diversidade musical da Paulista é um dos pontos fortes da via
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Como é a fiscalização?

Segundo a Prefeitura, a medida é fiscalizada por três equipes, cada uma com um fiscal, quatro policiais militares e nove integrantes de apoio. Nos três primeiros fins de semana da nova regra, diz a Prefeitura, 57 artistas foram abordados. "Em cinco casos, houve adequação às mudanças após orientação dos fiscais, sem apreensão de equipamentos."

A reportagem viu dois carros da Guarda Civil Metropolitana circulando pela Paulista. Na altura do número 460, um DJ que tocava com caixas de som e (aparentemente) baterias externas estava no local por volta das 11h30. Minutos depois, às 12h02, quando a reportagem passou novamente para abordá-lo, ele já não estava mais no espaço.

As opiniões dos frequentadores se dividem. "Você ainda escuta bandas, mas em comparação com outras vezes, está bem diferente. Existia uma competição, mas ao mesmo tempo a arte é livre", opina a produtora Alice Oliveira, de 34 anos, que costuma frequentar a Paulista de domingo.

Já para Marcelo Costa, da área de TI, 41 anos, o nível de ruído segue igual. "Não percebi nada de diferente", conta. "Mas adoro tudo isso. A Paulista proporciona experiências - sonoras e artísticas. Há poluição sonora, mas talvez seja necessário encontrar um meio termo - de horários, por exemplo - não proibir."

E o que dizem os artistas de rua?

Maria Preu, cantora que costuma se apresentar na avenida, diz que as mudanças foram tranquilas para quem já seguia a Lei 15.776, de 2013, sobre artistas de rua, e a cartilha da Prefeitura, de 2015, que desaconselhava o uso de fontes de energia externas.

Segundo Celso Reeks, representante de artistas da Paulista, as regras anteriores eram suficientes para disciplinar a arte de rua, mas falta ação mais coordenada e efetiva do poder público para organizar o uso do espaço. "Muitos (artistas) pararam de se apresentar antes da portaria (sobre as fontes de som) porque não tinham condições técnicas, físicas ou emocionais para disputar espaço na guerra sonora ali", diz.

O Município afirma que, desde 2025, faz reuniões com os artistas e conduziu um projeto-piloto que mapeou locais adequados para apresentações e áreas a serem preservadas, como perto de hospitais.

Artistas de rua 'das antigas', que não utilizam eletrônicos, não sofrem com as novas normas
Artistas de rua 'das antigas', que não utilizam eletrônicos, não sofrem com as novas normas
Foto: Marcio Fernandes/Estadão / Estadão

Diante da regra, parte dos artistas toca a capela, sem amplificação nenhuma. É o caso da Little Beast, banda que decidiu fazer "shows silenciosos": para acompanhar, basta pegar um fone de ouvido emprestado.

Os instrumentos de cada integrante são conectados a uma interface de áudio, e o sinal é distribuído para fones de ouvido. "Nunca pensei que para ficar famoso precisava tocar no silêncio", brinca José Ricardo Martins, co-fundador da Little Beast e baterista do Mentiras Sinceras, que também se apresentou no local.

Foram os movimentos silenciosos do baterista que chamaram a atenção da analista de projetos Caroline Colombo, de 45 anos. "Achei demais! É uma solução muito criativa."

Guilherme Eberhardt, co-fundador da Little Beast, conta que a ideia nasceu como resposta direta à regra. "Quando houve a mudança, achei que estávamos ferrados. Até que pensei: 'a gente não tocava com fone e gravava no nosso estúdio? É a mesma coisa, só que na rua'", conta. O sucesso foi tão grande que eles viralizaram nas redes sociais no primeiro fim de semana.

Há também um projeto em criação de uma rádio online com a programação ao vivo das bandas que estiverem tocando na Paulista - ideia que serve tanto quem deseja passear pela Paulista quanto os que preferem escutar com os próprios fones.

Estadão
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