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Sábado tem bares cheios, mas fechamento às 17h desagrada

Embora o movimento tivesse sido bom, a limitação de horário gerou reclamações de proprietários e clientes; fiscalização da prefeitura recolheu bancos e mesas que estavam na calçada

11 jul 2020
19h56
atualizado às 20h08
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A feijoada tradicional de sábado e o chope gelado (ou a salada e o suco, ao gosto do freguês) tiveram de ser interrompidos pontualmente às 17h, de acordo com o limite de funcionamento para bares e restaurantes estabelecido pelo protocolo municipal para reabertura do setor.

Bar e restaurante Cachaça e Cia, na Rua dos Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
Bar e restaurante Cachaça e Cia, na Rua dos Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
Foto: Tiago Queiroz / Estadão Conteúdo

Embora o movimento tivesse sido bom, principalmente na zona oeste, a limitação de horário gerou reclamações de proprietários e clientes no primeiro sábado após a reabertura. Bares cheios, mas com a obrigação de fechar cedo. Na Pompeia, a fiscalização da prefeitura recolheu bancos e mesas que estavam na calçada, o que é proibido.

Por conta do horário, permitido entre 11h e 17h, muitos clientes tiveram de mudar seus hábitos para poder retornar aos bares e restaurantes depois de aproximadamente 120 dias - a reabertura foi permitida na segunda-feira. A empresária Claudia Pessoa, de 51 anos, por exemplo, combinou com os amigos às 13h30, mas só ela cumpriu o horário. "A gente tem de chegar mais cedo para tentar aproveitar um pouco. As cinco horas, quando muita gente está chegando, o bar vai fechar", diz Claudia. "Mesmo assim, foi bom voltar. Estava com saudade", completou.

Os bares começaram a fechar as contas de todas as mesas às 16h30. Quinze minutos depois, as pessoas começaram a ir embora. "Acredito que, com todo esse protocolo de segurança, os bares poderiam ficar abertos até mais tarde. Fechar as 17h é muito ruim. O horário poderia se estender", diz a professora Roberta Falveno Di Nizo, de 38 anos.

Os representantes dos bares também concordam. Humberto Munhoz, sócio proprietário do bar O Pasquim, um dos endereços mais procurados neste sábado na Vila Madalena, afirma que, ao longo da semana, conseguiu faturar apenas entre 6% e 8% do que seria seu faturamento no horário integral. "A limitação de horário até 17h não tem grandes impactos na saúde das pessoas, as medidas de proteção continuam a ser seguidas, mas tem enorme impacto econômico", argumenta o gerente.

"É mais caro abrir parcialmente do que manter o restaurante fechado", avalia o empresário Cairê Aoas, sócio da Fábrica de Bares, empresa que administra dez casas em São Paulo, mas que decidiu reabrir apenas uma por enquanto. "Quando estava fechado, o proprietário conseguia negociar com fornecedores. Agora, com a reabertura, começam as cobranças e os gastos fixos, como água e luz, são retomados", esclarece.

Questionada pelo Estado sobre o tema, a prefeitura de São Paulo informa que, "para que a reabertura continue de maneira segura, promovendo distanciamento social, foi definido um protocolo detalhado para a retomada das atividades de bares e restaurantes, estabelecido em comum acordo com as entidades representativas", disse nota do poder municipal.

Como oEstadãorelatou ao longo da semana, as medidas de prevenção já foram incorporadas pela maioria dos estabelecimentos. Funcionários com escudo de proteção oferecem álcool em gel na porta, aferem a temperatura e aumentam a distância entre as mesas.

Isso em praticamente todas as casas. O uso obrigatório de máscaras, com exceção do momento da refeição, também foi observado com frequência. Nem existe mais o contato manual com o cardápio. Por meio de um QR-code, o cliente escolhem seu pedido pela tela do celular.

