Associações de bairros querem tirar megablocos de carnaval do centro após tumulto na Consolação
Objetivo é afastar os desfiles das ruas do centro histórico; Prefeitura ainda não se manifestou
Associações de bairros do centro de São Paulo estão se mobilizando para afastar o desfile de megablocos de carnaval na região. Eles alegam que as ruas não comportam multidões e, além da ameaça à integridade das pessoas, há risco para o patrimônio histórico. Por ora, as entidades estão em contato para decidir o que fazer, mas não se descarta recorrer à via judicial para impedir novos riscos.
Procurada para se manifestar sobre os pleitos das associações, a Prefeitura de São Paulo ainda não deu retorno.
No último fim de semana, durante um desfile na Rua da Consolação, ocorreu superlotação de foliões, desencadeando tumulto, com pessoas passando mal e público prensado contra grades de proteção. O desfecho levou a prefeitura a adotar medidas para reduzir riscos e melhorar o monitoramento dos blocos. O Ministério Público de São Paulo apura possíveis falhas no planejamento.
'Quer chamar multidão? Faça no Sambódromo'
Célia Marcondes, vice-presidente da Sociedade dos Amigos, Moradores e Empreendedores do Bairro de Cerqueira César (Samorcc), que abrange a Consolação, diz que as medidas anunciadas pela prefeitura após os tumultos ocorridos no domingo, 8, não resolvem o essencial.
"A Consolação não comporta o aglomerado imenso que esses blocos causam. Os espaços que eles estão usando no centro não são para isso. Quer chamar multidão, então faça no Sambódromo ou no autódromo de Interlagos", disse.
Célia diz que a Samorcc apoia o carnaval de blocos menores, que já são tradicionais. "De uns anos para cá, decidiram que São Paulo é a cidade dos grandes blocos, das multidões, e deu no que deu. Domingo, faltou pouco para uma tragédia. Uma pessoa passou mal em uma travessinha sem saída da Consolação e não conseguiram socorrer, pois o caminho estava todo bloqueado. Ela foi atendida pelo pessoal de um edifício. É uma situação que está ficando fora do controle."
A vice-presidente, que também responde pelo jurídico da associação, pretende agir judicialmente se houver algum desfecho trágico nesses eventos.
"Tivemos aquele caso da morte por choque há alguns anos e parece que a lição não serviu. Estamos conversando com outras associações da região para ver o que pode ser feito. Cada região tem sua especificidade, mas o que todos querem é uma festa organizada, com segurança, com estrutura, o que não tem."
O estudante Lucas Antônio Lacerda da Silva, 22 anos, morreu eletrocutado em 4 de fevereiro de 2018, após tocar em um poste energizado durante um pré-carnaval na Rua da Consolação. Segundo foi apurado na época, ao pular uma grade, o folião tocou em um poste de câmeras com fiação irregular.
Além do bairro Cerqueira César, a associação atua em bairros limítrofes, como Consolação, Bela Vista e Jardim Paulista.
'Moradores ficam incomodados com o barulho'
Para Charles Sousa, presidente da Associação Geral do Centro (AGC), a prefeitura deveria direcionar os blocos maiores para avenidas que comportam grandes públicos como a Avenida do Estado, no trecho próximo à Marginal Tietê.
"Os moradores, principalmente os mais antigos, reclamam que ficam incomodados com o barulho. São de 15 a 20 dias de carnaval, cerca de 300 horas de desfiles e muitos moradores do centro são idosos. Já sugerimos à prefeitura incentivar a reforma dos prédios mais antigos para que sejam instalados sistemas anti-ruído."
Ele diz que, antes, os blocos maiores eram direcionados para avenidas mais amplas, em horários distintos, o que gerava menos incômodo. "Agora trouxeram para ruas do centro histórico, talvez para mostrar maior aglomeração. Mas há locais tombados e risco de depredação do patrimônio histórico. O que aconteceu na Consolação mostra falta de planejamento. O carnaval de rua em São Paulo não tem volta, pois movimenta muito dinheiro com o turismo, mas precisa de planejamento, que não houve, e conversar com a população, o que não foi feito."
A AGC atua principalmente nos bairros do centro histórico, como Sé, República, Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade e Santa Cecília.
'Que tipo de carnaval a gente quer?'
Cleiton Honório de Paula, do Coletivo Pró-Higienópolis, diz que o assunto pode ser levado ao fórum das associações de bairros previsto para abril.
"É importante saber que tipo de carnaval a gente quer, se uma festa do povo para o povo, com blocos tradicionais, ou prioritariamente um evento empresarial. O problema é que estamos há 10 anos com o carnaval de rua em São Paulo e não houve discussão prévia, uma conversa para definir o que seria melhor."
Como empresário, ele vê que o carnaval pode ter vários formatos e todos passam por definir qual interesse a festa vai atender.
"É uma roda de samba na Lapa? Um bloco grande no Baixo Augusta? Se a prefeitura de São Paulo quer fazer um carnaval nos moldes do de Recife, precisa contratar gente que sabe fazer e buscar os recursos. Não existe um evento desse porte que não tenha alguma intercorrência, mas é preciso fazer um estudo crítico do que aconteceu e fazer as escolhas."
Quase três Oktoberfests de Munique
Especialista em gestão urbana e professor da Must University (EUA), Marcos Crivelaro compara o carnaval de São Paulo este ano com a Oktoberfest de Munique, grande evento mundial. Enquanto a festa alemã recebeu 6,7 milhões de visitantes em 2024, a capital paulista espera receber 16,5 milhões para os desfiles de 627 blocos deste ano. "A diferença é que boa parte do carnaval paulistano acontece em vias abertas, não em espaços dedicados para grandes eventos como o Sambódromo do Anhembi, que são preparados para isso", observa.
Ele cita que, quando Londres programa o Notting Hill Carnival, que reúne cerca de 2 milhões de pessoas, ou quando Amsterdã realiza grandes eventos, a estratégia vai além do policiamento tradicional. "Essas cidades tratam multidões como um desafio de quatro variáveis: espaço físico, escalonamento no tempo, mobilidade integrada e tecnologia de monitoramento. Cidades que operam megaeventos com frequência trabalham com centros de comando integrados e protocolos automáticos de resposta", diz.
"Quando a densidade atinge determinado nível em uma zona, há gatilhos operacionais: pode ser redirecionar fluxo, pausar temporariamente um trio elétrico ou abrir corredores alternativos."
Esse tipo de gestão se apoia em monitoramento em tempo real por câmeras e sensores capazes de estimar a concentração de pessoas e disparar alertas, modelo que vem sendo testado em cidades como Amsterdã. Também são usados drones para visão aérea, ampliando a capacidade de resposta das equipes.
"Se a Rua da Consolação vira gargalo, a pergunta técnica não é quantas pessoas cabem ali, mas quantas conseguem sair por minuto", diz o especialista.
Crivelaro sugere que o modelo atual precisa evoluir para incluir simulações prévias de capacidade por trecho, escalonamento real de horários com folga para atrasos, métricas de densidade visíveis em tempo real, protocolos de contingência acionáveis por gatilhos objetivos e infraestrutura básica como água, banheiros e sinalização como parte da estratégia de segurança.
"Gestão inteligente de multidões trabalha com capacidade de escoamento, rotas com redundância e integração com o transporte público, que é, na prática, a porta de entrada do evento."