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Tragédia em Santa Maria

RS: mãe que perdeu 2 filhos na tragédia da Kiss recebe casa nova

Dona Elaine ganhou nesta quarta-feira uma residência do programa 'Domingo Legal'

8 mai 2013 - 20h05
(atualizado às 20h28)
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<p>Dona Elaine ganhou nesta quarta-feira uma casa do programa 'Domingo Legal'. Ela perdeu os dois filhos, Deivis Marques Gonçalves e Gustavo Marques Gonçalves, na tragédia da Boate Kiss</p>
Dona Elaine ganhou nesta quarta-feira uma casa do programa 'Domingo Legal'. Ela perdeu os dois filhos, Deivis Marques Gonçalves e Gustavo Marques Gonçalves, na tragédia da Boate Kiss
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Às 13h18 desta quarta-feira, quando foram abertas as cortinas azuis colocadas pela produção do programa Domingo Legal, do SBT, dona Elaine Gonçalves, 61 anos, abriu um largo sorriso ao ver sua nova casa. Depois de 18 dias de trabalho, a residência foi entregue pelo apresentador Celso Portiolli à mãe de Deivis Marques Gonçalves, 33 anos, e Gustavo Marques Gonçalves, 25, que morreram na tragédia da Boate Kiss. 

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Das primeiras horas da manhã e até o início da tarde, a rua Reginaldo Gomes Ferro, no bairro Perpétuo Socorro, ficou fechada para o trânsito, com a ajuda da Guarda Municipal. Ao redor da casa, grades foram colocadas para isolar o cenário do quadro Construindo um Sonho. Enquanto a residência não era entregue, músicos de Santa Maria animavam o público sobre um carro de som. Entre eles, estavam Beto Pires, Pylla e João Chagas Leite, que cantaram a nova versão de Santa Maria, hino informal da cidade, pelo menos três vezes. 

Centenas de pessoas se aglomeraram para ver de perto o apresentador Celso Portiolli. Antes de ele aparecer, as assistentes de palco do Domingo Legal, Bruna Manzon e Diana Oliveira, fizeram a alegria do público. Elas chegaram na frente da casa de dona Elaine por volta das 10h15 e deram autógrafos e tiraram muitas fotos. 

Para Bruna, que é santa-mariense, a entrega da casa tinha um significado especial, pois ela teve uma influência fundamental para que o sonho acontecesse. Tudo começou com uma publicação no Facebook  feito pelo estudante de Publicidade e Propaganda Eduardo Monteiro, 20 anos, vizinho e amigo de infância de Deivis e Gustavo, que nesta quarta-feira viu de perto a entrega da casa. 

No dia 29 de janeiro, logo após a confirmação da morte do Gustavo, Eduardo, sua irmã e seu irmão decidiram fazer uma carta e compartilhar no Facebook. O texto teve mais de 100 mil compartilhamentos e acabou chegando a Bruna Manzon. 

“O Eduardo (Monteiro) me enviou o texto por e-mail. Eu imprimi e mostrei para o Celso (Portiolli). Se ele topasse a ideia, sabia que haveria chance. Mas sempre fiquei com poucas esperanças, porque o quadro não costuma sair de São Paulo, seria uma logística imensa. No fim, com a ajuda dos patrocinadores, deu tudo certo. Estou muito feliz por poder realizar esse sonho na minha cidade”, disse Bruna, que disse ter chorado por vários dias por causa da tragédia. 

O pai de Bruna, o comerciante Bento Manzon, também teve um papel decisivo para o sucesso da ideia, pois ficou responsável pelos contatos com empresas locais para conseguir materiais necessários para a obra, como concreto. “É por uma boa causa, a gente tinha que ajudar no que fosse possível”, afirma Manzon.

Celso Portiolli apareceu por volta das 10h45. Ele saudou o público no microfone rapidamente e pediu para todos terem paciência, pois a equipe do programa precisava aguardar a chegada de patrocinadores. Ele só voltou a ter contato com as pessoas pouco antes das 13h. A essa altura, os músicos já tinham ido embora, depois de executar o Hino Riograndense.

