Após anos no convento, ex-freira conta como reaprendeu o mundo: ‘Não sabia o que era WhatsApp’
Aos 26 anos, Grasiele deixou tudo para viver em clausura; anos depois, voltou ao mundo e teve de redescobrir a vida fora do Carmelo
Grasiele Loureiro, ex-freira catarinense, compartilha sua jornada de fé e transformações, desde sua experiência no Mosteiro Carmelita até sua reintegração à sociedade como empreendedora e catequista, destacando os aprendizados e mudanças em sua vida pessoal e profissional.
A história de Grasiele Loureiro, de 43 anos, natural de Santa Catarina, é um testemunho de fé, persistência e transformações. Aos 26 anos, ela tomou uma decisão que mudaria sua vida: deixou para trás tudo que tinha e a estabilidade de um emprego concursado para se dedicar integralmente à vida religiosa, culminando em uma década de idas e vindas no Mosteiro Carmelita.
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A ex-freira, que hoje é casada, empreendedora no mercado digital e catequista, conta ao Terra que olha para o passado sem arrependimentos, reconhecendo a experiência como o maior aprendizado de sua vida.
Como tudo começou
A primeira guinada dela ocorreu em 2005. Após um ano e meio em uma comunidade de vida missionária, ela sentiu que precisava de algo mais profundo: o silêncio e a oração da vida contemplativa.
“Em 2008, eu entrei, então, no Carmelo", conta Grasiele, que se apaixonou pela rotina reclusa. No local, as freiras vivem em reclusão e dedicam a vida exclusivamente à oração, ao trabalho e à contemplação. Sua primeira experiência, em Tremembé (SP), durou dois anos. Apesar do amor à vocação, a saúde falou mais alto.
"Era a primeira vez e eu amava o Carmelo. Só que eu acabei ficando doente, tive depressão e, em 2010, eu pedi para sair. Eu tive que sair porque eu estava realmente doente. Eu percebia que eu não conseguiria ficar bem estando ali dentro", lembrou.
No entanto, o arrependimento veio instantaneamente. “Quando eu pedi para sair para me tratar, eu já me arrependi na hora. Eu falei: ‘Meu Deus, como é que eu vou viver lá fora? Eu não sei mais viver lá fora, não quero mais viver lá’”.
Insistências e mudança de vida
A paixão era tamanha que, após o retorno para casa, Grasiele insistiu mais duas vezes. Ela retornou para outro Carmelo em Santa Catarina em 2011, mas saiu novamente após cerca de um ano e meio. A terceira e última tentativa foi em Porto Alegre, em 2013, aceita pela madre superiora como sua “última chance”.
Ao contrário de outras ordens religiosas que desenvolvem atividades em escolas, hospitais ou paróquias, as monjas carmelitas dedicam-se inteiramente à vida contemplativa, afastando-se do convívio com o mundo para viver exclusivamente voltadas a Deus. O contato com o exterior é restrito e, em geral, acontece apenas por meio das grades do parlatório do mosteiro. No Carmelo, o apostolado das religiosas limita-se à oração.
No caso de Grasiele, as saídas do mosteiro eram autorizadas apenas em situações muito específicas, como consultas médicas ou odontológicas, ou ainda para cumprir obrigações civis, como o exercício do voto. Qualquer outro tipo de deslocamento era proibido.
Como freira, a catarinense iniciava suas atividades ainda nas primeiras horas da manhã. O início do dia era dedicado às orações e ao estudo, seguidos do almoço e de um breve momento de recreação — o único período em que a comunidade podia conversar livremente, já que o restante do tempo era marcado pelo silêncio.
Durante a tarde, as religiosas se dedicavam ao trabalho. Cada mosteiro possuía uma fonte de renda, e as irmãs realizavam diversas atividades manuais com o objetivo de sustentar a comunidade. No período da noite, após o jantar e um novo momento de recreação, a rotina se encerrava com as orações finais.
Apesar de estar adaptada e de gostar da rotina, em 2014 Grasiele finalmente aceitou que a vida enclausurada não era seu destino. Ela deixou o Carmelo em setembro daquele ano, admitindo que o problema não era a Ordem, mas sua própria vocação.
