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Chuvas expõem riscos históricos de Juiz de Fora

27 fev 2026 - 07h10
(atualizado às 07h35)
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Antes mesmo de desastre, município já constava entre os que mais emitem alertas no país. Especialistas apontam combinação de relevo, clima, ocupação urbana e falhas institucionais como fatores agravantes.Desde a última segunda-feira (23/02), a Zona da Mata mineira enfrenta um volume de chuvas que provocou mortes, soterramentos e milhares de ocorrências. Em Juiz de Fora, uma das cidades mais atingidas, o número de mortes passa de 55. O município já contabiliza mais de mil ocorrências desde o início das precipitações.

O cenário não é uma completa surpresa. Levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já colocava Juiz de Fora entre as dez cidades brasileiras com mais alertas emitidos em 2025. A cidade ocupa a quarta posição, atrás de Manaus, São Paulo e Petrópolis (RJ).

Em Ubá, região também atingida pelas cheias e a cerca de 100 quilômetros do município mineiro, o balanço aponta seis mortes confirmadas e duas pessoas desaparecidas.

Para o professor Alecir Antonio Maciel Moreira, do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia e Tratamento da Informação Espacial da PUC Minas, a recorrência de episódios como este está ligada a uma combinação de fatores climáticos e físicos. Ele explica que a porção sudeste de Minas Gerais está inserida em uma região úmida, com chuvas concentradas entre outubro e março, especialmente de novembro a janeiro, quando há maior volume acumulado em curto período.

Segundo o pesquisador, sistemas meteorológicos como os jatos de baixos níveis, conhecidos popularmente como "rios voadores", transportam umidade da Amazônia para o Sudeste. Ao encontrar calor, relevo acidentado e a proximidade do oceano, esse fluxo favorece a formação de nuvens e precipitações intensas. "Do ponto de vista físico, há fatores climáticos, geomorfológicos, geológicos e pedológicos que ajudam a explicar a exposição dessa área a essa quantidade de ocorrências", afirma. Ele ressalta ainda que desastres são resultado da combinação entre essa suscetibilidade natural e fatores sociais, como ocupação vulnerável do território.

Histórico de risco

A recorrência de alertas e desastres não é um dado isolado no caso de Juiz de Fora. Além de figurar entre os municípios com mais avisos emitidos pelo Cemaden em 2025, a cidade também aparece entre aquelas com maior número de pessoas vivendo em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos.

Em 2023, o órgão participou da elaboração de um diagnóstico nacional que mapeou os municípios com maior vulnerabilidade a esses eventos geo-hidrológicos. O levantamento serviu de base para direcionar investimentos do governo federal no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), priorizando obras de prevenção, contenção de encostas, drenagem e outras medidas de redução de risco.

Como resultado, foram mapeados 1.942 municípios com moradores em áreas classificadas como de risco. Nessas cidades, cerca de 8,9 milhões de pessoas vivem em locais sujeitos a impactos provocados por chuvas intensas, o equivalente a aproximadamente 6% da população do país.

Segundo o levantamento do órgão, Juiz de Fora ocupa a nona posição, com 128.946 moradores em áreas classificadas como de risco.

À frente do local estão, em ordem decrescente, Salvador (1.217.527 pessoas em áreas vulneráveis), São Paulo (674.329), Rio de Janeiro (444.893), Belo Horizonte (389.218), Recife (206.761), Jaboatão dos Guararapes (188.026), Ribeirão das Neves (179.314) e Serra (132.433).

Para a geóloga Maria Giovana Parisi, titular do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as características físicas do território ajudam a explicar esse cenário.

"Juiz de Fora é marcada por morros íngremes, solos profundos que se encharcam com facilidade e córregos em vales estreitos, o que acelera o escoamento da água durante chuvas intensas", destaca. Parte dessas encostas foi ocupada por moradias, com cortes e aterros nem sempre adequados ao tipo de solo e à inclinação do terreno.

A pesquisadora explica que, em muitas áreas de risco, o solo permeável está assentado sobre uma rocha impermeável conhecida como gnaisse. "Em períodos de chuva prolongada, a água infiltra pelo solo até atingir essa camada. No contato entre o solo e a rocha forma-se uma zona saturada, que pode provocar a liquefação do material e o deslocamento de lama e terra encosta abaixo", diz.

Com o solo encharcado e mais pesado, a ação da gravidade se intensifica nas áreas de maior declividade. Mesmo onde os solos são menos espessos, eles se estendem por grandes áreas, ampliando o volume de material mobilizado em caso de deslizamento.

Osvaldo Moraes, professor do programa de pós-graduação em Desastres da Universidade Estadual Paulista (UNESP), explica que o número elevado de alertas não significa, por si só, maior quantidade de desastres, mas maior probabilidade de ocorrência.

Segundo ele, os avisos são emitidos a partir da combinação entre a ameaça natural, como chuvas intensas, e as condições locais que podem transformar esse evento em impacto relevante.

No episódio recente, ele cita a formação de uma supercélula, nuvem de grande desenvolvimento vertical e alta concentração de água, que se desloca lentamente e intensifica a precipitação sobre a mesma área. "Isso é sim um indício de que as mudanças climáticas estão fazendo com que eventos que antes eram, não rotineiros, agora passam a ser observados com maior frequência", reforça o professor.