Grandes cortinas azuis esconderam a casa pouco antes do meio-dia, para não estragar a supresa de dona Elaine, que chegou às 13h05 na frente de sua casa, com a filha Daniela. Enquanto a nova residência era construída, as duas ficaram em um hotel fazenda em Campinas (SP). No aguardo, estavam também o filho Jean Marques Gonçalves, a nora, Simone, e a netinha Julia. “Queremos que ela seja feliz no cantinho dela. Ela sabe que os guris (Deivis e Gustavo) estão bem. Agora, é vida pra frente”, declarou Jean. 

Logo que chegou, dona Elaine teve o nome gritado pelo público. Depois que as cortinas se abriram, o sorriso não saiu mais do rosto dela. “Tanta vez eu chorei assistindo o programa e chorei vendo as pessoas receberem suas casas. Chegou a minha vez”, discursou Elaine. Daniela também estava radiante. Disse que lembrou muitas vezes dos irmãos que morreram na tragédia enquanto esteve em Campinas. “Aquela tristeza enorme passou”, sentenciou a irmã de Deivis e Gustavo. 

Vida nova em novo lar

A primeira coisa que dona Elaine fez no novo lar foi se sentar com Daniela em um banco no jardim da frente da casa, feito especialmente para ela tomar chimarrão. Depois, ela entrou na casa para conhecê-la  com Celso Portiolli. De acordo com Elaine, a residência anterior era um “atestado de pobreza” e estava “muito feinha”.

A casa em que dona Elaine morava com a filha, Daniela, começou a ser demolida em 18 de abril. A construção do novo lar, com 103 metros quadrados de área construída, teve início no dia 21 e terminou na terça-feira. A residência nova foi entregue com dois quartos - um com suíte -, uma ampla sala, um home office e até um fogo de chão nos fundos. Destaque também para uma cozinha grande, para que dona Elaine siga produzindo os salgados que costuma vender. Junto ao local de preparo dos alimentos, foi colocado um balcão ao estilo das cozinhas americanas, onde ela poderá fazer as refeições e fabricar as massas.

A exibição do “Construindo um Sonho” de Santa Maria terá uma amostra no Domingo Legal do próximo domingo, Dia das Mães. No dia 19, deve ser exibida a surpresa de dona Elaine ao receber a notícia de que sua casa iria ser reformada e a obra. A entrega da casa deve ser mostrada no dia 26 pelo SBT. 

Coordenados pelo engenheiro Jeferson Araujo - que já fez cerca de 30 casas para o Domingo Legal -, uma equipe de aproximadamente 25 pessoas executou a residência nova. 

A casa nova não tem janelas em sua frente. Isso ocorre porque as duas arquitetas responsáveis pelo projeto observaram a incidência solar. Por isso, o sol vai entrar pelo lado direito da casa em boa parte do dia, pelas chamadas “portas balcão”. Até mesmo as particularidades do Estado foram levadas em conta. Inicialmente, a casa tinha sido planejada para ser azul. Mas a rivalidade Gre-Nal fez a equipe mudar os planos, e a residência ficou verde.  

A logística para a empreitada é totalmente planejada. Antes de começar a obra, foi alugado um ônibus para levar a equipe de trabalho, ferramentas e colchões, tde São Paulo a Santa Maria. 

Indiretamente, mais de 300 pessoas estão envolvidas no “Construindo um Sonho”, incluindo funcionários das concessionárias de luz e água e da prefeitura. Todas as licenças necessárias foram providenciadas dois meses antes de a obra começar. 

“Só temos a agradecer a bondade de todas as pessoas de Santa Maria. É um povo diferente, muito acolhedor. Apesar do cenário de guerra que virou a rua, os vizinhos abraçaram a ideia, nos apoiaram. Adoramos tudo”, conta o engenheiro Jeferson Araujo. 

Exemplo do acolhimento que a equipe teve na cidade, im vizinho de dona Elaine, mesmo sem conhecer direito a equipe responsável pela construção, emprestou parte de sua casa para que fosse feito um refeitório e um depósito de materiais.

Incêndio na Boate Kiss

Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos

Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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