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Banqueiro, pastor e empresários: quem são os principais alvos da PF no caso do Banco Master?

Investigações da PF avançam e apontam para teia intricada de negócios do banqueiro Daniel Vorcaro.

28 jan 2026 - 07h43
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Sede do Banco Master em São Paulo
Sede do Banco Master em São Paulo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A Polícia Federal ampliou, nas últimas semanas, o cerco a empresários e executivos ligados ao Banco Master, do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro.

A investigação tem se desdobrado em diferentes frentes e alcançado diferentes personagens do mercado financeiro e empresarial em meio à expectativa sobre se ela atingirá figuras do universo político.

No epicentro do caso está Daniel Vorcaro, controlador do Master e que é apontado como o líder de uma organização criminosa que teria agido contra o Sistema Financeiro Nacional.

Em novembro, ele foi preso durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, que apura se o grupo liderado por ele teria articulado a venda de carteiras de crédito falsas ao Banco de Brasília (BRB) em 2025, numa transação envolvendo R$ 12,2 bilhões.

A defesa de Vorcaro nega irregularidades, afirma que ele é inocente e diz que as tratativas com o BRB não passaram de um estágio preliminar, sem transferência definitiva de carteiras.

Mas a partir de janeiro, começaram a aparecer os indícios de que o caso poderia atingir outros empresários.

A segunda fase da Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro, mirou nomes próximos ao banqueiro e ao entorno do conglomerado, entre eles o seu cunhado, o pastor e empresário Fabiano Campos Zettel e o empresário Nelson Tanure. Ambos foram alvos da operação.

Outro personagem alcançado pela segunda fase foi João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, alvo de buscas, mas não preso.

Em meio à escalada do caso, a investigação também passou a atrair atenção pelo seu potencial de revelar relações e estruturas complexas que, segundo investigadores, teriam permitido o crescimento acelerado do conglomerado e ampliado o alcance das suspeitas para além do banco.

Enquanto isso, cálculos preliminares apontam que a quebra do Banco Master e do Will Bank, vinculados ao conglomerado controlado por Vorcaro, pode ter impacto de R$ 47 bilhões no mercado financeiro brasileiro.

Mas em meio a novas diligências, prisões pontuais e decisões judiciais, a pergunta que muita gente ainda se faz é: quem são os principais alvos do caso Master?

Daniel Bueno Vorcaro

Nascido em Belo Horizonte, Daniel Bueno Vorcaro, 42 anos, é o personagem principal do caso envolvendo o Banco Master. Em 18 de novembro, ele foi preso pela Polícia Federal na primeira fase da Operação Compliance Zero, que investiga crimes contra o sistema financeiro nacional, gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.

Sua prisão aconteceu no dia em que ele tentava embarcar em um jatinho privado para Dubai. No dia 28 de novembro, porém, ele foi solto após uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, atendendo a um pedido de sua defesa.

Segundo a Polícia Federal, ele seria o líder de uma organização criminosa responsável pela venda de carteiras de crédito falsas para o Banco de Brasília (BRB), em 2025. A transação teria deixado um prejuízo de R$ 12,2 bilhões ao banco público vinculado ao governo do Distrito Federal.

Sua defesa alega, em nota enviada a BBC News Brasil, que ele é inocente.

"Daniel Vorcaro reafirma sua inocência, segue colaborando integralmente com as autoridades e acredita que a análise completa dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade", diz.

Daniel Vorcaro é filho do empresário Henrique Vorcaro, e cresceu em Belo Horizonte, onde o pai criou um conglomerado imobiliário e onde Daniel deu os primeiros passos profissionais.

A partir de 2004, Daniel passou a atuar, assim como o pai, no setor imobiliário e acumulou um patrimônio milionário.

Em 2017, porém, ele deu uma guinada em sua carreira empresarial e assumiu o controle do Banco Máxima, então sob o comando do banqueiro Saul Sabbá.

À época, o banco enfrentava dificuldades financeiras e estava inabilitado a operar pelo Banco Central.

Com a chegada do mineiro, o banco mudou de nome para o atual Master e a partir de então Vorcaro deu início a uma estratégia agressiva de expansão dos seus negócios.

Por um lado, a empresa investiu na compra de empresas em dificuldades financeiras para obter lucro vendendo as operações posteriormente. Por outro, o Master passou a aumentar sua captação de recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), um ativo financeiro que pode ser adquirido por empresas e por pessoas físicas.

