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"Quantas famílias terão de sofrer essa perda pela polícia?"

Mãe de João Pedro, morto após operação em São Gonçalo, no Rio, reclama de impunidade

16 jul 2021 05h10
| atualizado às 07h19
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João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, cumpria isolamento social em casa, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, quando policiais federais e civis, em 18 de maio de 2020, invadiram o imóvel, disparando. Sem nenhum envolvimento criminal e desarmado, o garoto foi atingido por um tiro de fuzil na barriga. Levado de helicóptero, não resistiu ao ferimento e morreu. As duas polícias alegaram a mesma coisa: estariam perseguindo seguranças de um traficante, que pularam o muro de uma residência. Os criminosos teriam feito disparos e jogado granadas nos policiais.

O jovem João Pedro morreu aos 14 anos, durante uma operação da Polícia Civil e da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro, na segunda-feira (18)
O jovem João Pedro morreu aos 14 anos, durante uma operação da Polícia Civil e da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro, na segunda-feira (18)
Foto: Reprodução Facebook

"João Pedro não foi o último", diz Rafaela Mattos, mãe de João Pedro. "Após o caso dele, muitos outros aconteceram. É muito difícil, porque tenho uma filha de cinco anos e não sei o que dizer para ela em relação à Polícia. Ela sempre me faz muitas perguntas, e uma delas é 'Por que a polícia matou meu irmão, mamãe?'. E como você vai explicar para uma criança de cinco anos que aquela Polícia que deveria proteger, zelar, garantir a vida, os direitos humanos, não faz isso? Ela mata, atira num adolescente de 14 anos."

Com ampla repercussão dentro e fora do País, a morte foi considerada um episódio crucial para a liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, um mês depois. A medida suspendeu as operações policiais em comunidades no Rio. As exceções devem ser justificadas e notificadas ao Ministério Público.

O caso do menino se deu no mesmo mês em que o americano George Floyd morreu sufocado por um policial, que, com o joelho sobre o pescoço, sufocou a vítima, nos Estados Unidos. Esse crime, filmada por celular, levou milhares de cidadãos daquele país às ruas, em protestos contra as mortes de negros por policiais nos EUA. Sua palavra de ordem era: "vidas negras importam".

Rafaela diz que o filho era um menino cheio de sonhos e apaixonado pelos estudos. Ela critica o que chama de "guerra" vivida no Rio, que parece não ter fim. "Todas as vezes que o Estado mata, a gente vive essa constante guerra: o Estado mata e a impunidade continua, a polícia mata e o caso continua sem solução. Quantos mais vão ter que morrer? Quantas famílias mais terão que sofrer essa perda pela Polícia que deveria proteger?", questiona.

Estadão
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