Agentes do DOI-Codi contam em livro como matavam militantes
A Casa da Vovó será publicado em 12 de dezembro na Assembleia Legislativa de São Paulo
Agentes do Destacamento de Operações de Informações de São Paulo (DOI-Codi) revelam no livro A Casa da Vovó, com lançamento previsto para 12 de dezembro na Assembleia Legislativa, a forma como executavam militantes que haviam realizado treinamento de guerrilha no exterior ou voltado ao Brasil clandestinamente após terem sido expulsos, conforme previa uma série de regras muito bem definidas pelo órgão de repressão paulista.
Na obra, que é resultado de depoimentos, entrevistas e consultas de arquivos particulares e públicos, fica evidente a sentença de morte a qual estavam condenados guerrilheiros que operavam em São Paulo, dentro de organizações armadas como o Movimento de Libertação Popular (Molipo) e a Ação Libertadora Nacional (ALN), e grupos que defendiam a luta democrática como o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Histórias como a do sequestro e da “viagem” - como se referiam às execuções os militares do DOI CODI - de Ayrton Adalberto Mortati, o Tenente, do Molipo, e de Flávio de Carvalho Molina e Francisco José de Oliveira, outros integrante dos grupo, são contadas em detalhes pelos seus próprios protagonistas, que dividem com o leitor as percepções que tinham das atividades que desempenhavam e os fatasmas dos quais são vítimas.
“Fazia meu serviço com satisfação. Faria tudo de novo. Não me arrependo de nada", disse a tenente Neusa, que se envolvia diretamente nas operações que culminaram na morte de dezenas de procurados e militantes.
“Cada um tem seu fantasma, cada um teve a sua participação, que não escolheu, não programou, não o beneficiou em nada, não fez parte de um projeto individual. Você estava numa guerra, e a guerra era essa”, explica o agente Chico que testemunhou a resignação de uma vítima dias antes de sua execução.
Estratégias usadas para fraudar perícias e encobertar mortes ocorridas dentro dos domínios do DOI CODI em uma época em que elas já não eram mais permitidas também são reveladas.
No final das contas fica evidente, por conta da própria descrição dos autores da A Casa da Vovó – os militares que atuavam no regime militar – a real finalidade das torturas dos militantes de esquerda: a obtenção de informações sobre pessoas e organizações que pudessem levar à prisão ou à "neutralização" de outros “inimigos”.