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RS: segurança da Kiss diz que errou a saída no dia da tragédia

Rapaz contou que entrou por engano no banheiro porque era a única luz que ele enxergava

19 set 2013 19h17
| atualizado às 21h27
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Pablo Ricardo Pacheco atuava pela primeira vez como segurança da Kiss, a serviço de uma empresa terceirizada
Pablo Ricardo Pacheco atuava pela primeira vez como segurança da Kiss, a serviço de uma empresa terceirizada
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Nem um segurança da Boate Kiss escapou de errar a direção da saída no dia da tragédia que causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas em Santa Maria (RS). A declaração foi dada nesta quinta-feira, em mais um dia de depoimentos no processo criminal sobre o caso, no fórum da cidade.

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Para a tarde de hoje, estavam previstos mais quatro depoimentos de vítimas, mas apenas três compareceram ao fórum. A primeira delas foi Pablo Ricardo Pacheco, que, no dia 27 de janeiro deste ano, atuava pela primeira vez como segurança da Kiss, a serviço de uma empresa terceirizada. Pablo já frequentava a boate antes de trabalhar lá e, na visão dele, a política da casa era a de “quanto mais gente (entrar), melhor”, pois seria sinônimo de mais lucros para os donos.

Na hora do tumulto, depois que o incêndio começou, Pablo diz que ficou nervoso e, apesar de conhecer a boate, saiu em direção à única luz que enxergava. Na verdade, era o banheiro masculino, perto da saída. “Tinha muita gente lá dentro”, comentou o segurança.

Pablo relatou ainda que, depois de fazer muito esforço, conseguiu sair do banheiro. Porém, na confusão, acabou caindo no chão, no hall de entrada da Kiss. “A fumaça era muito forte, o pessoal vinha trombando. Quase desmaiei. E ali eu fiquei. Só consegui sair porque me tiraram dali”, relembrou o segurança, acrescentando que, quando estava no chão, foi atingido por jatos de água vindos dos bombeiros.

O segurança não chegou a ver o começo do incêndio. Achou que fosse uma briga e só foi avisado que era fogo por um colega de serviço. Ao entrar no banheiro em busca de uma saída, viu que as pessoas no local ainda estavam vivas, pois, até então, era possível respirar no local. Ele criticou o trabalho dos bombeiros. “Se eles (bombeiros) tivessem entrado ali (no banheiro) para mostrar a direção da saída para as pessoas, mais gente teria se salvado”, analisou Pablo.

Uma curiosidade em relação ao depoimento do segurança na tarde desta quinta é que ele mudou parte de sua versão em relação ao que havia dito à Polícia Civil. No inquérito, ele relatou que trabalhava para a empresa de segurança terceirizada desde o dia 31 de dezembro de 2012 e com carteira assinada. No fórum, ele contou que era a primeira noite em que trabalhava na Kiss e que não tinha vínculo empregatício formal. O rapaz falou que, durante o inquérito, distorceu esses fatos a pedido do dono da empresa de segurança, que o procurou logo que ele recebeu alta, depois de 18 dias de internação.

O segundo depoimento do dia foi de Douglas Araújo Rissi, que era frequentador da Kiss. Ele disse que, no momento da confusão, a porta entre a pista de dança e o hall da entrada da boate estava fechada. “O pessoal estava batendo, e ninguém abria. Acredito que tinha alguém do outro lado impedindo a porta de ser aberta”, disse.

Douglas relatou ainda que chegou a ouvir alguém que estava em cima do palco gritar “fogo”, mas não se recorda quem foi nem se o aviso veio pelo microfone. Mais adiante, ele confirmou o que havia dito à Polícia Civil: que o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, foi quem fez o alerta sobre o fogo, falando ao microfone.

Assim como outras vítimas relataram em depoimentos anteriores, o jovem falou que havia um táxi estacionado bem em frente à boate e que esse veículo também atrapalhou a saída das pessoas.

O último depoimento desta quinta foi o de Jéssica Montardo Rosado, que estava bem em frente ao palco quando o fogo começou. Ela também contou que o vocalista da Gurizada Fandangueira avisou sobre o incêndio no microfone.

Jéssica relatou que não teve muitas dificuldades para sair da boate, pois ainda era possível ver que as luzes estavam ligadas. “Só escureceu quando eu cheguei na porta (de saída)”, contou. Ela chorou ao lembrar que foi barrada ao tentar voltar à boate para tentar encontrar seu irmão, Vinícius Montardo Rosado, que morreu na tragédia aos 26 anos. Ele saiu e entrou na Kiss várias vezes para resgatar pessoas, mas Jéssica só ficou sabendo disso depois. O pai de Jéssica e Vinícius, Ogier Rosado, acompanhou o depoimento da filha e também se emocionou.

O último depoimento do dia deveria ser o de Fabiano Lopes dos Santos, que atuava como porteiro da Kiss, mas ele não foi localizado. Uma nova intimação deve ser feita para tentar encaixá-lo nas demais audiências deste mês.

Em Santa Maria, estão previstos mais depoimentos de vítimas na próxima semana, nos dias 24, 25, 26 e 27 de setembro. Haverá também audiências para ouvir vítimas nas cidades gaúchas de Uruguaiana, Horizontina, Passo Fundo, Quaraí e Caxias do Sul. O juiz Ulysses Fonseca Louzada já manifestou a intenção de ir a todas elas. A vítima que daria depoimento em Rosário do Sul (RS) se mudou para Santa Maria e deve ser ouvida nessa cidade.

Além do vocalista da Gurizada Fandangueira, respondem ao processo criminal pelas 242 mortes e os mais de 600 feridos os sócios da Kiss, Mauro Hoffmann, o Maurinho, e Elissandro Spohr, o Kiko, e o roadie da banda, Luciano Bonilha Leão. Eles são acusados por homicídios qualificados com dolo eventual (doloso) e tentativas de homicídio qualificado. Apenas Marcelo de Jesus dos Santos compareceu à audiência desta quinta-feira. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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