Mas surgiram imprevistos. O Porto Madalena, também na zona oeste, não estava medindo dos clientes a temperatura na entrada por volta das 13h. "O termômetro quebrou e o técnico vai demorar um pouco para chegar", explicou, preocupada, a gerente financeira Andrea Viena. Os clientes não se importaram e entraram mesmo assim para ocupar uma das 14 mesas disponíveis.

Mesa na calçada

A reabertura provocou uma mudança significativa na "cara" dos bares. Para evitar aglomerações, o protocolo proíbe a utilização de mesas nas calçadas. Com isso, todos devem comer e beber dentro dos estabelecimentos. Não é permitido beber em pé nas calçadas, cena comum antes da pandemia. A paisagem urbana do lazer nos bares mudou. "Essa é uma limitação de espaço importante. Ficamos restritos. O uso da calçada faz parte da cultura dos bares aqui em São Paulo", avalia Flavio Pires, de 55 anos, proprietário do Seu Domingos, bar localizado, nas esquinas das ruas Aspicuelta e Fidalga, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Realmente foi estranho perceber a entrada do Pirajá, endereço da avenida Faria Lima inspirado nos botecos cariocas, sem nenhuma mesa na calçada, sob a árvore frondosa que se tornou sua marca registrada - antes da pandemia, um lugar debaixo daquela sombra era bastante disputado. No salão, todas as mesas estavam ocupadas, mas sem o mesmo charme.

Fiscalização

O primeiro sábado após a reabertura foi de fiscalização intensa da prefeitura. Alguns bares não respeitaram as normas e acabaram autuados. No bar 224, localizado na Pompeia, região recebeu grande volume de clientes, os fiscais recolheram bancos e mesas que estavam na calçada da avenida Desembargador do Vale, próximo à rua Tucuna, depois das 17h.

A manobra teve auxílio da Polícia Militar. Nas ruas da Vila Madalena, pelo menos quatro fiscais ocupavam os principais quarteirões, além de viaturas da Guarda Civil Metropolitana espalhadas pelo bairro. Ali, não houve apreensões no final do dia, mas a presença intimidou alguns clientes. "Eles ficam olhando como se estivéssemos fazendo algo errado. Não estamos", reclamou a biomédica Gisele Roque, de 52 anos.

Embora a zona oeste tinha atraído bom movimento, outras regiões tiveram expectativas frustradas, como na região da Consolação. As calçadas da rua Augusta, normalmente apinhadas, estavam desertas. Bares como o Violeta e as duas unidades do Athenas não sentiram falta de suas mesas das calçadas. No meio da tarde, o Violeta tinha apenas três mesas ocupadas. "O movimento foi menor do que nós esperávamos. Não tivemos filas ou aglomerações. Neste primeiro momento, as mesas na calçada não fizeram falta", explica Eden Oliveira, gerente do Athenas Restaurante, na rua Augusta.

Na região central, alguns endereços tradicionais nem abriram, como o Bar Brahma, que deve retomar suas atividades apenas no dia 13. As razões são econômicas, aquelas citadas por Cairê Aoas. O funcionamento do local é prioritariamente noturno.

Outros locais transformaram a reabertura em um acerto de contas com sua própria história, resgatando os laços afetivos que unem os dois lados do balcão. Foi o caso do Bar Léo, localizado na esquina das ruas Aurora e Andradas. Frequentador do bar há 50 anos, o advogado Manuel Paredes, de 74 anos, retornou ontem ao local onde gosta de tomar seu chope com três dedos de colarinho - ali, ele custa R$ 9,40.

"Todos os dias, eu passava para ver se estava aberto. É o local onde gosto de esperar o trânsito diminuir e encontrar os amigos. Fiquei emocionado quando vi que ele estava de volta", diz o advogado.

Para celebrar seus 80 anos de funcionamento, os funcionários instalaram balões coloridos na entrada para receber os clientes - agora só são permitidos 50. No final do dia, a equipe soltou os balões, juntamente com mensagens escritas pelos frequentadores, novos e antigos, que estiveram lá neste sábado de sol. Foi um ato simbólico para celebrar a alegria de reabrir as portas.

 

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