"Eu tive que admitir que realmente não era o lugar. Eu não tinha vocação, porque eu via as outras irmãs, tinha irmãs muito santas, e eu via que não, o problema era eu. Não era o lugar, outras pessoas, era eu, que eu não tinha vocação mesmo", afirmou. "Eu creio que Deus permitiu tudo isso para o meu amadurecimento, meu crescimento como pessoa. Foi um certo tempo que eu aprendi muito, mas era para passar, não era para ficar", acrescentou.
O baque do "mundo de fora"
Retornar ao convívio social aos 33 anos, depois de quase uma década de reclusão, foi um choque cultural para ela. "Foi muita diferença. Eu não sabia o que era o WhatsApp. Até então eu nem tinha celular."
Naquele dia que deixou o Carmelo, Grasiele se lembra que durante o caminho de volta para casa, no ônibus, ficava ouvindo o som das notificações de mensagens e não sabia o que era, indo entender do que se tratava apenas depois de sua família lhe explicar sobre o WhatsApp. Além disso, ela também se deparou com mudanças cotidianas.
"Eu não sabia que não existia mais a cédula de R$ 1, que só tinha moeda. E daí eu fui num lugar e pedi para trocar. E a mulher ficou me olhando assim, tipo: 'como assim?'".
As maiores barreiras, no entanto, foram emocionais e sociais. Grasiele conta que enfrentou a vergonha de depender dos pais e a dificuldade de lidar com um mundo que lhe parecia "pervertido" e muito diferente. "Eu não queria sair muito para ninguém me ver e não ficar perguntando por que que eu estava aqui fora. E o outro ponto era que... Assim... me deparei com um mundo tão pervertido", relatou.
O casamento e o empreendedorismo
Longe da clausura, Grasiele precisou reconstruir sua vida profissional, já que sua formação em Publicidade e Propaganda estava defasada. Ela começou a fazer crochê, brigadeiros e vender cosméticos até conseguir um emprego por concurso na área da saúde.
Em 2021, ela descobriu o mercado de Marketing Digital, uma área totalmente nova. O sucesso foi tanto que ela largou o serviço público para se dedicar à sua agência.
A vida amorosa também teve seu drama. Inicialmente resistente ao matrimônio, ela decidiu se casar, mas viveu três anos de insucesso com um ex-noivo que cancelou o casamento na véspera e, depois, no dia da cerimônia civil.
"Eu já tinha ganhado os presentes todos, já tinha tudo pago, apartamento mobiliado, tudo. Aí não teve casamento. Cancelei tudo. Nunca mais vi a criatura."
Quatro meses depois do último cancelamento, ela conheceu o marido atual, com quem se casou em 2019. Eles hoje são catequistas de noivos. "Meu marido canta e toca nas missas. Eu participo da liturgia e nós dois somos catequistas do curso de noivos, para quem está se preparando para casar. Eu nunca me afastei da minha fé ou da minha religião", afirma a ex-freira.
Ao Terra, ela também relata que ela e o marido, após descobrirem a infertilidade, estão há quatro anos na fila de adoção. "Eu tenho infertilidade, tive pré-menopausa precoce. Tentamos de várias formas naturais que a Igreja aceita, porque a Igreja Católica não aceita fertilização in vitro. Então fizemos tudo que era possível com relação aos tratamentos naturais, mas no mesmo momento em que soubemos, também já entramos na fila de adoção", explica.
O legado do Carmelo
Apesar da jornada turbulenta, Grasiele afirma que o que sobrou da sua experiência são boas memórias e grandes aprendizados. "Foi muito importante para a minha intimidade com Deus, a minha relação com Deus. Isso foi algo que só no Carmelo mesmo que eu teria tido essa experiência. Tinha que passar. Esse para mim foi o maior aprendizado."
Atualmente, em seu tempo livre, Grasiele compartilha nas redes sociais sua experiência como ex-freira. Seu perfil no TikTok já acumula mais de 700 mil visualizações, demonstrando o grande interesse do público por seu conteúdo. De acordo com ela, as pessoas demonstram muita curiosidade sobre esse universo normalmente pouco acessível ao público geral. Os seguidores costumam se interessar por detalhes cotidianos da vida religiosa.
“Eu amo o Carmelo. E eu não me arrependo de nada. Eu faria tudo de novo, mesmo que eu soubesse que não continuaria no final, eu passaria por tudo de novo. Porque as experiências que eu vivi, tudo que eu aprendi, não tem preço", destaca ela.
@grasi.loureiro Por que saí do convento? #catolica #religiosa #casamento #adocao ♬ som original - Grasiele Loureiro