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Brasil pode sentir efeitos do 'super El Niño' na primavera; veja previsões para diferentes regiões

Especialistas apontam chuva acima da média em São Paulo, calor mais intenso no Norte e no Nordeste, e risco de novos temporais na região Sul.

4 set 2026 - 14h52
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Resumo
O Brasil sentirá os fortes efeitos de um possível "super El Niño" na primavera, com auge previsto até dezembro. O fenômeno provocará chuvas volumosas, temporais e risco de enchentes no Centro-Sul, especialmente no Sul, em São Paulo e no Mato Grosso do Sul. Em contraste, o Centro-Norte enfrentará tempo seco, calor acima da média e maior risco de queimadas. Massas de ar frio pontuais ainda podem derrubar as temperaturas no Sul no início de setembro, mas o calor predominará na maior parte do país.
'Super El Niño' é quando a temperatura do mar fica mais de 2°C acima da média, algo registrado só quatro vezes em cerca de 150 anos
'Super El Niño' é quando a temperatura do mar fica mais de 2°C acima da média, algo registrado só quatro vezes em cerca de 150 anos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O Brasil deverá entrar na primavera, em setembro, sob a influência de um fenômeno que meteorologistas ao redor do mundo já classificam como excepcional.

Dados da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, mostram que a temperatura da superfície do Oceano Pacífico Central, região conhecida como Niño 3.4, ficou 1,8°C acima da média para o mesmo período.

"Esse valor já caracterizaria esse episódio como um El Niño de forte intensidade", afirma o meteorologista Diogo Arsego, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Segundo Arsego, a previsão é que o aquecimento no Pacífico continue nos próximos meses, atingindo o auge entre outubro e dezembro, "com mais de 90% de chance de que seja um El Niño de muito forte intensidade".

O termo "super El Niño" é usado quando a anomalia de temperatura da superfície do mar ultrapassa os 2°C acima da média histórica — um patamar registrado apenas quatro vezes em cerca de 150 anos, em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Os modelos climáticos atuais indicam que 2026 pode se tornar o quinto episódio dessa magnitude.

No Brasil, a expectativa dos meteorologistas ouvidos pela BBC News Brasil é unânime. "É cientificamente comprovado o efeito do El Niño no Brasil durante a primavera. Espera-se efeito forte", resume a pesquisadora Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Bairro em Porto Alegre após as fortes chuvas de 2024
Bairro em Porto Alegre após as fortes chuvas de 2024
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Onde os efeitos do El Niño serão mais intensos

O fenêmeno deve levar chuva concentrada ao centro-sul do país, e calor e seca ao centro-norte.

Segundo o meteorologista Gustavo Verardo, do Climatempo, os efeitos relacionados às chuvas e ao risco de temporais devem atingir os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

"Esperamos muita chuva entre Santa Catarina e Paraná, que é o ponto de destaque para a semana que vem, com chuva acima de 150 a 200 milímetros, risco de alagamentos e inundações", ele diz.

Já quando a janela analisada é o trimestre completo — que compreende os meses de setembro, outubro e novembro —, a leitura muda. Arsego cita a previsão conjunta feita pelo Inpe, pelo Inmet e pela Funceme, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, para esse período.

Há "maior probabilidade de que as precipitações fiquem acima da normal climatológica no centro-sul. Isso inclui toda a região Sul e também boa parte do estado de São Paulo e de Mato Grosso do Sul".

São Paulo deve ter chuva acima da média — "especialmente na parte sul do estado", segundo Ávila —, marcando o início de uma estação úmida adiantada.

Já o centro-norte caminhará na direção oposta. Segundo Arsego, "há maior probabilidade de que a precipitação fique abaixo da normal climatológica" no trimestre em grande parte do Norte, do Nordeste e ainda em alguns pontos do Sudeste e do Centro-Oeste.

Ávila prevê um quadro de "alta irregularidade" de chuvas no Centro-Oeste, com "eventos pontuais" em Mato Grosso e em Goiás, mas dentro do volume normal para a época. A exceção deve ser Mato Grosso do Sul, que deve ter chuva acima da média, também na região sul do estado.

O que esperar de um setembro atípico

Em condições normais, setembro marca a transição do período seco para o úmido no Brasil. "Em teoria, é um mês com bastante calor no centro-norte do país", diz Verardo, citando o retorno gradual — mas sem grandes volumes — das pancadas de chuva em áreas como Rondônia, Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal e oeste da Bahia.

Em 2026, esse padrão deve se acentuar. Segundo Arsego, há "uma tendência de que as temperaturas fiquem acima da média climatológica na maior parte do Brasil". Verardo faz coro e destaca o Nordeste e o Norte como as regiões "que vão ter a condição de temperatura acima da média histórica".

Ainda assim, os especialistas fazem uma ressalva que pode soar contraintuitiva em um ano de El Niño forte. "Os modelos estão indicando o avanço de algumas massas de ar frio na primeira quinzena de setembro, que devem provocar forte queda das temperaturas, especialmente no Sul", diz Arsego, acrescentando que o fenômeno também pode afetar parte do Sudeste e do Centro-Oeste.

O Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste devem seguir com o padrão típico de um setembro seco. "Isso traz baixos índices de umidade relativa do ar e também aumenta o risco de queimadas e problemas associados à saúde respiratória", alerta Arsego.

A previsão é que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico continue nos próximos meses, atingindo seu auge entre outubro e dezembro
A previsão é que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico continue nos próximos meses, atingindo seu auge entre outubro e dezembro
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil / BBC News Brasil

Risco de novos vendavais

Depois dos vendavais que atingiram o Sul do país em julho, a pergunta natural é se o fenômeno pode se repetir em setembro. Segundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, ainda não é possível saber.

"Temos a previsão de 'nowcasting', que é de curtíssimo prazo, então ainda não temos como estimar isso", pondera Verardo, que ainda assim destaca que "a região Sul tende a ser mais afetada pela ocorrência de temporais".

Arsego reforça que a tendência trimestral de mais ou menos chuva "não significa período sucessivos de chuvas contínuas" — e que riscos de eventos mais intensos só aparecem em escalas de previsão mais curtas.

Já Ávila considera a possibilidade de novos eventos, "principalmente nas áreas de chuva acima da média, como São Paulo e Mato Grosso do Sul". Ela também não descarta "eventos pontuais de tempestades" no Rio Grande do Sul, por ser "uma área de passagem de frentes frias e ciclones extratropicais".

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