0

No Bom Retiro, moradores e comerciantes tentam se recuperar do medo, prejuízo e sujeira após chuva

'Não sei se não durmo porque tenho medo de precisar acordar às pressas com água invadindo tudo, preocupado em ter dinheiro para comprar móveis ou com o cheiro forte de esgoto que dá até tontura', conta morador que teve casa alagada

11 fev 2020
20h52
atualizado às 20h55
  • separator
  • 0
  • comentários

SÃO PAULO - Ele não sabia dizer o que mais dificultou para pegar no sono na noite de segunda-feira, 10: o medo de mais um forte temporal ou o mau cheiro da água que permanecia nos cômodos. O pequeno sobrado no Bom Retiro, onde Antônio Bezerra, de 43 anos, mora com a mãe e a irmã, foi invadido por uma enxurrada de água do temporal e do transbordamento do Rio Tietê na madrugada de segunda. Com a insistência da chuva nas horas seguintes, ele disse ainda não ter conseguido ficar tranquilo dentro de casa.

"Apesar do cansaço, não consegui dormir. Pensava que teria de acordar às pressas de novo com a água invadindo a casa, preocupado se vou ter dinheiro para comprar todos os móveis de novo e o cheiro forte de esgoto que dá até tontura", contou Bezerra, que mora há mais de 30 anos no Bom Retiro, bairro que, pela proximidade com o Rio Tietê, sofre quase todos os anos com alagamentos. No entanto, segundo os moradores, há 15 anos, a água não invadia as casas do bairro.

"Ainda estava escuro, era umas 5h, quando a gente ouviu um barulho de água, como se fosse um vazamento ou uma torneira aberta. Eu levantei e vi que a água já tinha invadido toda a parte térrea. Pensei em levantar os móveis, mas só deu tempo de colocar a geladeira em cima da mesa", contou Bezerra. Segundo ele, em menos de meia hora, a água já ultrapassava a altura dos joelhos e a família deixou a casa às pressas.

Bezerra e a irmã voltaram para a casa na noite de segunda, quando parte da água já tinha recuado. Nesta terça, eles iniciaram a limpeza. Do lado de fora, uma pilha de roupas, enfeites, sofá, cadeiras e outros pertences estragados. Dentro, o que rezam para que não tivesse estragado. "Espero que a máquina de lavar não tenha quebrado. A geladeira, que é mais cara, foi só o que consegui salvar na hora", disse

Concentrar a atenção no que ainda era possível salvar também era o esforço do radialista Reginaldo da Mata, de 58 anos, na tarde desta terça. A casa dele no Bom Retiro, a cerca de quatro quadras do rio Tietê, também foi invadida pela água. "Entre lá na sala e veja o que sobrou, só a televisão", disse ao Estado, enquanto lavava na frente de casa com mangueira e sabão um colchão de casal.

Mata mora há 30 anos no bairro, com a mulher e a filha, e contou que a rua sofre constantemente com alagamentos por causa da chuva, mas nunca na gravidade desta segunda-feira. "É um descaso. Sabem que a região alaga, que sofre com enchente, mas não fazem nada. Nunca foi tão grave assim, mas não tenho esperança de que vão fazer algo por nós".

O prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou que as famílias atingidas pelo alagamento podem pedir isenção de IPTU para o próximo ano. No entanto, as casas do Bom Retiro já são isentas do tributo exatamente pelo risco de transbordamento. "Moro há décadas em uma região que todo mundo sabe que tem risco de enchente e nunca nada foi feito para resolver o problema. Tiram o imposto como se isso justificasse deixar que essa situação se repita", disse Mata. Questionada sobre a ausência de auxílio para os moradores dessa região, a Prefeitura não se respondeu.

A Prefeitura informou apenas que, nas últimas três semanas, suas equipes fizeram inspeções e limpezas nas bocas de lobo e poços de visita na região do Bom Retiro. Segundo a nota, o serviço de limpeza é frequente no bairro e diz ter coletado 17,8 mil toneladas de resíduos de bueiros e bocas de lobo no ano passado. Também informou que nos últimos dois dias mobilizou 4,5 agentes para lavagem e raspagem das vias afetadas pela enchente. Questionada sobre obras e ações para evitar novas enchentes no local, a Prefeitura não respondeu.

Nesta terça, Covas anunciou ter um orçamento de R$ 800 milhões para ações antienchente, mas não detalhou se elas devem ocorrer em locais que historicamente enfrentam o problema.

Comércio

Comerciantes da região do Bom Retiro também passaram a terça-feira contabilizando os prejuízos provocados pelo alagamento. Na rua Visconde de Taunay, a maioria das fábricas e galpões tinham todos os funcionários empenhados na limpeza e no levantamento do que era possível ser recuperado.

Dona de uma confecção de roupas, Carla Waiswol, de 54 anos, lembrava da sensação de impotência quando viu a fábrica tomada por água pelas câmeras de segurança. "Da minha casa, eu via que a água já tinha subido mais de meio metro. Sabia que não tinha muito o que fazer, mas ainda assim queria ter certeza", contou.

Ela foi até o Bom Retiro e com um barco da Defesa Civil conseguiu chegar até o imóvel. "Abri o portão e vi pedaços de tecido e ratos boiando, as máquinas de costura tomadas por água", disse. Nesta terça, os funcionários separavam o que era possível ser enviado para uma lavanderia industrial e o que teria de ser descartado.

Carla contabilizou no fim da tarde ter perdido metade de todas as peças que produziu neste ano e 30% do maquinário. Ela calcula um prejuízo que ultrapassa R$ 175 mil. "Ainda por cima, descobrimos que, pela região onde estamos, nosso seguro não cobre perdas com enchente".

Do outro lado da rua, um grupo de funcionários tirava pilhas de equipamentos eletrônicos ainda encharcados de água e colocava em uma caçamba de lixo. Nas caixas empilhadas, a marca da água passava de meio metro. "Calculo que perdemos de R$ 250 mil a R$ 300 mil de mercadoria. Eu importo equipamentos de som, de vídeo, jogos eletrônicos. Tudo que molhou foi perdido", contou o gerente da loja, Matheus Oliveira, de 44 anos.

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade