3 eventos ao vivo

Após repercussão de episódio com desembargador, guarda civil de Santos pensa em deixar as ruas

Cícero Hilário Roza tem medo de retaliações por causa do vídeo em que tenta aplicar multa em Eduardo Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo

21 jul 2020
19h11
  • separator
  • 0
  • comentários
  • separator

Os últimos dias têm sido difíceis para o guarda civil municipal Cícero Hilário Roza, de 36 anos, que trabalha na cidade de Santos, no litoral paulista. Ele só está dormindo com a ação do Zolpidem, um remédio para insônia, e cogita pedir para os superiores para deixar as ruas e fazer serviços internos pelo menos por um período. O guarda teme por sua própria integridade física.

A razão da insegurança é a enorme repercussão do caso em que ele se envolveu no final de semana. Ele próprio recapitula os momentos mais difíceis do episódio em que tentou aplicar uma multa ao desembargador Eduardo Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, por desrespeito ao uso obrigatório de máscara, no último sábado, em Santos.

"Foram três momentos que me deixaram mais chateado. O primeiro foi quando ele me chamou de analfabeto. Logo no início do contato telefônico com o secretário (de Segurança Pública de Santos). Ele usou o termo 'PM analfabeto'. Depois, ele pergunta se eu sabia ler. Ele entrega a carteira funcional dele e diz para eu ver com quem eu estava me metendo. Esses foram os momentos mais difíceis. Eu tive de manter a calma e tentar fazer o meu trabalho", conta Cícero.

Por conta da repercussão do caso - o vídeo da abordagem viralizou nas redes sociais -, Cícero cogita pedir um afastamento temporário das ruas. Motivo: medo de retaliações. "A gente fica com receio até da própria segurança física. A gente trabalha com segurança e já viu outros episódios. Eu tive total apoio do meu chefe e da prefeitura. Foi a minha família que pediu para ver a possibilidade de ficar interno. É algo que não descarto."

Cícero é casado com a auxiliar administrativa Vania Roza, de 40 anos. O casal tem dois filhos: Isabelly, de 15 anos, e Guilherme, de 10. O guarda tem ainda um filho de outro relacionamento, Eduardo, de 17 anos. "Foi difícil explicar para minha família porque eu havia sido tratado daquela forma. Elas tinham visto o vídeo e perguntaram o que eu tinha feito de errado. Eu não tinha uma resposta. Eu falei que estava fazendo o meu trabalho e que não esperava ser tratado daquela forma", conta o morador de Santos.

A decisão de deixar as ruas passa também por uma conversa com o parceiro de trabalho, Roberto Guilhermino da Silva, 41, guarda municipal que acompanhou a ação e registrou todo o episódio. Ele decidiu gravar a ação porque o desembargador já havia se negado a usar a máscara em outra oportunidade. "Quando percebi que se tratava da mesma pessoa, eu resolvi gravar para termos uma prova da correção da nossa abordagem. Mas não esperava que ele fosse tão hostil e agressivo", diz Guilhermino.

Na segunda-feira à noite, os guardas receberam medalhas com a inscrição "Homenagem da Cidade de Santos" na prefeitura. A homenagem contou com a presença dos familiares. "Procuro tirar algo de positivo desse episódio. É gratificante. A homenagem é o fruto do nosso trabalho", diz Roberto.

Cícero se define como uma pessoa muito tímida e que prefere entrevistas pelo telefone, como foi o contato com o Estadão, aos questionamentos tete a tete. Ele é graduado em Segurança Pública, com pós-graduação em Direito Educacional. Além de guarda municipal, atua como vigilante em outro emprego, também em Santos. Durante a pandemia, as ocorrências mais comuns têm sido a fiscalização na orla da praia. No final de semana, 62 foram multadas por falta de máscara. Em nove anos como guarda civil municipal, Cícero afirma que nunca havia sido humilhado daquela forma.

OUTRO LADO

Desde segunda-feira, o Estadão insiste em uma entrevista com o desembargador Eduardo Siqueira para ouvir sua versão dos fatos. A assessoria do Tribunal de Justiça, local onde ele trabalha, informa que ele não respondeu nenhum dos e-mails. Na segunda-feira, por meio de nota, ele afirmou que havia sido vítima de uma armação. "Acabei sendo vítima de uma verdadeira armação. A abordagem foi editada e completamente diferente das que recebi antes, mas com uma câmera previamente ligada, fazendo parecer que de vítima sou o vilão".

Siqueira afirma que o momento é de uma pandemia politizada, que tem sido usada para justificar abusos. "Um desses abusos, a meu ver, é a determinação, por simples decreto, do uso de máscara em determinados locais, o que ocorreu aqui em Santos e em outras tantas cidades e Estados do País. Os cidadãos brasileiros, entretanto, só são obrigados a fazer ou deixar de fazer algo em virtude de lei. Este preceito está na Constituição da República. Decreto não é lei, portanto, entendo que não sou obrigado a usar máscara, e que qualquer norma que diga o contrário é absolutamente inconstitucional."

Veja também:

Por apoio à CPMF, Guedes vai propor cortar à metade tributos sobre salários
Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade