Presídio feminino do Recife celebra união homoafetiva coletiva
- Celso Calheiros
- Direto de Recife
A noite desta quinta-feira foi especial para a Colônia Penal Feminina do Bom Pastor, no Recife (PE). Pela primeira vez em uma unidade prisional no Brasil, foi realizada uma união estável coletiva com 14 casais, sendo sete homoafetivos e sete formados por heterossexuais. O livro do Tabelionato Paulo Guerra recebeu a assinatura de 22 detentas e de seis civis que não respondem a processos.
A cerimônia contou com autoridades, bênção ecumênica, forte presença da imprensa e discurso emocionado da noiva Priscila Teixeira dos Santos. "Coração é terra de ninguém, gente. Quem manda no amor?", perguntou, antes de bradar: "Abaixo a homofobia. Eu amo a minha mulher". Maria José Barbosa Felipe, ao seu lado, sorria, um pouco nervosa, um pouco tímida.
As histórias de Priscila e Maria José se assemelham à das outras 707 mulheres que aguardam sentença no Bom Pastor. A maioria, cerca de 60%, responde por tráfico de drogas, em geral por venda de crack. São jovens, têm entre 22 e 35 anos, conforme a Secretaria de Ressocialização. A relação homoafetiva não é discriminada entre as internas nas unidades femininas, conta a diretora do Bom Pastor, Alana Couto. "Aqui, cada uma faz o que gosta e ninguém critica."
Entre as detentas que se uniam hoje, algumas usavam vestidos; outras, calças pretas e camisas brancas. Chamavam de "noivos" o segundo grupo, mas elas mesmas consideravam tudo brincadeira. "Somos mulheres. Só que eu não uso vestido de jeito algum", revela Virllany Maria Vital Bezerra, mulher de Ana Paula Teixeira, com quem namora há quatro anos.
A noite nublada com ameaça de chuva não tirou o brilho da história. As flores artesanais e os enfeites que decoravam a mesa das autoridades foram feitos pelas detentas alunas do curso de ornamentação. O som forte de atabaques que anunciaram noivas e noivos também contou com o vigor das alunas do curso de percussão.
Depois dos discursos da secretária especial da mulher do governo do Estado, Cristina Buarque, e da secretária municipal de Direitos Humanos, Amparo Araújo, o momento ecumênico. A yakekerê (pequena mãe) Maria Helena desejou muito axé e pediu a orixá Oxum muito amor a todas e todos. O diácono Tony Barros, da Comunidade Cristã Nova Esperança, disse que a sociedade pode até fechar as portas às mulheres que querem ficar juntas, mas que Deus estaria de braços abertos. "Ele ama cada um como somos".
Livros assinados, fotos tiradas e palmas gerais. Está na hora do bolo para noivas, noivos, familiares e colegas internas. A noite foi diferente, e a rotina, modificada, com a festa começando às 20h, com planos de só acabar às 21h.
Alguns dos casais voltam para a cela, que compartilham, e outros se separam. O auxiliar Tarcísio da Silva vai deixar sua mulher Janaína Barbosa, com a filhinha Tanany, de cinco meses, na Colônia do Bom Pastor e vai dormir em casa. Só retornará a vê-las no encontro íntimo, que nessa unidade ocorre a cada 15 dias em um quarto com banheiro. Os casais, homoafetivos ou heterossexuais, pernoitam juntos, nessa ocasião.