No mercado financeiro, a estratégia de Vorcaro era considerada agressiva porque o Master pagava, na média, juros sobre os CDBs entre 130% e 140% do CDI (índice atrelado à taxa básica de juros), enquanto seus concorrentes pagavam aproximadamente 110%.

A estratégia de crescimento do Master no período, segundo depoimento de Vorcaro, era baseada na segurança oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uma associação privada formada por bancos brasileiros que garante, em caso de liquidação de um banco, o ressarcimento de até R$ 250 mil por pessoa física ou jurídica em relação aos investimentos feitos na instituição liquidada.

"O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo. E após a gente começar a crescer, muda-se a regra do jogo", disse Vorcaro à PF em depoimento.

A expansão do Banco Master permitiu que Vorcaro e sua família mantivessem um estilo de vida luxuoso.

Em 2023, o banqueiro contratou o DJ Alok para a festa de 15 anos de sua família. Segundo relatos divulgados à época pela imprensa mineira, a festa teria custado um total de R$ 15 milhões. Quando vinha a Brasília, Vorcaro ficava em uma mansão avaliada em R$ 36 milhões.

Durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, a PF chegou a apreender um patrimônio avaliado em R$ 230 milhões em obras de arte, joias, dinheiro em espécie e obras de arte.

Ao longo dos anos, Vorcaro também passou a ser conhecido pelo trânsito junto ao ambiente político e jurídico de Brasília. Seu banco firmou contratos milionários com escritórios vinculados a ministros e ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como o da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e o do ex-ministro Ricardo Lewandowski.

No mundo político, Vorcaro é apontado como próximo de políticos como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, mas também já manteve ao menos uma reunião privada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo informação divulgada pelo jornal O Globo.

Em seu depoimento, Vorcaro minimizou o impacto de suas conexões políticas em seus negócios e negou favorecimento em suas transações envolvendo o Banco Master e o BRB.

"Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", disse Vorcaro que, desde sua soltura, usa tornozeleira eletrônica.

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro enviou uma nota dizendo que "as tratativas envolvendo a eventual cessão de ativos ao Banco de Brasília (BRB) permaneceram em estágio preliminar e não resultaram em qualquer transferência definitiva de carteiras".

A nota criticou ainda supostos "vazamentos sem identificação de fonte" que estariam antecipando "julgamentos que cabem exclusivamente às instâncias competentes".

Ainda de acordo com a nota, o Banco Master enfrentava uma crise de liquidez no momento de sua liquidação extrajudicial, em novembro do ano passado, "mas mantinha situação de solvência, com ativos superiores aos passivos".

A nota ainda defendeu as operações do Master baseadas no FGC.

"A estratégia de negócios baseada em captação por instrumentos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos era conhecida do mercado e operava dentro das regras vigentes", disse a nota.

Fabiano Zettel

Zettel foi preso em janeiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos prestes a embarcar para os Emirados Árabes Unidos. Ele foi solto no mesmo dia
Zettel foi preso em janeiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos prestes a embarcar para os Emirados Árabes Unidos. Ele foi solto no mesmo dia
Foto: Reprodução/Facebook / BBC News Brasil

Fabiano Campos Zettel tem 50 anos e é empresário, fundador e CEO da Moriah Asset, um fundo de investimento com participação em empresas ligadas à saúde e ao bem-estar. Ele é cunhado de Vorcaro, casado com a irmã do banqueiro, Natália.

Zettel foi preso no dia 14 de janeiro, durante a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos prestes a embarcar para os Emirados Árabes Unidos.

Ele foi solto no mesmo dia e foi alvo de mandado de busca pessoal expedido pelo STF a pedido da PF.

A decisão pela prisão de Zettel, assinada pelo ministro do STF Dias Toffoli, não detalhou quais os crimes são atribuídos a ele pela PF.

Segundo o documento, o pedido foi motivado porque "a prática criminosa do investigado envolve diversos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional".

Os empreendimentos ligados ao ramo de saúde e bem-estar de Zettel não estão vinculados diretamente a Vorcaro, mas ele já atuou como diretor da Super Empreendimentos, uma das empresas ligadas ao cunhado e que foi responsável pela compra da mansão que Vorcaro usava em Brasília, avaliada em R$ 36 milhões.

Antes de entrar no radar da PF, Zettel ganhou notoriedade em 2022 ao se tornar o maior doador das campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Somadas, as doações de Zettel a ambos chegaram a R$ 5 milhões.

