Prefeitura de SP quer conceder Praça Roosevelt por 20 anos e permitir venda do nome do espaço
Projeto prevê requalificação e exploração comercial do estacionamento; coletivo teme que espaço vire o 'novo Anhangabaú'
A Prefeitura de São Paulo abriu consulta pública para conceder à iniciativa privada a gestão da Praça Roosevelt, no centro, por 20 anos. O projeto prevê investimentos em obras de requalificação, manutenção e até a possibilidade de venda dos naming rights, o direito de dar um nome comercial ao local. A proposta preocupa moradores, que temem a repetição de problemas da concessão do Vale do Anhangabaú.
A concessão tem como principal fonte de receita a exploração comercial do estacionamento subterrâneo da praça, com mais de 400 vagas. O potencial de arrecadação é de R$ 3,6 milhões por ano.
Segundo a Prefeitura, a futura concessionária deverá investir cerca de R$ 8 milhões em obras de recuperação e requalificação do complexo. A previsão é de gastar R$ 38 milhões ao longo das duas décadas de contrato com manutenção e operação.
Secretário municipal das Subprefeituras, Fabrício Cobra afirma que o projeto não se resume à praça em si, mas envolve todo o chamado "Complexo Roosevelt".
"A âncora financeira da concessão é a exploração comercial do estacionamento subterrâneo. A partir disso, o concessionário terá obrigações de requalificar a praça, melhorar drenagem, recuperar pergolados, revitalizar quiosques, ampliar áreas verdes, cuidar do belvedere e fazer a manutenção permanente do espaço", afirmou ao Estadão.
A concessionária deverá pagar ao menos R$ 2,9 milhões, de acordo com minuta da prefeitura.
Entre as intervenções previstas estão obras de drenagem, recuperação dos quiosques (hoje desativados), melhorias estruturais no estacionamento e a requalificação da Rua Gravataí, ligação entre a Praça Roosevelt e o Parque Augusta.
A proposta inclui ainda exploração dos naming rights da praça, hipótese que ganhou destaque após a divulgação do edital. Cobra afirma que a discussão ainda está aberta durante a fase de consulta pública, no dia 17 de junho, quarta-feira.
Segundo a Prefeitura, a concessionária não poderá restringir o acesso ao espaço nem fechá-lo, total ou parcialmente, para a realização de eventos. "Não haverá nenhum tipo de mudança para quem frequenta a Roosevelt hoje. Skatistas, artistas, moradores e demais usuários continuarão tendo acesso livre ao espaço."
Mesmo com problemas, praça continua sendo ocupada por skatistas, famílias e ciclistas
A jornalista Denize Bacoccina, que vive em frente à Roosevelt desde 2017, cita problemas estruturais no pergolado, atualmente isolado por grades para evitar acidentes, e o abandono dos dois quiosques que funcionavam como cafés. Os locais chegaram a ser cercados por tapumes, depois retirados.
"A praça realmente está numa situação muito precária em termos de manutenção e conservação. Tem bueiros e ralos entupidos que formam poças d'água que ficam dias após as chuvas", relata.
Mesmo com problemas, a praça continua sendo um dos espaços públicos mais vivos do centro. Skatistas, famílias com crianças e ciclistas são vistos com frequência no espaço nos finais de semana. É justamente esse caráter de ocupação espontânea que preocupa parte dos moradores diante da concessão.
Nas redes sociais, o coletivo Ocupa Roosevelt criticou a proposta e associou o projeto à experiência do Vale do Anhangabaú. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) chegou a anunciar em abril a abertura do processo de encerramento do contrato com a concessionária Viva o Vale, responsável pela administração do Vale do Anhangabaú.
O anúncio ocorreu após a concessionária instalar um estacionamento privado em local que antes era destinado exclusivamente a pedestres. A Viva o Vale informou que foi notificada pela Prefeitura e apresentou a sua manifestação.
Nunes alegou que o pedido de caducidade foi feito devido a uma série de infrações cometidas pela empresa, que levou a Prefeitura a emitir 32 multas que já somam R$ 15 milhões.
"O que pedimos é que as pessoas que vivem, frequentam, trabalham e constroem diariamente a Praça Roosevelt sejam efetivamente ouvidas antes de decisões que possam alterar profundamente sua identidade e sua forma de uso", diz Caroline Sporrer, uma das fundadoras do Coletivo Ocupa Roosevelt (COR), criado há mais de um ano para discutir soluções para os desafios da praça.
De acordo com o coletivo, o edital de concessão estabelece a realização de 36 atividades de interesse coletivo por mês, além de dois grandes eventos mensais promovidos pela concessionária.
"Não há garantia expressa de que essas atividades serão gratuitas, o que levanta dúvidas sobre o acesso da população a essa programação e sobre a preservação do caráter público do espaço", afirma Caroline.
Prefeitura descarta comparação com o Anhangabaú
Questionado sobre as críticas, Cobra rejeita paralelos entre os dois projetos. Segundo ele, a vocação da Praça Roosevelt é distinta da do Vale do Anhangabaú.
"São espaços com características absolutamente diferentes. O Anhangabaú tem um histórico de eventos e uma concessão voltada para esse tipo de ativação. A Praça Roosevelt não é um local de eventos; ela é uma praça, um ponto de conexão entre a Baixa Augusta e o centro", afirmou.
O secretário diz que os moradores podem ficar tranquilos quanto à preservação do acesso público e sustenta que a concessão permitirá recuperar áreas degradadas sem alterar a identidade do espaço. "Eles terão uma praça mais requalificada, com melhor uso, mais ativação e mais frequentada do que é hoje", afirmou.
A consulta pública do projeto está aberta até julho. Após a análise das contribuições recebidas, a Prefeitura deverá publicar o edital definitivo e abrir a licitação para escolher a empresa responsável pela gestão da Praça Roosevelt pelos próximos 20 anos.
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