Todos os caminhos de São Paulo levam a Interlagos: quantas placas de localização do autódromo existem na capital?
Quantidade e localização curiosa das placas viraram motivo de piada entre quem passa pela capital
No extremo leste de São Paulo, na Avenida Jacu-Pêssego, é possível encontrar uma placa que indica o Autódromo de Interlagos. No entanto, o ponto turístico se localiza a mais de 40 km de distância. O mesmo ocorre em diversos pontos da capital, dando fôlego para uma realidade que já se tornou lenda urbana paulistana e até fantasia de carnaval.
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A Prefeitura de São Paulo instalou 421 placas relacionadas ao Autódromo de Interlagos, número que inclui sinalização de orientação, apoio, regulamentação e remanejamentos. Destas, 286 são especificamente de orientação turística, dentro de um universo total de 2.725 placas turísticas espalhadas pela cidade.
Kkkkkk vsf na moral 🤣 paulistanos entenderão rs pic.twitter.com/BZW4YREoGD
— Caio Cezar, especialista em F200🍁 (@caiocezar420) February 18, 2026
O que chama atenção, no entanto, não é apenas o volume, mas a distribuição. Há placas indicando o caminho para o autódromo em pontos pouco intuitivos para quem pensa em um trajeto direto até a Zona Sul. No extremo da Zona Leste, por exemplo, avenidas como a Jacu-Pêssego, em São Miguel Paulista, e a Marechal Tito, no Itaim Paulista, concentram cerca de 42 placas que "capturam" motoristas vindos das rodovias Ayrton Senna e Dutra.
Mais adiante, a Radial Leste, na altura de Itaquera, funciona como um verdadeiro ponto de distribuição: são 32 placas apenas nesse eixo.
O padrão se repete em outras regiões. A Marginal Tietê, principal corredor de travessia da cidade, concentra 76 unidades, tornando-se o maior eixo de orientação. Já avenidas como Aricanduva e Salim Farah Maluf somam mais de 50 placas.
em sp vc tem duas certezas: vc vai encontrar um onibus pq dom pedro e uma placa indicando o autódromo de interlagos nao importa onde vc esteja
— kami (@bodyznatchers) December 25, 2024
Mesmo áreas centrais e simbólicas, como o corredor 23 de Maio-Prestes Maia-Tiradentes, contam com sinalização dedicada. Até a Avenida Paulista, um dos cartões-postais da cidade, tem indicação para o autódromo em seu cruzamento com a 23 de Maio.
Na aproximação final, o volume se intensifica. Só na Avenida Interlagos, a cerca de dois quilômetros do destino, há 60 placas de sinalização, concentrando o fluxo nos dias de grandes eventos.
Conforme o Terra apurou, o investimento total para implantação desse sistema foi de aproximadamente R$ 2,53 milhões, podendo chegar a R$ 2,59 milhões ao considerar custos complementares. O valor médio por placa gira em torno de R$ 6.023, incluindo fabricação, estrutura e instalação.
A maior parte das placas foi instalada em apenas três meses, no segundo semestre de 2023. Agosto concentrou o pico da operação, com 262 placas, mais de 60% do total. A época antecedeu grandes eventos como a primeira edição do The Town e o GP de São Paulo.
Procurada pela reportagem, a Prefeitura afirma ser uma estratégia. Segundo a gestão municipal, o Autódromo de Interlagos é um dos principais polos de eventos da cidade, recebendo não apenas o público local, mas visitantes de outras regiões do país e do exterior.
A lógica, diz a administração, é orientar motoristas desde os principais eixos de entrada -- como marginais e grandes avenidas -- até os portões do autódromo.
Ainda assim, a presença de placas em locais considerados "curiosos", como vias distantes ou fora de trajetos diretos, alimenta a sensação de exagero, ou, no mínimo, de uma estratégia pouco transparente para quem circula pela cidade no dia a dia.
Para o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAUUSP) Valter Caldana, a resposta sobre a efetividade dessa estratégia não é simples e passa menos pela função prática e mais pelo papel simbólico da sinalização urbana.
"Outro dia eu recebi uma brincadeira de que um cara estava saindo de Recife e tinha uma placa indicando Autódromo de Interlagos", afirmou entre risos.
Segundo ele, há, sim, um aspecto positivo. "O sistema de informações de uma cidade é essencial para a construção do sentimento de pertencimento. Quando você coloca uma placa em São Miguel Paulista indicando o caminho para Interlagos, você está lembrando o morador de que ele faz parte da mesma cidade", explica.
"Ninguém vai parar um Uber e dizer 'segue a placa'. Mas ela ajuda a pessoa a conhecer a cidade, a se localizar simbolicamente dentro dela".
Caldana, porém, defende que a política poderia ser mais equilibrada e melhor explorada. Ele lembra que São Paulo já teve um sistema mais amplo de identificação turística, com as chamadas placas de Zona de Interesse Turístico (ZIT), hoje pouco valorizadas. "Isso foi descontinuado ou perdeu força. E aí chega num ponto em que vira até brincadeira", diz.
Ao contrário da crença popular, a solução não seria reduzir a quantidade de placas. Para o especialista, o problema está na concentração em um único destino.
"Não é diminuir, é aumentar, mas diversificar. São Paulo tem dezenas de polos de turismo de negócios e lazer, senão centenas. Estádios, centros de exposição, equipamentos culturais. Tudo isso poderia estar melhor sinalizado", afirma.