As conversas de Jeffrey Epstein e Noam Chomsky sobre Lula: 'Prisioneiro político mais importante do mundo'
Governo americano divulgou mais de 100 GB de arquivos relacionados ao caso Epstein, com citações sobre o Brasil e autoridades locais; mensagem sobre presidente brasileiro é de 2018, quando Lula estava preso em Curitiba.
Em setembro de 2018, o linguista e filósofo americano Noam Chomsky teria comunicado a Jeffrey Epstein por email que estava no Brasil com sua mulher, envolvidos com atividades do movimento Lula Livre, que pedia a libertação do presidente brasileiro.
Chomsky mantinha longas conversas com o financista americano e chegou a ser convidado por ele para ficar em suas casas.
A comunicação está entre os documentos divulgados na última sexta-feira (30/1) pelo Departamento de Justiça dos EUA, relacionados ao caso Epstein, criminoso sexual condenado nos Estados Unidos e morto em 2019.
"No Brasil, muito envolvido em atividades do 'Lula Livre' (Valeria e eu o visitamos na prisão ontem) e outros compromissos", diz o email atribuído a ele, que está entre os arquivos. Valeria é a esposa de Chomsky.
Chomsky havia visitado Lula na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, onde o então ex-presidente cumpria pena — Lula ficou 580 dias preso e foi impedido de disputar as eleições presidenciais em 2018. Em 2021, teve suas condenações na operação Lava Jato anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O petista havia sido considerado culpado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas o STF anulou essas condenações por entender que Lula não teve seus direitos respeitados ao longo dos processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro.
Não é a primeira vez que a relação entre Lula e Chomsky e entre Chomsky e Esptein aparece nos arquivos.
Em novembro, quando outros documentos foram divulgados, um dos arquivos mostrava uma mensagem atribuída a Epstein que citava uma suposta ligação telefônica dele com Chomsky junto de Lula, ainda na prisão.
"Chomsky me ligou com Lula. Da prisão. Que mundo."
À época, Valéria Chomsky negou à imprensa que o marido tenha intermediado uma ligação entre o empresário e Lula.
Ela afirmou à CNN Brasil que a alegação era "infundada e mentirosa", que eles tiveram de deixar os aparelhos celulares na recepção e que foram revistados pela Polícia Federal antes de iniciar a visita.
O Palácio do Planalto também negou, em uma nota enviada à CNN Brasil, que a ligação tenha acontecido.
Em outro email, que também veio à tona agora, de dezembro de 2018, Chomsky descreveu Lula a Epstein como "o prisioneiro político mais importante do mundo".
"Acho que, de alguma forma, somos animais sociais. Valeria e eu vimos um caso muito triste disso recentemente. Conseguimos visitar Lula, o prisioneiro político mais importante do mundo, preso logo antes da eleição que ele provavelmente venceria, na última etapa do golpe da direita que vem ocorrendo há vários anos."
Chonsky disse a Epstein, segundo esses arquivos, que as acusações contra Lula eram ridículas.
"Ele está em confinamento solitário, sem acesso a qualquer material impresso, com direitos de visita muito limitados, uma TV sintonizada em um canal do governo e sem o direito de fazer qualquer declaração pública. A sentença é de 12 anos, mas com o atual governo neofascista no poder, ele pode sucumbir a alguma 'doença misteriosa'. É chocante a falta de atenção do mundo a isso".
A troca de emails parece ser uma longa conversa sobre os efeitos do isolamento e da necessidade humana de interação social.
Na mesma conversa, Chomsky aconselha Epstein a não publicar um artigo de opinião no jornal americano The Washington Post, em que ele tentaria defender o acordo polêmico que fez em 2008 com os promotores que o investigavam.
"Acho que a reação será do tipo 'onde há fumaça, há fogo'", aconselhou ele.
Epstein conseguiu, à época, evitar acusações federais de tráfico sexual, aceitando 13 meses de prisão. Em 2019 o caso voltou à tona, ele voltou a ser preso e foi encontrado morto em sua cela em agosto.
O alerta de Epstein a Steve Bannon sobre relação entre Chomsky e Lula
Em outro arquivo divulgado pelo governo americano, há uma conversa entre Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente americano, Donald Trump, e estrategista político, e Epstein, que também menciona Lula e Chomsky.
"Estou em Tucson (cidade no Arizona). Chomsky pode se encontrar amanhã à tarde?".
Epstein diz que vai avaliar, mas avisa a Bannon.
"A esposa dele é brasileira, então vá com calma ao falar de Bolsonaro. Eles [o casal Chomsky] são amigos do Lula. Mas ele é uma figura icônica e não se deve perder a chance de conversar sobre história e política. Vou colocar vocês em contato por email, para que possam se coordenar diretamente."
"Ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados", teria dito Epstein a Bannon, antes do encontro.
Na sequência da conversa, Bannon confirma que o encontrou e que ele era um "grande cavalheiro". Enviou, em seguida, uma imagem dos dois rindo. "Brilhante, mas fraco em alguns fatos básicos", diz Bannon.
Qual era a relação de Noam Chomsky com Jeffrey Epstein?
A relação próxima entre Epstein e Chomsky tornou-se mais evidente por meio dessas mensagens divulgadas nos últimos meses.
Epstein teria usado suas habilidades financeiras para ajudar o linguista. Eles trocaram várias mensagens ao longo dos anos e Epstein o convidou para ficar em suas casas.
Segundo Barry Levine, autor de um livro sobre a rede de Epstein, Chomsky era um dos famosos clientes financeiros de Epstein, muitos dos quais Epstein ajudou a economizar bilhões de dólares.
Ele afirmou à BBC, em novembro de 2025, que Epstein conseguiu fazer isso porque "entendia o código tributário e as finanças, em certa medida, melhor do que talvez as pessoas mais bem pagas de Wall Street".
Em uma carta de apoio sem data incluída no acervo de e-mails, Chomsky elogiava Epstein, dizendo que os dois tinham mantido "muitas discussões longas e frequentemente profundas".
O linguista de 97 anos disse anteriormente ao Wall Street Journal que Epstein o ajudou a transferir dinheiro entre contas sem "um centavo de Epstein".
"Eu o conhecia e nos encontrávamos ocasionalmente", disse ele.
"O que se sabia sobre Jeffrey Epstein era que ele havia sido condenado por um crime e cumprido sua pena. De acordo com as leis e normas dos EUA, isso resulta em uma ficha limpa."