Além de atuar no ramo empresarial, Zettel é pastor evangélico atualmente vinculado à Igreja Batista da Lagoinha. A igreja é liderada pelo pastor André Valadão, que assim como Zettel, é apoiador de candidatos de direita como Jair Bolsonaro.

Em nota enviada à BBC News Brasil, a assessoria de imprensa de Zettel disse que não teve acesso ao teor das investigações, mas que está "à inteira disposição das autoridades responsáveis". Ainda de acordo com a nota, Zettel "tem atividades empresariais conhecidas e lícitas, sem relação alguma com a gestão do Banco Master".

João Carlos Mansur

João Carlos Mansur é fundador e ex-executivo da Reag Investimentos. No dia 14 de janeiro, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão da segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele não foi preso.

No dia 15 de janeiro, a Reag, que agora se chama CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, foi liquidada pelo Banco Central em meio a investigações conduzidas pela Polícia Federal que apuram as suspeitas de que a empresa teria cometido fraudes financeiras junto com o Banco Master.

Segundo as investigações, a gestora é suspeita de usar seus fundos para praticar fraudes financeiras em benefício do grupo Master, como movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e minimizar riscos com indícios de lavagem de dinheiro.

A BBC News Brasil enviou questionamentos à assessoria de imprensa da Reag e de João Carlos Mansur, mas não obteve resposta.

Em seu site, no entanto, a empresa mantém uma nota na qual afirma que "vem a público repudiar alegações publicadas na imprensa que buscam indevidamente associar a companhia e a atuação de seus executivos a práticas irregulares e organizações criminosas, sem apresentar quaisquer provas de envolvimento em atos ilícitos".

Mansur é bacharel em ciências contábeis e fundou a Reag em 2012. Antes disso, atuou em empresas do setor de auditoria e do mercado financeiro.

De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a Reag possui cerca de R$ 299 bilhões em fundos administrados por ela, o que a coloca como uma das principais gestoras de fundos de investimento do Brasil.

Mansur também criou vínculos com o mundo do futebol. Ele atuou como executivo da incorporadora WTorre, responsável pela construção do Allianz Parque, a arena esportiva do Palmeiras, em São Paulo.

Além de ser investigado pelos supostos crimes investigados pela Operação Compliance Zero, Mansur também foi alvo, em 2025, da Operação Quasar, que investiga as ramificações da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado clandestino de combustíveis.

De acordo com as investigações, integrantes da facção usavam fundos geridos pela Reag para lavar dinheiro do tráfico de drogas e da venda de combustíveis adulterados e fazer investimentos.

Em setembro de 2025, Mansur renunciou ao cargo de executivo da Reag.

Nelson Tanure

Nelson Tanure foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF durante a segunda fase da Operação Compliance Zero
Nelson Tanure foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF durante a segunda fase da Operação Compliance Zero
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados / BBC News Brasil

Nelson Tanure tem 74 anos e é um dos operadores do setor financeiro mais conhecidos do Brasil.

Nascido na Bahia, ele é formado em administração de empresas e sua trajetória profissional ficou conhecida, em parte, por conseguir comprar empresas em dificuldades financeiras a preços baixos e vendê-las com lucro posteriormente.

Atualmente, ele tem participações em empresas como a concessionária de energia elétrica Light, do Rio de Janeiro, a petrolífera Prio e a construtora Gafisa.

No dia 14 de janeiro, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF durante a segunda fase da Operação Compliance Zero.

De acordo com uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, Tanure foi apontado pela PF como "sócio-oculto" dos negócios de Daniel Vorcaro com o Banco Master. Citando um documento enviado ao Supremo, a Procuradoria-Geral da República (PGR) teria afirmado que Tanure atuaria "exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas".

Ainda segundo o jornal, Toffoli determinou o bloqueio do patrimônio de Tanure.

A BBC News Brasil não conseguiu localizar a defesa de Tanure, mas, após a deflagração da operação, no dia 14 de janeiro, seus advogados publicaram uma carta escrita pelo empresário negando o envolvimento de Tanure com supostas irregularidades do caso Master.

"Não fui nem sou controlador do extinto Banco Master, tampouco seu sócio, ainda que minoritário, direta ou indiretamente, inclusive por meio de opções, instrumentos financeiros, debêntures conversíveis em ações ou quaisquer mecanismos equivalentes", diz um trecho da carta.

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