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RS: bombeiros desistiram das pessoas, diz sobrevivente da tragédia da Kiss

Barman contou que chegou a ouvir a respiração de uma pessoa na área VIP da casa noturna, mas que foi impedido de voltar para resgatá-la

17 jul 2013
21h35
atualizado às 21h47
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Em depoimento no processo criminal da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), nesta quarta-feira, o barman e serviços-gerais da boate, Érico Paulus Garcia Boa, afirmou que os bombeiros “desistiram das pessoas” após resgatar algumas vítimas.

Barman mostra pontos onde resgatou vítimas durante o incêndio
Barman mostra pontos onde resgatou vítimas durante o incêndio
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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Parte do depoimento de Érico foi dedicado ao que aconteceu depois do início do fogo. Ele relatou que conseguiu sair, mas voltou à boate para retirar pessoas lá de dentro. “Eu, mais três seguranças e quatro rapazes entramos para puxar as pessoas. Eu não vi bombeiros entrando. Eles só entravam para jogar água. Acho que a gente conseguiu retirar mais de 100 pessoas”, descreveu o barman, que ainda comentou que táxis estacionados bem em frente à casa noturna atrapalharam a saída da Kiss. “Teriam conseguido sair mais 100 pessoas se não fossem os táxis.”

Cerca de uma hora depois do início do incêndio, Érico contou que seguia entrando na boate para resgatar pessoas, com uma lanterna emprestada por um policial do Batalhão de Operações Especiais (BOE) da Brigada Militar. O barman disse que foi até a área VIP da casa noturna e ouviu a respiração ofegante de um rapaz. Érico passou mal e foi para o lado de fora. Cerca de 10 minutos depois, tentou retornar, mas foi impedido pelos bombeiros, por volta das 4h30. “Eles disseram que quem estava lá dentro estava morto. No meu entender, os bombeiros desistiram das pessoas”, falou Érico.

O barman ainda participou da retirada dos corpos, cerca de duas horas depois que os bombeiros e os policiais militares haviam trancado a passagem. Ele descreveu que a operação consistia em entrar na casa noturna de quatro em quatro pessoas, carregar uma vítima pelos braços e pelas pernas e colocá-la no baú de um caminhão. 

Segundo ele, nenhum médico teria verificado se elas estavam mortas. Érico contou ainda que a maior quantidade de mortos estava nos banheiros e na cozinha. Um dos guichês dos caixas estava com o vidro quebrado e com várias vítimas dentro.

As descrições do barman provocaram o interesse do juiz Ulysses Fonseca Louzada, do promotor Joel Oliveira Dutra e dos advogados presentes na audiência. Por isso, todos se reuniram em frente ao magistrado para ver as indicações de Érico em um croqui com a planta da boate, onde ele indicou onde resgatou as pessoas que saíam com vida e onde estavam os corpos.  

O barman contou também que instalou a espuma inflamável e tóxica acima e atrás do palco, a pedido de Elissandro Spohr, o Kiko, dono da boate e réu no processo. Outros dois funcionários que participaram da operação morreram em função do incêndio: João Aloísio Treulieb e Rogério Cardoso Ivaniski. “O Kiko só disse para a gente colar, como e onde colar. Quando a gente chegou  (para trabalhar), a espuma já estava lá para a gente colocar”, declarou Érico.

Réu avisou que boate iria ‘lotar muito’ na noite da tragédia
Depois de um intervalo para o almoço após o depoimento do barman, o primeiro a falar, à tarde vieram primeiro os depoimentos de duas frequentadoras da Kiss: Tamiris Slongo Pass e Michele Pereira dos Santos.

A curiosidade em relação à Michele é que ela tinha guardado a troca de mensagens pelo celular com Kiko Spohr, no dia 26 de janeiro deste ano, véspera da tragédia. A cliente da boate tinha pedido cortesias para o dono da boate. Ele respondeu que sim, mas orientou Michele e a amiga que ia com ela, que morreu, a chegarem cedo, pois a casa iria “lotar muito”.

O último depoimento do dia foi de Luismar da Rosa Model, que trabalhava como barman na boate desde o Natal de 2010. Ele relatou que, ao tentar sair da Kiss na madrugada do incêndio, percebeu que muitas pessoas caminhavam na direção contrária à saída e que pisou em alguns que já estavam no chão.

Luismar disse que a boate passou por várias reformas desde que ele começou a trabalhar lá, e relatou ainda que, depois que Mauro Hoffmann, que também é réu no processo criminal, entrou como sócio da Kiss, em 2012, levou para trabalhar na casa noturna, como uma pessoas de confiança dele, João Treulieb, que era uma espécie de subgerente e responsável pelas bebidas.

Mensagem enviada por Kiko avisando sobre a lotação da boate na noite da tragédia
Mensagem enviada por Kiko avisando sobre a lotação da boate na noite da tragédia
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Sobre a operação de resgate do Corpo de Bombeiros, Luismar relatou que havia homens da corporação sem máscara ou capacete. “Eles passaram mal e alguns tiveram que receber ajudar de quem estava por perto”, contou.

Para esta quarta-feira estavam também previstos os depoimentos de mais dois ex-funcionários da Kiss: a caixa Michele Baptista da Rosa Schneid e o segurança terceirizado Adalberto da Costa Dias. Porém, eles serão ouvidos em outro dia. Michele estava viajando e só retornaria na noite de hoje. Adalberto não foi localizado.

Advogados discutem
A discussão do dia, mais uma vez, foi protagonizada pelos advogados Jader Marques, que defende Elissandro Spohr, e Jonas Espig Stecca, que é assistente de acusação representando a Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). Jader já tinha feito um protesto contra a atuação de Jonas, pelo fato de várias testemunhas terem relatado que tiveram reunião com o advogado da AVTSM e que haviam recebido dele cópia do depoimento dado à Polícia Civil. Para o representante de Kiko Spohr, essa atitude prejudicava o processo, pois tirava a “espontaneidade” dos depoimentos das vítimas.

O embate, repetido em inúmeros depoimentos, consistia em Jader perguntar a vítimas se elas tiveram um encontro com Jonas no escritório dele e se tinham recebido cópia do depoimento dado a Polícia Civil. Do outro lado, o assistente de acusação perguntava às vítimas com quem havia conversado antes se tinha dado a elas alguma orientação a respeito do que deveriam falar na Justiça.

O promotor Joel Oliveira Dutra interviu e fez um requerimento ao juiz, pedindo que ele se posicionasse a respeito das perguntas feitas por Jader a respeito da atuação do advogado da AVTSM. O magistrado decidiu, então, que o defensor de Kiko deveria se limitar a questionar as vítimas se elas tiverem encontros com Jonas e nada mais.

Ainda na linha de disputa pessoal com Jader, Jonas fez um requerimento pedindo que o advogado de Kiko forneça o endereço em que está morando Ricardo de Castro Pasch, cunhado de Elissandro Spohr e ex-gerente da boate. Na terça-feira, Jader forneceu um endereço para Pasch ser intimado a respeito de seu depoimento, mas se tratava do local onde fica o escritório do advogado em Porto Alegre.

No último ato da audiência, o juiz Ulysses Fonseca Louzada pediu a Jader Marques que forneça o endereço de 23 das 48 vítimas listadas pelo advogado para serem ouvidas. “Acredito na boa fé do Ministério Público. Valho-me da denúncia para indicar essas pessoas. Não acredito que façam parte da denúncia pessoas que o MP não tenha o endereço”, respondeu Jader.

A próxima audiência para ouvir vítimas está marcada para o dia 23 de julho, a partir das 9h30. Inicialmente, estavam previstos os depoimentos de seis pessoas, mas uma foi retirada por ter sido listada pelo assistente de acusação Jonas Espig Stecca. Após um habeas corpus impetrado por Jader Marques, todas as vítimas arroladas pelo advogado da AVTSM foram anuladas pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS).

Sobre os pedidos feitos na quarta-feira pelo advogado Omar Obregon, que defende o vocalista da Gurizada Fandangueira, para que sejam ouvidos o prefeito de Santa Maria, Cexzar Schirmer (PMDB), o deputado estadual Jorge Pozzobom (PSDB) e o promotor Ricardo Lozza, eles estão sob a análise do promotor Joel Oliveira Dutra. Depois que ele se manifestar, o juiz dará uma resposta para as solicitações.  

Além de Mauro e Kiko, respondem ao processo pelas 242 mortes e os mais de 600 feridos os dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, o vocalista, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor de palco Luciano Bonilha Leão. Os quatro estão em liberdade. Somente Marcelo e Luciano têm ido acompanhar as audiências no Salão do Tribunal do Júri, no Fórum de Santa Maria. Os quatro são acusados por homicídios qualificados por dolo eventual e tentativas de homicídio qualificado.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra

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