Minas Gerais e municípios suscetíveis a desastres

O cenário observado em Juiz de Fora reflete um quadro mais amplo. Segundo documento do Cemaden, a região Sudeste concentra a maior população exposta a riscos no país. Minas Gerais aparece como o estado com o maior número de municípios mais suscetíveis à ocorrência de desastres naturais: são 283 cidades nessa condição. Na sequência estão São Paulo (172), Rio de Janeiro (75) e Espírito Santo (71).

Para Pedro Côrtes, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), o fator geográfico é importante para entender esse resultado. Ele afirma que Minas Gerais é, em grande parte, um estado montanhoso, onde o processo histórico de ocupação urbana começou pelos fundos de vale-áreas naturalmente sujeitas a inundações-e avançou para as encostas, ampliando a vulnerabilidade.

Côrtes destaca ainda que muitas dessas áreas de risco já foram mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil, com indicação dos locais mais sujeitos a deslizamentos e inundações. Para ele, a permanência da ocupação e a ausência de infraestrutura adequada agravam a exposição. "Essas áreas são conhecidas, e a falta de avaliação sobre essas regiões é uma questão relacionada à falta de infraestrutura", afirma.

Moreira, da PUC MG, avalia que as características observadas em Juiz de Fora são, em escala regional, uma síntese do que ocorre em Minas Gerais. Segundo ele, o estado está em uma posição geográfica de transição climática, sob influência de sistemas tropicais e extratropicais. Isso inclui frentes frias, cavados (áreas alongadas de baixa pressão atmosférica) e a atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul, além da umidade transportada da Amazônia pelos jatos de baixos níveis e da umidade proveniente do oceano.

Essa combinação atua sobre uma topografia marcada por relevo movimentado e compartimentado, com cadeias montanhosas que interferem na circulação atmosférica e favorecem a formação de chuvas. Moreira lembra que Minas Gerais concentra nascentes de alguns dos principais rios do país, resultado dessa dinâmica de interceptação de umidade pelas montanhas.

Ele aponta ainda que a urbanização ocorreu de forma desigual, com populações de menor renda concentradas em áreas mais precárias e suscetíveis, muitas vezes com menor acesso a infraestrutura e serviços. "Tudo isso cria um cenário de concentração de risco. Minas Gerais é realmente muito complexo do ponto de vista da suscetibilidade e da exposição", destaca.

A reportagem procurou o Governo de Minas Gerais e a Prefeitura de Juiz de Fora para comentar as estratégias de prevenção e as medidas adotadas, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Como mitigar riscos e evitar tragédias

Reduzir o número de tragédias passa por uma política permanente de gestão de riscos, que vai além de respostas emergenciais, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem da DW. O professor Moraes, da UNESP, afirma que o risco de desastre resulta da combinação entre ameaças naturais e ameaças antrópicas, estas relacionadas às escolhas e omissões humanas, como ocupação inadequada do solo, falta de infraestrutura, desigualdade social e ausência de planejamento urbano.

Segundo ele, municípios com topografia acidentada e ocupação concentrada em áreas vulneráveis exigem ações contínuas. Isso inclui mapeamento rotineiro das áreas de risco, obras de drenagem adequadas, monitoramento constante e educação da população para que saiba como agir ao receber um alerta.

Moraes destaca que o envio de mensagens por celular, embora importante, não é suficiente. "O que adianta uma pessoa que mora em área de risco receber um aviso de chuva intensa se ela não tem para onde ir ou não sabe o que fazer?", questiona. Para ele, a redução de desastres depende da atuação coordenada de diferentes instituições, com definição clara de responsabilidades.

O pesquisador aponta ainda a existência de uma "vulnerabilidade institucional". Embora o país conte com uma Política Nacional de Gestão de Riscos e diversos órgãos federais envolvidos no tema, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Agência Nacional de Águas (ANA) e o Serviço Geológico do Brasil, ele avalia que faltam protocolos integrados e articulação permanente entre as esferas federal, estadual e municipal.

Parisi, da UFMG, afirma que a prevenção exige a combinação de medidas estruturais e não estruturais. Entre as primeiras estão obras de drenagem urbana, estabilização e contenção de encostas adequadas às condições geológicas, controle de erosão e, quando necessário, reassentamento de famílias em áreas onde o risco é considerado inaceitável.

Já as medidas não estruturais envolvem mapeamento contínuo dos setores de risco, fiscalização do uso e ocupação do solo, educação e participação comunitária, com incentivo à criação de Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs), além de sistemas de alerta e planos de contingência.

A geóloga lembra que o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) é um dos instrumentos previstos na Lei nº 12.608/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil. "A legislação se articula ao Estatuto da Cidade, que orienta a atualização dos planos diretores para incorporar diretrizes específicas para áreas suscetíveis a desastres", diz.

Segundo a professora, Juiz de Fora já possui PMRR e instituiu, em setembro de 2025, um Comitê de Gestão de Risco. Para que essas iniciativas se consolidem como política de Estado, ela defende apoio financeiro e técnico das três esferas de governo, com reforço permanente às equipes de Defesa Civil, investimento em infraestrutura, capacitação e monitoramento contínuo.

"Trata-se de uma agenda complexa, porém viável, desde que haja continuidade administrativa e cumprimento de metas de curto, médio e longo prazo, pois a construção de uma cidade resiliente ultrapassa o ciclo de uma única gestão de quatro anos", afirma.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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