Museu não sai do papel e mirante histórico perto da Av. Paulista pode ter novo projeto; veja onde é
Prefeitura rompeu contrato firmado com a Sociedade Veteranos de 1932 para uso de espaço sobre o Túnel 9 de Julho e busca novos parceiros; entidade nega que tenha abandonado a área
Cartão-postal do centro de São Paulo, o Mirante 9 de Julho — ponto turístico marcado por longos períodos de abandono — volta a viver momentos de incerteza quanto ao seu futuro. No último dia 13, a Subprefeitura da Sé encerrou, por "descumprimento de obrigações" contratuais, o termo de cooperação firmado com a Sociedade Veteranos de 1932 - MMDC, então responsável pelo espaço. A organização rebate as acusações e nega que o espaço foi abandonado (leia mais abaixo).
A parceria entre a Prefeitura e a Sociedade Veteranos de 1932 - MMDC havia sido estabelecida em dezembro de 2023, com a previsão de que a associação gerisse o mirante por três anos, garantindo serviços de segurança, limpeza, zeladoria e jardinagem, além da construção do Museu da História da Revolução Constitucionalista de 1932, destinado a expor acervo sobre o levante paulista contra o governo de Getúlio Vargas.
O contrato previa investimento de R$ 72 mil. A relação, no entanto, foi rompida antes do segundo ano de validade. Segundo a Prefeitura, o MMDC não cumpriu as obrigações previstas, e o espaço, localizado na região central da cidade, voltou ao controle municipal. Agora, a administração estuda abrir um edital de chamamento público para selecionar novo parceiro.
"As chaves do espaço foram devolvidas e uma equipe da subprefeitura faz a segurança do local. A abertura de um chamamento público está em estudo para firmar uma nova parceria", informou o Executivo municipal, sem especificar uma data.
A Sociedade Veteranos de 1932 - MMDC rebateu as acusações. À reportagem, o presidente da entidade, Carlos Romagnoli, afirmou que não abandonou os cuidados com o mirante e que chegou a conseguir, sem custos, "limpeza periódica e segurança 24 horas para o local". "A escadaria era utilizada para consumo de todo tipo de drogas antes de assumirmos", declarou.
Romagnoli acrescentou que já havia elaborado, de forma gratuita, um projeto para o museu e buscava recursos para sua execução. "A Sociedade Veteranos de 32 - MMDC, desde que assumiu o Mirante 9 de Julho, nunca, repito, nunca deixou de trabalhar incansavelmente para a implantação do museu", reforçou o presidente.
Embora afirme que tenha cuidado do espaço e empenhado esforços para a instalação do museu, Carlos Romagnoli diz que o grupo não impôs resistência ao fim da parceria.
Passado de abandono
O Mirante 9 de Julho integra, junto ao túnel da Avenida 9 de Julho e ao Obelisco do Ibirapuera, o conjunto de símbolos paulistanos da Revolução Constitucionalista de 1932 — movimento armado liderado por São Paulo em resposta ao autoritarismo do governo provisório de Getúlio Vargas. A sigla MMDC é uma homenagem aos paulistas Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, que foram os primeiros mortos pela causa constitucionalista, em 23 de maio de 1932 .
Os insurgentes defendiam uma nova Constituição para o País, que veio a ser promulgada em 1934. Meses após o início do levante, em 9 de julho de 1932, o conflito terminou com a rendição paulista, em 1º de outubro daquele ano.
Inaugurado em 1938, o espaço fica localizado no bairro Bela Vista, na Rua Carlos Comenale, mais precisamente atrás do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp, na Avenida Paulista. O mirante está sobre o Túnel 9 de Julho.
Após sua inauguração, ele permaneceu abandonado por mais de 70 anos. Em 2015, foi restaurado e reaberto como centro cultural, passando a ser cedido à iniciativa privada dentro de um programa de ocupação de espaços públicos ociosos.
Em 2019, o espaço passou a ser administrado pelo restaurante Mira. O estabelecimento funcionou até dezembro de 2021, mas, após 18 meses fechado em razão da pandemia de covid-19, encerrou as atividades por falta de renovação do termo de cessão com a Prefeitura.
O mirante voltou a ficar desocupado até ser entregue, há dois anos, à Sociedade Veteranos de 1932, que tinha como compromisso a criação do museu. A Prefeitura, porém, alega que o acordo não foi cumprido e retomou o espaço, que segue sem uso após o encerramento do contrato com o grupo. Os portões que dão acesso ao Mirante estão fechados e as escadarias interditadas por faixas zebradas.
Futuro do museu
Fundada em 1954, a Sociedade Veteranos de 32 - MMDC é responsável por reunir o acervo da Revolução Constitucionalista. A expectativa era de que o museu fosse inaugurado no mirante ainda em 2024, mas o plano não se concretizou. A entidade alega reunir apenas um pequeno grupo de associados e afirma "não possuir verba própria para levar adiante projeto tão audacioso como o que pretendíamos".
Ao Estadão, Carlos Romagnoli reiterou que o museu sairá do papel, ainda que em outro endereço. "Nunca a Sociedade Veteranos de 32 - MMDC deixou o local abandonado ou gerando despesas para a Prefeitura", disse. "Tínhamos o sonho de entregar à nossa cidade o Museu/Casa da Memória da Revolução Constitucionalista de 1932, mas ainda o faremos, só que em outro local."
Entre as peças que deveriam ser expostas no mirante estão capacetes de aço desenvolvidos especialmente para os combatentes paulistas, com base em modelos ingleses e franceses da Primeira Guerra Mundial, além de granadas, munições, fardas e medalhas. Já entre os documentos, estão diplomas concedidos aos maiores doadores da Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo - com o metal precioso foram comprados material bélico e munição para as tropas.